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Txai Surui participando da Conferência, discutindo sustentabilidade e preservação da floresta amazônica em evento internacional.
Txai Suruí, líder indígena (Foto: Thiago Brandão / IBRAM via Flickr)

Diálogo honesto: Txai Suruí denuncia garimpo ilegal, contaminação por mercúrio e pede justiça climática

Na Conferência Internacional Amazônia e Novas Economias, a líder indígena cobra transparência, respeito aos direitos dos povos originários e revisão do modelo de exploração mineral

Por Viviane Kulczynski *, 2 min de leitura

Publicado em 31/10/2025 | Atualizado em 05/11/2025

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  • Txai Suruí denuncia contaminação por mercúrio em 100% das aldeias da Terra Indígena Sete de Setembro causada pelo garimpo ilegal, afetando especialmente crianças e gestantes.
  • A líder indígena questiona a narrativa de inevitabilidade da mineração para transição energética, argumentando que a floresta em pé é a maior tecnologia disponível e que seu povo prioriza agroflorestas e agricultura.
  • Txai reafirma que justiça climática depende de demarcação de terras indígenas, respeito aos direitos e saberes tradicionais, e que povos indígenas são essenciais para proteger a Amazônia do ponto de não retorno.
Resumo revisado pela redação.

A líder indígena Txai Suruí, de Rondônia, defendeu um “diálogo honesto” sobre mineração no Brasil, com transparência, dados científicos e respeito aos direitos dos povos indígenas na abertura do segundo dia da Conferência Internacional Amazônia e Novas Economias, em Salvador.

Txai convidou o setor mineral a reconhecer limites da tecnologia frente à crise climática e a enfrentar os impactos socioambientais do modelo de exploração atual, que, em suas palavras, ainda naturaliza a superexploração dos recursos e concentra riqueza, deixando os danos para as populações mais vulneráveis.

Indicada pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, para o Grupo Consultivo de Jovens sobre Mudanças Climáticas, Txai se apresenta como guerreira indígena do povo Paité Suruí, da Terra Indígena Sete de Setembro. Ao abrir sua palestra a jovem lançou uma provocação à plateia, boa parte do setor mineral: “É possível ter um diálogo franco sobre mineração?”. Em sua avaliação, o debate costuma ficar restrito a argumentos de inevitabilidade e necessidade para a transição energética, sem encarar plenamente para quem essa transição é justa.

Para Txai, há um equívoco em supor que a tecnologia, sozinha, resolverá as mudanças climáticas. Ela defendeu que a maior “tecnologia” disponível é a própria natureza — a floresta em pé — e que é preciso humildade para reconhecer os limites humanos diante dos sistemas naturais.

Entre os pontos mais contundentes de sua fala, Txai denunciou o avanço do garimpo ilegal na Terra Indígena Sete de Setembro, relatando contaminação de famílias, matas e rios por mercúrio. Segundo ela, estudo realizado com a Fiocruz identificou contaminação por mercúrio em 100% das aldeias analisadas, com níveis mais elevados entre pessoas idosas que dependem dos rios, e risco especialmente grave para bebês e crianças, dado o efeito do mercúrio sobre o desenvolvimento fetal. Txai afirmou também que menos de 10% do povo Paité Suruí já trabalhou no garimpo ilegal, rebatendo o argumento de que a mineração seria a única via de emprego e desenvolvimento para as comunidades: “Nosso povo quer plantar agroflorestas, reflorestar, viver da terra e da agricultura.”

A jovem líder defendeu que os direitos à informação, decisão e reparação das comunidades sejam garantidos, chamando atenção para a necessidade de fiscalização rigorosa e imparcial.

Txai apontou ainda para o agravamento das emergências climáticas na Amazônia e no Brasil, mencionando a percepção científica de que a região está no “ponto de não retorno” e os efeitos já sentidos no território: rios secando, perda de safras e calor extremo. Ela observou que, em um país tropical como o nosso, aumentos globais médios de temperatura têm impactos mais severos localmente, com sensação de aquecimento muito superior em estados como o seu, Rondônia.

