A corrida pelo lítio, cobre e minério de ferro não é apenas uma questão ambiental. É uma redefinição do poder global em tempo real.
Essa foi a provocação central de um debate promovido em Belém, durante a COP30, pela coalizão empresarial C.A.S.E., fruto da união de Bradesco, Itaúsa, Itaú Unibanco, Marcopolo, Natura, Nestlé e Vale. O painel foi conduzido por Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente e co-chair do Painel Internacional de Recursos Naturais da ONU. E para quem trabalha em mineração, a mensagem é incômoda: o século XX foi sobre quem controlava o petróleo. O século XXI será sobre quem controla os minerais que eletrificam o mundo.
”Achamos que temos soluções baseadas na natureza, mas temos soluções totalmente dependentes da natureza para eletrificação e descarbonização. Isso é baseado em minerais”, alertou Teixeira. A correção semântica esconde uma realidade geopolítica: toda a transição energética — painéis solares, baterias, redes de distribuição, data centers — repousa sobre cadeia de suprimento mineral. E essa cadeia é concentrada, estratégica e disputada.

“A política de poder é parte do desafio”, enfatizou Teixeira. Não é retórica. É diagnóstico.
O dilema do siderurgista: para onde se mover?
A indústria siderúrgica exemplifica a reconfiguração imposta pela transição. Responsável por quase 2 bilhões de toneladas de aço e 4 bilhões de toneladas de CO2 anuais, a siderurgia agora enfrenta uma questão existencial: a locação histórica perto de minas de carvão faz sentido?
A resposta é não. Conforme Clare Broadbent, Head de Sustentabilidade da Associação Mundial do Aço, questionou no debate: “A indústria está realmente localizada no lugar onde deveria estar?”
O dilema leva a uma reconfiguração radical. Siderúrgicas migram para onde energia limpa é abundante — onde há hidrogênio verde, energia renovável competitiva, ou proximidade de mineração de qualidade. Os desafios técnicos são assustadores: produção de hidrogênio em escala, armazenamento seguro, infraestrutura de distribuição. Mas o desafio maior é político e geográfico: como atrair siderurgia para regiões onde historicamente não havia demanda?
Para mineradores, isso se traduz em pergunta estrutural: continuamos vendendo minério bruto para siderúrgicas na China e Europa, ou estruturamos industrialização localmente?
O Brasil na encruzilhada: a “trilogia” inseparável
Grazielle Parenti, vice-presidente de Sustentabilidade da Vale, ofereceu o diagnóstico que deveria estar em todo board de mineração brasileira: a economia de baixo carbono é uma “trilogia” inseparável de clima, energia e mineração.

A matemática é simples. Um carro elétrico exige seis vezes mais minerais que um veículo convencional. Bateria de lítio, cobre, níquel, manganês, cobalto — a demanda por esses elementos não é mais marginal, é estrutural. E o Brasil tem reservas significativas de praticamente todos.
Mas há um detalhe que muda tudo. “Quando vendemos algo, vendemos energia em forma metálica. E isso mudou completamente a maneira como vemos a mineração”, afirmou Parenti.
A constatação é reveladora. Minério não é commodity neutra. É energia — energia solar ou eólica capturada em moléculas de cobre, níquel, ferro. Quando o Brasil vende minério bruto, está exportando energia limpa a preço de matéria-prima. Quando processa localmente, agrega valor transformando commodity em componentes industriais, produtos acabados, tecnologia.
A oportunidade brasileira, portanto, não está apenas em extrair mais. Está em transformar mais também.
Com matriz energética favorável — hidrelétricas, eólica, potencial de solar — o país poderia deixar de ser mero fornecedor de minério para se tornar exportador de aço verde, cobre processado, componentes de bateria. Isso criaria cadeia de valor local, empregos de maior qualificação, impostos. E, mais importante, poder geopolítico.
Porque quem controla a cadeia de valor controla a transição.
Os obstáculos não são apenas técnicos
Mas aqui está a brutalidade da realidade que nenhuma startup resolve: os obstáculos não são tecnológicos, são estruturais.
Izabella Teixeira foi direta ao questionar a mentalidade de “simples exportador” e apontar para a complexidade de atrair investimento em regiões como a Amazônia. “Precisamos entender como promover investimentos aqui com a realidade do crime organizado, que é transnacional, e garantir que o custo do dinheiro nos permita realmente promover isso”, ponderou.

