Apontado como uma nova fronteira mineral, o estado nordestino dá passos importantes para o avanço do setor. O fato mais recente é o redirecionamento do transporte do minério de ferro da Lion Mining para o Porto do Piauí, incluindo o transbordo em alto mar para o despacho final do minério até a China.
Antes de testar a nova rota, em parceria com o governo estadual, a mineradora usava o porto de Pecém, no Ceará, como alternativa de exportação.
O redirecionar para o Porto do Piauí envolveu um processo complexo: como o terminal ainda não possui profundidade suficiente para receber diretamente navios de grande porte, a logística adotada utiliza o sistema de transbordo em alto-mar (transhipment), permitindo que embarcações menores movimentem o minério desde o terminal até navios ancorados em águas mais profundas.
O primeiro embarque comercial, iniciado em agosto de 2026, envolveu cerca de 110 mil toneladas de minério de ferro produzido em Piripiri. A operação utilizou um graneleiro, responsável pelo transporte da carga entre o terminal e o ponto de fundeio. Um segundo navio é utilizado para armazenamento temporário e o transatlântico da classe Capesize recebe a carga para o transporte internacional.
Ampliação de ferrovia

Com a utilização do Porto do Piauí, em Luís Correia, a distância do transporte rodoviário entre a região produtora de Piripiri e o litoral foi significativamente reduzida, diminuindo os custos de frete e a pegada de carbono da operação de escoamento.
O modelo logístico, inicialmente testado em uma operação conjunta com a participação de órgãos federais e estaduais, passou à etapa de operação comercial.
De acordo com Bruno Casanova, superintendente de Mineração e Energias Renováveis do estado do Piauí, a otimização logística de longo prazo para a jazida de Piripiri contempla a reativação de um antigo traçado ferroviário, que liga Teresina ao porto, convertendo o trecho entre Piripiri e o Porto do Piauí para o modal ferroviário de cargas. Atualmente, a única ferrovia ativa na região conecta São Luís, Teresina e Fortaleza, e é utilizada exclusivamente para o transporte de combustíveis.
Ainda segundo ele, a alternativa de transbordo em alto mar a partir do Porto do Piauí substitui o escoamento do minério de ferro inicialmente feito via o Porto de Pecém, no Ceará, realizado por transporte rodoviário.
Essa rota terrestre de 540 km demanda a circulação diária de até 90 caminhões pesados pelas rodovias da região, gerando desgaste na infraestrutura asfáltica e elevação de custos operacionais.
A rota para o Ceará amplia a vantagem geográfica da jazida da Lion Mining, situada a apenas 200 km da costa piauiense: uma distância significativamente menor se comparada aos corredores logísticos de Carajás, no Pará, ou do Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, dois outros importantes produtores de minério de ferro.
Logística para cobalto e níquel
A parceria entre estado e iniciativa privada no caso da Lion Mining mostra também um diferencial do Piauí, marcado por iniciativas como a criação da Superintendência de Mineração e Energias Renováveis em 2024.
O órgão faz parte da Secretaria de Planejamento e tem como meta unificar a gestão de dados minerais. Como resultado dessa modernização, a superintendência desenvolveu um observatório público que disponibiliza informações atualizadas de processos minerários, localização de depósitos e ocorrências de minerais críticos no território estadual.
Esse processo contribuiu para ampliar e fortalecer o setor no estado, segundo Casanova. Ele aponta que a mudança do perfil minerador do Piauí começou em 2021, com a produção de minério de ferro na região de Piripiri. A operação alterou a arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) do estado, historicamente concentrada em calcário e minerais destinados à construção civil.
O Piauí possui outros projetos minerais relevantes em fase de licenciamento e estruturação de transporte.
Na região sul, no município de Capitão Gervásio Oliveira, estão localizados os projetos voltados à extração de níquel e cobalto.
É o caso da Piauí Níquel Metais, que possui planta piloto não operacional e está em processo de licenciamento ambiental e captação de investimentos para expansão da unidade industrial.
Segundo Casanova, o governo estadual pavimentou recentemente uma rodovia na região para ligar a planta de níquel ao sistema de escoamento regional, facilitando a logística.
A infraestrutura prevista para o níquel do sul do Piauí também utilizará o ramal sul da Ferrovia Transnordestina, que já se encontra executado na região de Paulistana. Contudo, a ligação ferroviária definitiva do ramal até o Porto de Pecém ainda depende da construção de um trecho final, de aproximadamente 100 quilômetros, sob responsabilidade da concessionária ferroviária.
Até que essa ferrovia esteja totalmente concluída, o níquel e o cobalto deverão utilizar transporte rodoviário até as conexões ativas de escoamento, de acordo com Casanova.