A líder indígena Txai Suruí, de Rondônia, defendeu um “diálogo honesto” sobre mineração no Brasil, com transparência, dados científicos e respeito aos direitos dos povos indígenas na abertura do segundo dia da Conferência Internacional Amazônia e Novas Economias, em Salvador.
Txai convidou o setor mineral a reconhecer limites da tecnologia frente à crise climática e a enfrentar os impactos socioambientais do modelo de exploração atual, que, em suas palavras, ainda naturaliza a superexploração dos recursos e concentra riqueza, deixando os danos para as populações mais vulneráveis.
Indicada pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, para o Grupo Consultivo de Jovens sobre Mudanças Climáticas, Txai se apresenta como guerreira indígena do povo Paité Suruí, da Terra Indígena Sete de Setembro. Ao abrir sua palestra a jovem lançou uma provocação à plateia, boa parte do setor mineral: “É possível ter um diálogo franco sobre mineração?”. Em sua avaliação, o debate costuma ficar restrito a argumentos de inevitabilidade e necessidade para a transição energética, sem encarar plenamente para quem essa transição é justa.
Para Txai, há um equívoco em supor que a tecnologia, sozinha, resolverá as mudanças climáticas. Ela defendeu que a maior “tecnologia” disponível é a própria natureza — a floresta em pé — e que é preciso humildade para reconhecer os limites humanos diante dos sistemas naturais.
Entre os pontos mais contundentes de sua fala, Txai denunciou o avanço do garimpo ilegal na Terra Indígena Sete de Setembro, relatando contaminação de famílias, matas e rios por mercúrio. Segundo ela, estudo realizado com a Fiocruz identificou contaminação por mercúrio em 100% das aldeias analisadas, com níveis mais elevados entre pessoas idosas que dependem dos rios, e risco especialmente grave para bebês e crianças, dado o efeito do mercúrio sobre o desenvolvimento fetal. Txai afirmou também que menos de 10% do povo Paité Suruí já trabalhou no garimpo ilegal, rebatendo o argumento de que a mineração seria a única via de emprego e desenvolvimento para as comunidades: “Nosso povo quer plantar agroflorestas, reflorestar, viver da terra e da agricultura.”
A jovem líder defendeu que os direitos à informação, decisão e reparação das comunidades sejam garantidos, chamando atenção para a necessidade de fiscalização rigorosa e imparcial.
Txai apontou ainda para o agravamento das emergências climáticas na Amazônia e no Brasil, mencionando a percepção científica de que a região está no “ponto de não retorno” e os efeitos já sentidos no território: rios secando, perda de safras e calor extremo. Ela observou que, em um país tropical como o nosso, aumentos globais médios de temperatura têm impactos mais severos localmente, com sensação de aquecimento muito superior em estados como o seu, Rondônia.
Apesar do diagnóstico duro, Txai afirmou manter esperança baseada na indignação e na ação coletiva. Como exemplos concretos, ela destacou iniciativas do povo Paité Suruí: plantio de mais de um milhão de árvores, projetos de ecoturismo para dialogar com a sociedade, sistemas agroflorestais e produção de café orgânico. “Somos seres-natureza e protegemos o território com a nossa vida. Sem ele, não existimos.”
Ao final, Txai reforçou que não há justiça climática sem justiça social, sem demarcação de terras indígenas e sem respeito aos modos de vida e saberes tradicionais. Ela conclamou o setor mineral, comunidades e sociedade a se engajarem em um diálogo honesto, com coragem para transformar práticas: “Que todos saiam com a coragem de lutar e transformar este mundo. Os povos indígenas são parte essencial da solução para enfrentar as emergências climáticas. É dentro dos nossos territórios que a floresta segue de pé.”
Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.
* Especial para o Radar Mineração
Dúvidas mais comuns
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Txai Suruí denunciou o avanço do garimpo ilegal na Terra Indígena Sete de Setembro, com contaminação de famílias, matas e rios por mercúrio. Um estudo realizado com a Fiocruz identificou contaminação por mercúrio em 100% das aldeias analisadas, com níveis mais elevados entre pessoas idosas que dependem dos rios e risco especialmente grave para bebês e crianças devido aos efeitos do mercúrio sobre o desenvolvimento fetal.
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Para Txai Suruí, não há justiça climática sem justiça social, sem demarcação de terras indígenas e sem respeito aos modos de vida e saberes tradicionais. Ela argumenta que a transição energética deve ser justa para todos, especialmente para as populações mais vulneráveis que atualmente sofrem os danos da exploração de recursos naturais enquanto a riqueza fica concentrada.
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O povo Paité Suruí está desenvolvendo iniciativas concretas como plantio de mais de um milhão de árvores, projetos de ecoturismo, sistemas agroflorestais e produção de café orgânico. Txai destacou que menos de 10% do povo trabalhou no garimpo ilegal, rebatendo argumentos de que a mineração seria a única via de emprego, e afirmou que seu povo quer plantar agroflorestas, reflorestar e viver da terra e da agricultura.
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Txai Suruí defende que há um equívoco em supor que a tecnologia, sozinha, resolverá as mudanças climáticas. Para ela, a maior 'tecnologia' disponível é a própria natureza — a floresta em pé — e é preciso humildade para reconhecer os limites humanos diante dos sistemas naturais. Ela convida o setor mineral a reconhecer esses limites da tecnologia frente à crise climática.
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O mercúrio ilegal utilizado no garimpo custa cerca de R$ 800 o quilo, enquanto o valor da substância legal gira em torno de R$ 1.500 o quilo. Essa diferença de preço é uma das vantagens que tornam o mercúrio ilegal atrativo para garimpeiros, apesar dos graves riscos à saúde e ao meio ambiente.
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Txai Suruí apontou para o agravamento das emergências climáticas na Amazônia, mencionando que a região está no 'ponto de não retorno'. Em estados como Rondônia, os aumentos globais médios de temperatura têm impactos mais severos localmente, com sensação de aquecimento muito superior, resultando em rios secando, perda de safras e calor extremo.
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Txai Suruí defende que os direitos à informação, decisão e reparação das comunidades indígenas sejam garantidos. Ela chama atenção para a necessidade de fiscalização rigorosa e imparcial, além de um diálogo honesto sobre mineração com transparência, dados científicos e respeito aos direitos dos povos indígenas, rejeitando argumentos de inevitabilidade que não consideram para quem a transição energética é justa.
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Txai Suruí afirma que os povos indígenas são parte essencial da solução para enfrentar as emergências climáticas porque são 'seres-natureza' que protegem o território com suas vidas. Ela destaca que é dentro dos territórios indígenas que a floresta segue de pé, e que sem esses territórios demarcados e respeitados, não é possível alcançar a justiça climática necessária para enfrentar a crise ambiental global.

