Com o crescimento de instabilidades diplomáticas e disputas hegemônicas, a indústria de defesa – que sempre cumpriu um papel além de apenas garantir a segurança – amplia a função estratégica de dissuasão aos países. Além disso, gera empregos, renda, tributos e investimentos que se refletem no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e nas exportações. Ao Radar Mineração, o ministro da Defesa, José Múcio Teixeira, explica que a cadeia de insumos para a indústria de defesa também desenvolve soluções aplicadas em outros setores, como saúde, segurança pública, energia, meio ambiente e infraestrutura.

As pessoas pensam que a indústria de defesa é a indústria da guerra. Mas é um setor da economia de muita importância

José Múcio Teixeira, ministro da Defesa

Minerais e a indústria de defesa

Entre 2018 e 2025, o setor de defesa brasileiro faturou US$ 11,7 bilhões, com autorizações de exportação de material recorde de US$ 3,3 bilhões em 2025, segundo a Base Industrial de Defesa e Segurança (BID). Entre os insumos desse mercado estão os minerais, cuja relevância se ampliou com o uso de terras raras e dos minerais críticos e estratégicos para promover a transição energética. “Hoje, eles são indispensáveis para radares, sensores, sistemas de comunicação, equipamentos eletroeletrônicos, drones, munições inteligentes, baterias avançadas e diversas tecnologias empregadas pela BID”, detalha o presidente do Sindicato Nacional das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança, Frederico Aguiar.

Segundo ele, esse cenário coloca a gestão dos minerais além do setor de mineração, uma vez que projetos estratégicos de defesa dependem diretamente desses insumos para produção de submarinos, satélites, aeronaves, sistema de monitoramento de mísseis, sensores avançados e outros produtos importantes para a soberania, defesa e economia dos países. 

“Elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio são fundamentais para tecnologias de guiagem, propulsão e sensoriamento de alta performance”, complementa. Dessa forma, ao transferir para outros países a capacidade de beneficiamento desses insumos, a nação transfere automaticamente a parcela mais valiosa da cadeia produtiva, e isto amplia a dependência externa e os custos, interferindo na competitividade internacional e ampliando a vulnerabilidade em momentos de crise ou tensão geopolítica.

O diretor de Geologia e Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Francisco Valdir Silveira, explica que os minerais estratégicos sempre tiveram relação com a indústria de defesa. “E a cesta é muito vasta: aviões, tanques, submarinos e mísseis dependem do aço, mas também dos minerais considerados de alta resistência em situações hostis”, diz. Ele acrescenta que são todos equipamentos de alta tecnologia, com circuitos eletrônicos, e “é por isso que os países têm receio do desenvolvimento da China”.

Infográfico da Radar Mineração sobre risco de suprimento de matérias-primas críticas em aplicações militares, com legenda de níveis de risco e listas por segmento como caça de combate, tanque e míssil.
Imagem gerada digitalmente

Segundo o diretor da Associação Brasileira de Engenheiros de Mineração (Abremi), João Augusto Hilário, a indústria bélica – que andava esquecida – entrou na pauta do Brasil rapidamente nos últimos meses. Hoje, ele entende estar clara a necessidade de retomar o desenvolvimento dela no Brasil. 

“Não podemos esperar que, com os novos cenários geopolíticos, alguém virá nos defender. Os conflitos no mundo descobriram que não existe arma sem matéria prima mineral. Todas as armas necessitam de aço, manganês, nióbio, cobre. Um submarino não pode ser fabricado sem esses componentes, por exemplo”, explica Hilário.

Submarino Riachuelo (S-40) com pintura e escudo “Marinha do Brasil” e “Submarino Riachuelo”, em lançamento no mar no estaleiro de Itaguaí, RJ.
Submarino Riachuelo (S-40) com pintura e escudo “Marinha do Brasil”, em lançamento no mar no estaleiro de Itaguaí, RJ. (Foto: Marinha do Brasil via Flickr)

  Para o ex-ministro da Defesa, General Fernando Azevedo e Silva, o uso desses materiais deve ser considerado parte da política nacional de defesa, a ser revista de quatro em quatro anos, independentemente de ideologias ou partidos. 

Francisco Valdir Silveira, do SGB, observa que o Brasil tem todos os minerais que o mundo precisa, mas que o problema continua sendo extrair e transformar. Nesse sentido, ele lembra que são processos longos e dispendiosos, que começam com as pesquisas para a localização e seguem até que se obtenha o minério. Por essa razão, ele avalia que o país consegue executar apenas 1% de seu potencial na cadeia de extração, beneficiamento e transformação.

Retomada da Avibras responde ao cenário geopolítico

Um passo nessa direção está sendo dado com a reabertura da indústria bélica Avibras, que passa a se chamar Avibras Aeroco. A empresa não apenas deverá impulsionar o trabalho feito nos territórios já identificados para a obtenção de materiais extraídos e beneficiados, como também aproveitar minérios reciclados para focar no crescimento sustentável e na expansão para novos mercados.  

