O debate sobre soberania energética no Brasil costuma associar a energia nuclear ao urânio. Especialistas do setor e representantes da indústria defendem, porém, que o domínio pleno dessa fonte depende de uma cadeia mineral e industrial bem mais ampla — que inclui também zircônio e háfnio, materiais menos conhecidos do público, mas indispensáveis para a operação de um reator.
Nesse contexto, o argumento é que a autonomia do país não se resume a possuir reservas de urânio: passa pelo controle de todas as etapas do ciclo do combustível e pela capacidade de processar os insumos críticos usados nos equipamentos nucleares.
Durante o Nuclear Summit, realizado no Rio de Janeiro em março, o consenso entre executivos, pesquisadores e representantes da cadeia produtiva foi de que a energia nuclear ocupa papel singular na estratégia nacional. Em um cenário internacional marcado por conflitos e instabilidades nas cadeias globais de petróleo e gás natural, dominar integralmente a geração nuclear é visto como fator de fortalecimento geopolítico, industrial e tecnológico.
“Dominando o processo todo, a extração dos minérios, o enriquecimento, o desenvolvimento de reatores, estamos jogando em nível de desenvolvimento industrial, tecnológico e científico mais alto, dos atores mais importantes do mundo”, disse o professor de relações internacionais Júlio César Rodriguez, durante o evento.
A avaliação foi compartilhada pelo presidente da Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares, Celso Cunha. Segundo ele, embora o Brasil conte com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, baseada em usinas hidrelétricas, torres eólicas e painéis solares fotovoltaicos, a geração nuclear tem a vantagem de fornecer energia de base contínua, sem depender de sol, ventos ou regime de chuvas. Hoje, as usinas de Angra 1 e Angra 2 somam cerca de 2 gigawatts de capacidade instalada e abastecem milhões de consumidores.
Além do urânio
O combustível nuclear usado nos reatores brasileiros começa, de fato, no urânio. Mas o funcionamento seguro da tecnologia depende de uma engenharia de materiais mais complexa. As pastilhas de dióxido de urânio (UO₂), que alimentam a reação de fissão (ocorre ao emitir nêutrons em núcleos atômicos de átomos pesados e instáveis, como o urânio) são inseridas em varetas metálicas. O revestimento dessas varetas, conhecido como cladding, é produzido com ligas de zircônio.

A escolha não é casual. O zircônio combina resistência mecânica elevada, tolerância a temperaturas extremas e resistência à corrosão. E mais importante: é um metal com baixa absorção de nêutrons, característica que permite a continuidade da reação em cadeia dentro do núcleo do reator.
Na natureza, porém, o zircônio não aparece isolado. Ele é obtido principalmente a partir do mineral zircão, onde ocorre associado ao háfnio. Os dois elementos são quimicamente semelhantes, o que torna a separação industrial complexa e estratégica.
Essa distinção é decisiva para a indústria nuclear. Enquanto o zircônio precisa ser purificado para eliminar o háfnio antes de ser usado no revestimento do combustível, o háfnio separado ganha outra função nobre ao ser empregado nas barras de controle do reator, justamente por sua elevada capacidade de absorver nêutrons. São essas barras que permitem regular ou interromper a reação de fissão.
Assim, o domínio da cadeia nuclear não depende apenas do urânio enriquecido. Envolve também o processamento avançado de minerais críticos e a capacidade metalúrgica de separar e purificar materiais com funções opostas dentro do reator.

Potencial mineral ainda pouco aproveitado
O Brasil reúne condições geológicas favoráveis para avançar nessa direção. Além de uma das maiores reservas conhecidas de urânio no mundo, o país tem registros oficiais de reservas e produção de zircônio, além de ocorrências documentadas de zircão com teor significativo de háfnio.
Apesar disso, a cadeia industrial do zircônio ainda é parcialmente dependente do exterior. Parte relevante do insumo utilizado pela indústria brasileira é importada, principalmente da África do Sul e da Austrália, o que evidencia um contraste entre potencial mineral e capacidade de beneficiamento local.
Como o Brasil abastece Angra 1 e 2
O ciclo do combustível nuclear é controlado pelo Estado e conduzido pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB). A cadeia começa na unidade de mineração de Caetité, no interior da Bahia, onde o minério é extraído e beneficiado para gerar o concentrado de urânio (conhecido como yellowcake).
Entre 2000 e 2015, a operação no sul baiano produziu 3.753,5 toneladas de concentrado de urânio. Após a exaustão da Mina Cachoeira, a produção foi retomada na Mina do Engenho, garantindo continuidade ao abastecimento da cadeia nuclear nacional.
A etapa seguinte ainda representa uma lacuna para a autonomia completa. O yellowcake precisa ser enviado ao exterior para passar pela conversão química em hexafluoreto de urânio (UF₆), forma gasosa necessária ao enriquecimento isotópico. Embora o país domine a tecnologia de conversão, a infraestrutura industrial para realizá-la internamente ainda não foi consolidada.
Depois dessa etapa, o material retorna ao Brasil para a fábrica da INB em Resende (RJ), onde ocorre o enriquecimento do urânio e a fabricação dos elementos combustíveis usados em Angra. A unidade produz as pastilhas, monta as varetas e finaliza os conjuntos que abastecem as usinas brasileiras.
Em 2025, a empresa concluiu a 21ª recarga de Angra 2 e iniciou a produção da 30ª recarga de Angra 1, mantendo o suprimento regular das usinas.
Soberania industrial como próxima fronteira
Para representantes do setor, o próximo passo para o Brasil deixar de ser apenas exportador de minerais brutos e se tornar um ator estratégico no mercado nuclear global é completar os elos ainda faltantes da cadeia. Isso inclui internalizar a etapa de conversão do urânio e ampliar a capacidade nacional de beneficiamento de zircônio e háfnio.
A discussão vai além da geração elétrica. O domínio integral da cadeia nuclear é visto como um ativo de soberania tecnológica, capaz de impulsionar indústria, pesquisa científica, formação de mão de obra especializada e inserção internacional do país em um segmento dominado por poucas nações.