Traduzindo: não basta ter minério e energia. É preciso:
- Segurança fundiária robusta (garantir que concessões sejam respeitadas)
- Combate ao crime organizado que invade territórios
- Custo de capital acessível (Brasil sofre com taxas de juros elevadas)
- Infraestrutura de logística para evacuar produtos processados
- Regulação clara e previsível
Mineradoras globais não fazem bilhões de dólares em investimento em processamento com ambiente regulatório instável. E o Brasil ainda não consolidou essa estabilidade.
Quem paga pela transição?

O debate também expôs uma tensão ética que a mineração precisa encarar: quem paga pelo custo da transição?
Do lado do consumidor, emerge uma pergunta incômoda: “Você está realmente disposto a pagar extra por materiais de baixo carbono para ajudar na transição?” A resposta, evidentemente, é morna. O consumidor quer produto verde, mas barato. Contradição que trava escala.
Da indústria, exige-se capital e coragem para inovar. “É bastante crítico que a indústria esteja preparada para tomar riscos, e o financiamento precisa estar disponível”, foi consenso no painel.
Mas Parenti oferece diagnóstico mais preciso: “Para bons projetos, você sempre encontra dinheiro. O desafio é ter bons projetos.”
A diferença parece novamente ser semântica, mas é igualmente estrutural. O capital existe. O que falta é capacidade de estruturar projetos de industrialização mineral que sejam viáveis economicamente, seguros politicamente, e comprovadamente de impacto ambiental e social.
As mineradoras brasileiras em geral estão preparadas para fazer isso? Conhecem o mercado de aço verde? Conseguem fechar offtakes de longo prazo com compradores internacionais? Têm expertise em processamento industrial ou apenas em extração?
Essas perguntas não têm resposta única — e esse é o risco.
O campo de batalha: soberania digital e narrativa
Mas há um aspecto que os mineradores frequentemente ignoram: o poder passa também por controlar narrativa e dados.
Teixeira alertou para o perigo imediato de “política de percepção”. Em um mundo polarizado, “percepção está se tornando um perigo na política, não a realidade”, afirmou. Manipulação de informações pode minar esforços colaborativos e criar barreiras comerciais baseadas em desinformação.
E aqui há um ponto de vulnerabilidade crítica: soberania de dados. Aproximadamente 60% dos dados brasileiros são hospedados em servidores nos EUA — vulnerabilidade motivada por custos e questões fiscais. Para mineradoras, isso significa que dados de operações, geologia, cadeia de suprimento, podem estar fisicamente fora do controle nacional.
“E nós vamos discutir a reforma fiscal no Brasil, e ninguém mencionou isso”, criticou Teixeira, apontando para a urgência de debater segurança de dados em nível nacional.
Para mineração: quem controla seus dados controla sua inteligência competitiva. Quando dados de extração, processamento, logística estão hospedados externamente, há risco geopolítico.
A encruzilhada é agora
A conclusão de Teixeira é um chamado à ação disfarçada de diagnóstico: “Bem-vindo ao novo mundo da mudança climática, onde a política de poder prevalece.”
Para o Brasil, a pergunta é binária e urgente: ser mero fornecedor de matéria-prima ou ser arquiteto da nova ordem mineral?
Continuar exportando minério bruto pode significar a aceitação de que o valor será capturado em outra geografia, em outro país, por outro minerador. Significa que siderúrgicas verdes poderão ser construídas no Marrocos, na Índia ou na Austrália — não aqui.
Estruturar a industrialização localmente significa investimento massivo, risco político, coordenação entre governo e setor privado. Significa disputar investimento global com outras geografias também ricas em recursos. Significa consolidar segurança jurídica e estabilidade política que o Brasil ainda não oferece plenamente.
** Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

