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Aérea da floresta amazônica no Brasil, destacando a importância da preservação ambiental na Amazônia, relacionada à Conferência COP30 Brasil.
Foto: DOERS / Shutterstock

Como a COP30 quer conectar o capital global à bioeconomia

Do lado do capital, há liquidez de sobra. Do lado da floresta, a urgência é máxima. O desafio é construir a ponte, alinhando métricas e políticas que façam sentido para o mercado sem trair a lógica da natureza.

Por Viviane Kulczynski *, 3 min de leitura

Publicado em 31/10/2025

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  • A COP30 deve priorizar mecanismos financeiros que conectem capital global à bioeconomia amazônica, transformando a liquidez disponível em impacto real com segurança jurídica e rentabilidade aceitável.
  • Bancos de desenvolvimento como o BNDES utilizam instrumentos de redução de risco (equity, crédito e não reembolsáveis) para precificar serviços ecossistêmicos e atrair investimento privado em escala, conforme modelo bem-sucedido em energias renováveis.
  • A implementação de créditos de biodiversidade e reforma agroflorestal é essencial para evitar concentração fundiária, garantindo que recursos verdes gerem empregos locais e renda distribuída entre comunidades amazônicas.
Resumo revisado pela redação.

A poucos dias da COP30 em Belém, uma palavra ecoa com força: implementação. A era dos diagnósticos e promessas precisa dar lugar à ação coordenada, e o foco na Conferência que se aproxima deve estar em como mobilizar o capital necessário para destravar a bioeconomia e a restauração florestal em larga escala.

Iniciativas como o Fundo das Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e a rota Baku-Belém, que estima a necessidade de US$ 1,3 trilhão anuais para adaptação climática, sinalizam que o dinheiro existe. O verdadeiro desafio, no entanto, é mais complexo: criar um caminho seguro e rentável para que esses recursos cheguem à ponta, gerando impacto real com risco aceitável e, acima de tudo, justiça social.  Esse foi o foco de um dos debates que marcaram o segundo dia da Conferência Internacional Amazônia e Novas Economias, em Salvador.  

Descompasso histórico entre a Faria Lima e a floresta

O dilema central foi apontado por Francisco de Assis Costa, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e referência em economia amazônica. Existe um descompasso histórico entre a cultura financeira tradicional e a lógica socioecológica da Amazônia. As decisões de investimento raramente consideram os ciclos, os tempos e os riscos intrínsecos ao bioma. “Sem corrigir essa estranheza, a liquidez global não se transforma em impacto positivo”, afirma.

Para Luana Maia, da Nature Finance Brasil, a solução passa por traduzir o valor da natureza em métricas que o mercado financeiro entenda. “Cem por cento da economia depende da natureza, mas o capital natural segue sem um preço apropriado”, pontua. O objetivo não é “monetizar a floresta”, mas sim reconhecer seus custos e serviços, criando garantias e instrumentos de derisking (redução de risco) que tornem as soluções baseadas na natureza atraentes para o grande capital.

Engenharia do risco-retorno em ação

É exatamente nessa engenharia que atuam os bancos de desenvolvimento. Pedro Paulo Dias Mesquita, do BNDES, detalha a operação: fechar a conta risco-retorno. O banco já lançou uma chamada de R$ 5 bilhões para fundos de transformação ecológica e florestas, utilizando instrumentos não reembolsáveis, crédito e equity.

A experiência com energias renováveis serve de lição: quando o ambiente de mercado se torna favorável, os bancos de desenvolvimento assumem o risco inicial e puxam a escala necessária. Para a bioeconomia, a urgência é precificar a natureza e avançar em mecanismos como a taxação de carbono. Sem isso, produtos como “fertilizantes verdes” perdem competitividade para alternativas fósseis, e o financiamento trava.

Felizmente, o cenário está mudando. Tatiana Botelho, do International Institute for Sustainability (IIS), destaca que, se em 2017 faltavam negócios de escala, hoje já existem empresas consolidadas em áreas como nanocelulose, plásticos de mandioca e alimentos regionais. A filantropia assumiu o primeiro risco (first-loss), abrindo caminho para que fundos de equity e crédito entrem no jogo.

Financiar a floresta sem repetir a desigualdade

Contudo, um alerta crucial paira sobre essa corrida pelo capital verde. Francisco Costa adverte que grandes projetos de restauração e carbono podem, paradoxalmente, reproduzir a histórica desigualdade fundiária do país. “Em termos matemáticos, 1,7% dos proprietários de terra podem concentrar cerca de 60% dos recursos”, afirma.

