- A mineração sustentável exige transição do compliance regulatório para criação de valor compartilhado com territórios, comunidades e cadeia de fornecedores através de práticas ESG integradas.
- Grandes compradores utilizam maturidade ESG como critério de desempate em cotações, transformando sustentabilidade em diferencial competitivo para fornecedores de todos os portes.
- Ecossistemas circulares integrados entre mineradoras, fornecedores e indústrias geram valor coletivo, exigindo quebra de barreiras setoriais, investimento em tecnologia e fortalecimento de confiança na cadeia.
A sustentabilidade e a resiliência no longo prazo do setor de mineração dependem de uma mudança de mentalidade que passa do mero compliance regulatório para a criação de valor compartilhado com os territórios e toda a cadeia de fornecimento. No painel “Desenvolvimento e capacitação em ESG na cadeia produtiva do setor mineral”, da Exposibram 2025, especialistas trouxeram à luz a importância de integrar a visão de negócio com as necessidades sociais e ambientais locais, utilizando o ESG como alavanca de desenvolvimento.
O território como coração do negócio
A mineração, por sua natureza de longo prazo, exige uma visão integrada, ou seja, além dos limites da mina. Cristina Bruce, VP Sênior de Sustentabilidade e Impacto Social da Anglo American, mencionou o caso de uma mina da companhia no sul do Peru que levou 21 anos para ser desenvolvida, mas foi paralisada pela perspectiva da comunidade.

“Quando eu cheguei na Anglo, esse projeto estava completamente paralisado a partir da perspectiva da comunidade e a única forma de continuar com a mina seria ter uma abordagem holística para com ESG. Nós então trabalhamos com representantes da empresa e da comunidade para criar uma mesa de diálogo”, conta Bruce. Voluntários da comunidade foram capacitados para monitorar o desenvolvimento da mineração, garantindo transparência e confiança.
Capacitação na cadeia
A sustentabilidade precisa ser hiper local, mas também transversal. Um dos grandes desafios apontados é levar as práticas ESG para os fornecedores, especialmente os de menor porte. Tercio Calmon, coordenador de Indústria do Sebrae da Bahia, destacou que as práticas ambientais, sociais e de governança devem ser encaradas como um diferencial competitivo, e não apenas uma obrigação, e acrescentou que grandes compradores já utilizam o grau de maturidade ESG como critério de desempate em cotações.

Para os agentes que ainda não têm maturidade nas engrenagens de sustentabilidade, os especialistas recomendam começar pelo básico: escutar o território e os stakeholders, ter uma matriz de materialidade bem feita e entender as urgências locais. Juliana Junqueira, CEO da Progesys Latam, reforçou que a “bíblia” do desenvolvimento sustentável, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, são um excelente ponto de partida para qualquer empresa.
Ecossistemas circulares e colaboração
A mineração, sendo a base de muitas cadeias produtivas, tem importante papel na transição para uma economia regenerativa e circular. “A iniciativa privada pode — e deve — capitanear ações junto ao poder público. Falamos muito sobre economia circular, mas ainda vemos poucos exemplos de ecossistemas verdadeiramente integrados. Talvez o próximo passo seja justamente conectar mineradoras, fornecedores e indústrias para compartilhar fluxos de materiais e gerar valor competitivo coletivo, em vez de iniciativas isoladas”, sugeriu Junqueira, da Progize.

Entre as necessidades apontadas para se chegar a esse caminho estão: quebra de barreiras setoriais (superar a mentalidade de competição e migrar para um modelo de colaboração estratégica), investimento em tecnologia (utilizar plataformas digitais e rastreabilidade para garantir visibilidade no fluxo de materiais e informações) e confiança (fortalecer os elos entre os atores da cadeia para garantir a colaboração).
Diálogo e legado
O legado de um projeto minerário não deve se limitar ao tempo de vida da mina. Os especialistas citaram o exemplo da Vale, que criou uma frente de desenvolvimento econômico com agricultores e pecuaristas, e reforçaram que o planejamento do pós-mineração precisa começar no nascedouro do projeto, respeitando a vocação local e trabalhando em suas potências.

Rosane Gomes Santos, diretora de Sustentabilidade na Samarco, encerrou o painel com um apelo: o sucesso da empresa será medido pelo progresso da sociedade. A mineração contemporânea precisa transformar o capital natural em sucesso para o negócio e em progresso para as pessoas, um compromisso que exige a colaboração de todos os atores.
Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.
*Especial para o Radar Mineração