A reabertura da Avibras é um grande passo, considerando que a defesa nacional é um dos pilares da soberania, da integridade do nosso território e da projeção internacional do Brasil”

José Múcio Teixeira, ministro da Defesa

A companhia também deve desenvolver ou dominar tecnologias consideradas essenciais para defesa e segurança nacional, como sistemas de mísseis, radares, comunicações militares, guerra eletrônica, satélites, foguetes, cibersegurança, aeronáutica, sistemas navais e armamentos avançados.

No caso da Avibras Aeroco, o reconhecimento está fortemente ligado ao domínio nacional sobre tecnologias de foguetes, artilharia de saturação e mísseis táticos, especialmente o sistema ASTROS e o míssil MTC-300, considerados ativos estratégicos para a capacidade de dissuasão brasileira.

Em março deste ano, ao lançar o Catálogo de Produtos da BID na presença de autoridades e do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, o ministro da defesa destacou a importância da Avibras Aeroco. Na ocasião, ele afirmou que a Base Industrial de Defesa (BID) é parte essencial desse esforço, representando um setor dinâmico, inovador e de alto valor agregado, cuja atuação transcende o campo militar e contribui diretamente para o fortalecimento do Poder Nacional. 

* Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

A indústria de defesa é um setor estratégico que vai além de garantir segurança militar, funcionando como um importante motor econômico. Entre 2018 e 2025, o setor de defesa brasileiro faturou US$ 11,7 bilhões, gerando empregos, renda, tributos e investimentos que refletem no crescimento do PIB e nas exportações. Além disso, a cadeia de insumos para defesa desenvolve soluções aplicadas em outros setores como saúde, segurança pública, energia, meio ambiente e infraestrutura.

Os minerais, especialmente terras raras e minerais críticos e estratégicos, são indispensáveis para tecnologias militares modernas como radares, sensores, sistemas de comunicação, equipamentos eletroeletrônicos, drones, munições inteligentes e baterias avançadas. Elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio são fundamentais para tecnologias de guiagem, propulsão e sensoriamento de alta performance utilizadas em submarinos, satélites, aeronaves e sistemas de monitoramento de mísseis.

Os principais minerais estratégicos incluem aço, manganês, nióbio e cobre, que são essenciais para a fabricação de armas, tanques, submarinos e mísseis. Elementos de terras raras como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio são particularmente importantes para tecnologias de alta resistência em situações hostis e para sistemas eletrônicos avançados utilizados em equipamentos militares de ponta.

A Base Industrial de Defesa (BID) é o conjunto de empresas estatais e privadas, bem como organizações civis e militares, que participam de uma ou mais etapas de pesquisa, desenvolvimento, produção e comercialização de produtos de defesa. A BID representa um setor dinâmico, inovador e de alto valor agregado, cuja atuação transcende o campo militar e contribui diretamente para o fortalecimento do Poder Nacional, com exportações de material recorde de US$ 3,3 bilhões em 2025.

Ao transferir para outros países a capacidade de beneficiamento de minerais estratégicos, uma nação transfere automaticamente a parcela mais valiosa da cadeia produtiva, ampliando a dependência externa e os custos. Isso interfere na competitividade internacional e amplia a vulnerabilidade em momentos de crise ou tensão geopolítica, tornando essencial que países desenvolvam sua própria capacidade de extração e transformação de minerais.

O Brasil possui todos os minerais que o mundo precisa para a indústria de defesa, mas enfrenta desafios em sua extração e transformação. Atualmente, o país consegue executar apenas 1% de seu potencial na cadeia de extração, beneficiamento e transformação de minerais. Processos longos e dispendiosos, começando com pesquisas para localização até a obtenção do minério, são necessários para aumentar essa capacidade.

A reabertura da Avibras, agora chamada Avibras Aeroco, é um passo estratégico para retomar o desenvolvimento da indústria bélica brasileira. A empresa deve desenvolver ou dominar tecnologias essenciais como sistemas de mísseis, radares, comunicações militares, guerra eletrônica, satélites e foguetes, além de aproveitar minérios reciclados para crescimento sustentável. Seu reconhecimento está fortemente ligado ao domínio nacional sobre tecnologias de foguetes, artilharia de saturação e mísseis táticos, como o sistema ASTROS e o míssil MTC-300.

A relevância dos minerais estratégicos e terras raras se ampliou significativamente com o uso desses insumos para promover a transição energética global. Além de sua aplicação crítica em tecnologias militares, esses minerais são fundamentais para baterias avançadas e outras tecnologias de energia limpa, tornando sua gestão uma questão que transcende o setor de mineração e se torna parte essencial da política nacional de defesa e segurança.