- A COP30 deve priorizar mecanismos financeiros que conectem capital global à bioeconomia amazônica, transformando a liquidez disponível em impacto real com segurança jurídica e rentabilidade aceitável.
- Bancos de desenvolvimento como o BNDES utilizam instrumentos de redução de risco (equity, crédito e não reembolsáveis) para precificar serviços ecossistêmicos e atrair investimento privado em escala, conforme modelo bem-sucedido em energias renováveis.
- A implementação de créditos de biodiversidade e reforma agroflorestal é essencial para evitar concentração fundiária, garantindo que recursos verdes gerem empregos locais e renda distribuída entre comunidades amazônicas.
A poucos dias da COP30 em Belém, uma palavra ecoa com força: implementação. A era dos diagnósticos e promessas precisa dar lugar à ação coordenada, e o foco na Conferência que se aproxima deve estar em como mobilizar o capital necessário para destravar a bioeconomia e a restauração florestal em larga escala.
Iniciativas como o Fundo das Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e a rota Baku-Belém, que estima a necessidade de US$ 1,3 trilhão anuais para adaptação climática, sinalizam que o dinheiro existe. O verdadeiro desafio, no entanto, é mais complexo: criar um caminho seguro e rentável para que esses recursos cheguem à ponta, gerando impacto real com risco aceitável e, acima de tudo, justiça social. Esse foi o foco de um dos debates que marcaram o segundo dia da Conferência Internacional Amazônia e Novas Economias, em Salvador.
Descompasso histórico entre a Faria Lima e a floresta
O dilema central foi apontado por Francisco de Assis Costa, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e referência em economia amazônica. Existe um descompasso histórico entre a cultura financeira tradicional e a lógica socioecológica da Amazônia. As decisões de investimento raramente consideram os ciclos, os tempos e os riscos intrínsecos ao bioma. “Sem corrigir essa estranheza, a liquidez global não se transforma em impacto positivo”, afirma.
Para Luana Maia, da Nature Finance Brasil, a solução passa por traduzir o valor da natureza em métricas que o mercado financeiro entenda. “Cem por cento da economia depende da natureza, mas o capital natural segue sem um preço apropriado”, pontua. O objetivo não é “monetizar a floresta”, mas sim reconhecer seus custos e serviços, criando garantias e instrumentos de derisking (redução de risco) que tornem as soluções baseadas na natureza atraentes para o grande capital.
Engenharia do risco-retorno em ação
É exatamente nessa engenharia que atuam os bancos de desenvolvimento. Pedro Paulo Dias Mesquita, do BNDES, detalha a operação: fechar a conta risco-retorno. O banco já lançou uma chamada de R$ 5 bilhões para fundos de transformação ecológica e florestas, utilizando instrumentos não reembolsáveis, crédito e equity.
A experiência com energias renováveis serve de lição: quando o ambiente de mercado se torna favorável, os bancos de desenvolvimento assumem o risco inicial e puxam a escala necessária. Para a bioeconomia, a urgência é precificar a natureza e avançar em mecanismos como a taxação de carbono. Sem isso, produtos como “fertilizantes verdes” perdem competitividade para alternativas fósseis, e o financiamento trava.
Felizmente, o cenário está mudando. Tatiana Botelho, do International Institute for Sustainability (IIS), destaca que, se em 2017 faltavam negócios de escala, hoje já existem empresas consolidadas em áreas como nanocelulose, plásticos de mandioca e alimentos regionais. A filantropia assumiu o primeiro risco (first-loss), abrindo caminho para que fundos de equity e crédito entrem no jogo.
Financiar a floresta sem repetir a desigualdade
Contudo, um alerta crucial paira sobre essa corrida pelo capital verde. Francisco Costa adverte que grandes projetos de restauração e carbono podem, paradoxalmente, reproduzir a histórica desigualdade fundiária do país. “Em termos matemáticos, 1,7% dos proprietários de terra podem concentrar cerca de 60% dos recursos”, afirma.
A solução, segundo ele, precisa combinar escala com mudança estrutural: uma espécie de “reforma agroflorestal”, na qual o Estado poderia adquirir áreas degradadas para redistribuí-las a famílias e comunidades, fomentando sistemas agroflorestais. Essa abordagem gera empregos verdes locais, diversifica a economia e remunera os serviços ambientais com inclusão.
Inovação no setor público: créditos de biodiversidade

Enquanto o mercado se ajusta, uma inovação institucional pioneira surge nos estados amazônicos. Secretarias de Fazenda da Amazônia Legal lançarão na COP30 um projeto de crédito de biodiversidade para Unidades de Conservação (UCs), estruturado via Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). A iniciativa, inédita, coloca as finanças públicas na vanguarda da valoração de ecossistemas, transformando a conservação em um ativo fiscal com receita previsível.
O FIDC converte a conservação comprovada em direitos creditórios, dialogando com metodologias globais para atrair investidores e financiar políticas de desenvolvimento, como saneamento e infraestrutura, com recursos gerados pela própria floresta.
A COP da Implementação: do risco exótico ao ativo estratégico
O fio condutor é claro: a liquidez existe, os instrumentos financeiros estão sendo criados e os casos de sucesso na bioeconomia começam a aparecer. Para que a COP30 seja, de fato, a “COP da Implementação”, será preciso aceitar o “tempo da Amazônia”, definir métricas claras e criar salvaguardas que impeçam a concentração de renda.
Se o Brasil conseguir orquestrar essa complexa equação, poderá provar ao mundo que a Floresta Amazônica deixou de ser um risco exótico para se tornar um ativo de imenso valor estratégico — na contabilidade pública, nos portfólios privados e, principalmente, na qualidade de vida de quem vive no território. A ponte entre o capital e a floresta está em construção.
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* Especial para o Radar Mineração