Apesar do diagnóstico duro, Txai afirmou manter esperança baseada na indignação e na ação coletiva. Como exemplos concretos, ela destacou iniciativas do povo Paité Suruí: plantio de mais de um milhão de árvores, projetos de ecoturismo para dialogar com a sociedade, sistemas agroflorestais e produção de café orgânico. “Somos seres-natureza e protegemos o território com a nossa vida. Sem ele, não existimos.”

Ao final, Txai reforçou que não há justiça climática sem justiça social, sem demarcação de terras indígenas e sem respeito aos modos de vida e saberes tradicionais. Ela conclamou o setor mineral, comunidades e sociedade a se engajarem em um diálogo honesto, com coragem para transformar práticas: “Que todos saiam com a coragem de lutar e transformar este mundo. Os povos indígenas são parte essencial da solução para enfrentar as emergências climáticas. É dentro dos nossos territórios que a floresta segue de pé.”

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

* Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

Txai Suruí é uma líder indígena do povo Paité Suruí, da Terra Indígena Sete de Setembro, localizada em Rondônia. Indicada pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, para o Grupo Consultivo de Jovens sobre Mudanças Climáticas, ela atua como defensora dos direitos indígenas e da proteção ambiental, denunciando os impactos do garimpo ilegal e promovendo iniciativas de sustentabilidade em seu território.

Segundo estudo realizado com a Fiocruz na Terra Indígena Sete de Setembro, 100% das aldeias analisadas apresentaram contaminação por mercúrio. Os níveis mais elevados foram encontrados em pessoas idosas que dependem dos rios para subsistência, enquanto bebês e crianças enfrentam riscos especialmente graves devido aos efeitos do mercúrio sobre o desenvolvimento fetal e neurológico.

Sim, o Brasil é signatário de um tratado internacional assinado por 152 países que estabelece restrições rigorosas ao uso do mercúrio em diversos setores. Desde 2019, a fabricação e comercialização de termômetros e equipamentos médicos que utilizam mercúrio estão proibidas no país. No entanto, o mercúrio continua sendo utilizado ilegalmente no garimpo para a extração de ouro.

O mercúrio é utilizado no garimpo ilegal porque forma uma amalgama com o ouro, uma mistura física entre os dois metais que facilita a extração do ouro de minérios. Essa prática, embora eficaz para a separação do ouro, é extremamente prejudicial ao ambiente e à saúde humana, especialmente quando inalado ou quando contamina rios e solos.

Txai defende um diálogo honesto sobre mineração com transparência, dados científicos e respeito aos direitos indígenas. Ela questiona a suposição de que a tecnologia sozinha resolverá as mudanças climáticas e argumenta que a maior 'tecnologia' disponível é a própria natureza, especialmente a floresta em pé. Para ela, é necessário reconhecer os limites humanos diante dos sistemas naturais e garantir que a transição energética seja justa para todas as populações.

O povo Paité Suruí está desenvolvendo diversas iniciativas sustentáveis, incluindo o plantio de mais de um milhão de árvores, projetos de ecoturismo, sistemas agroflorestais e produção de café orgânico. Txai enfatiza que menos de 10% do povo trabalhou no garimpo ilegal e que a comunidade prefere plantar agroflorestas, reflorestar e viver da terra e da agricultura, demonstrando que existem alternativas viáveis ao garimpo.

Para Txai, justiça climática não pode ser separada de justiça social, demarcação de terras indígenas e respeito aos modos de vida e saberes tradicionais. Ela argumenta que os povos indígenas são parte essencial da solução para enfrentar as emergências climáticas e que é dentro dos territórios indígenas que a floresta segue de pé, sendo fundamental garantir direitos à informação, decisão e reparação das comunidades afetadas.

Txai relata que a Amazônia está no 'ponto de não retorno' segundo percepção científica, com efeitos já sentidos no território, como rios secando, perda de safras e calor extremo. Em estados como Rondônia, os aumentos globais médios de temperatura têm impactos mais severos localmente, resultando em sensação de aquecimento muito superior à média global, afetando diretamente a subsistência e a qualidade de vida das populações indígenas.