A solução, segundo ele, precisa combinar escala com mudança estrutural: uma espécie de “reforma agroflorestal”, na qual o Estado poderia adquirir áreas degradadas para redistribuí-las a famílias e comunidades, fomentando sistemas agroflorestais. Essa abordagem gera empregos verdes locais, diversifica a economia e remunera os serviços ambientais com inclusão.

Inovação no setor público: créditos de biodiversidade

Conceito de crescimento sustentável com imagens de árvores, painéis solares e turbinas eólicas, simbolizando energia renovável e inovação ecológica.
Foto: TA design / Shutterstock

Enquanto o mercado se ajusta, uma inovação institucional pioneira surge nos estados amazônicos. Secretarias de Fazenda da Amazônia Legal lançarão na COP30 um projeto de crédito de biodiversidade para Unidades de Conservação (UCs), estruturado via Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). A iniciativa, inédita, coloca as finanças públicas na vanguarda da valoração de ecossistemas, transformando a conservação em um ativo fiscal com receita previsível.

O FIDC converte a conservação comprovada em direitos creditórios, dialogando com metodologias globais para atrair investidores e financiar políticas de desenvolvimento, como saneamento e infraestrutura, com recursos gerados pela própria floresta.

A COP da Implementação: do risco exótico ao ativo estratégico

O fio condutor é claro: a liquidez existe, os instrumentos financeiros estão sendo criados e os casos de sucesso na bioeconomia começam a aparecer. Para que a COP30 seja, de fato, a “COP da Implementação”, será preciso aceitar o “tempo da Amazônia”, definir métricas claras e criar salvaguardas que impeçam a concentração de renda.

Se o Brasil conseguir orquestrar essa complexa equação, poderá provar ao mundo que a Floresta Amazônica deixou de ser um risco exótico para se tornar um ativo de imenso valor estratégico — na contabilidade pública, nos portfólios privados e, principalmente, na qualidade de vida de quem vive no território. A ponte entre o capital e a floresta está em construção.

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

* Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

A bioeconomia refere-se ao uso sustentável dos recursos biológicos para gerar valor econômico, especialmente na Amazônia. A COP30 em Belém busca conectar o capital global a projetos de bioeconomia e restauração florestal, transformando a Floresta Amazônica de um risco exótico em um ativo estratégico com valor comprovado nos portfólios privados e públicos.

Segundo a rota Baku-Belém, estima-se a necessidade de US$ 1,3 trilhão anuais para adaptação climática. Iniciativas como o Fundo das Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) sinalizam que o dinheiro existe, mas o desafio central é criar um caminho seguro e rentável para que esses recursos cheguem à ponta, gerando impacto real com risco aceitável e justiça social.

O desafio central é o descompasso histórico entre a cultura financeira tradicional e a lógica socioecológica da Amazônia. As decisões de investimento raramente consideram os ciclos, tempos e riscos intrínsecos ao bioma. Para resolver isso, é necessário traduzir o valor da natureza em métricas que o mercado financeiro entenda e criar instrumentos de redução de risco que tornem as soluções baseadas na natureza atraentes para o grande capital.

O BNDES lançou uma chamada de R$ 5 bilhões para fundos de transformação ecológica e florestas, utilizando instrumentos não reembolsáveis, crédito e equity. O banco atua na engenharia do risco-retorno, assumindo o risco inicial para puxar a escala necessária, seguindo o modelo bem-sucedido das energias renováveis.

Francisco Costa alerta que grandes projetos de restauração e carbono podem concentrar recursos em poucos proprietários. A solução proposta é combinar escala com mudança estrutural através de uma 'reforma agroflorestal', na qual o Estado adquiriria áreas degradadas para redistribuí-las a famílias e comunidades, gerando empregos verdes locais e remunerando serviços ambientais com inclusão social.

Créditos de biodiversidade são uma inovação institucional lançada na COP30 por secretarias de Fazenda da Amazônia Legal. Estruturados via Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), convertem a conservação comprovada em direitos creditórios, transformando a conservação em um ativo fiscal com receita previsível que pode financiar políticas de desenvolvimento como saneamento e infraestrutura.

Existem três tipos principais de bioeconomia: a bioeconomia biotecnológica, que utiliza tecnologias avançadas; a bioeconomia de biorrrecursos, focada em produtos como nanocelulose e plásticos de mandioca; e a bioeconomia bioecológica, baseada em práticas conservacionistas. Hoje já existem empresas consolidadas em áreas como alimentos regionais e produtos sustentáveis que atraem investimento de equity e crédito.

Precificar a natureza reconhecendo seus custos e serviços é fundamental para criar garantias e instrumentos de redução de risco que tornem as soluções baseadas na natureza atraentes para o capital. Sem isso, produtos como 'fertilizantes verdes' perdem competitividade para alternativas fósseis. Mecanismos como taxação de carbono são essenciais para que o financiamento da bioeconomia destrabe e escale.