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Painel discute a resiliência do negócio mineral, justiça social e climática, durante a COP30.
Da esquerda para a direita: Malkia John, Andréa Louback, Malu Paiva e Angela Pinhati (Foto: Viviane Kulczynski)

Resiliência do negócio mineral depende de justiça social

Deixando a filantropia para trás, líderes da indústria e especialistas defendem que o futuro da “licença para operar” está em “arranjos territoriais” e em soluções de adaptação climática que nascem nas próprias comunidades

Por Viviane Kulczynski *, 4 min de leitura

Publicado em 17/11/2025

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Em um cenário global de choques climáticos e pressão social, a pergunta que redefine setores de uso intensivo de capital e território, como a mineração, é: que futuro imaginamos para o negócio?

A resposta, segundo especialistas reunidas em um painel na Casa C.A.S.E. durante a COP30, em Belém, é que a sobrevivência empresarial depende de uma profunda integração entre as pautas ambiental, social e econômica. A C.A.S.E. é uma iniciativa multiempresarial para posicionar o Brasil como protagonista na agenda climática global, fruto da união de Bradesco, Itaúsa, Itaú Unibanco, Marcopolo, Natura, Nestlé e Vale.​

A conclusão do encontro realizado na noite de domingo (16/11) é unânime: adaptação climática e equidade social não são mais apêndices ou custos de Relações Públicas; são pilares tão centrais para o sucesso quanto o custo operacional e a competitividade.

O painel, que uniu vozes do Brasil e do Quênia, destacou uma questão central do nosso tempo. “É um desafio evitar que a transição [energética, que depende de minerais] reproduza exclusões históricas”, afirmou a moderadora Angela Pinhati, chefe de Sustentabilidade da Natura, dando o tom da discussão.

A jornada da integração: o paralelo da Suzano

Para a mineração, que opera por definição dentro do território, a experiência de outros setores de gestão intensiva de terra oferece um roteiro. Malu Paiva, vice-presidente de Sustentabilidade da Suzano, uma empresa que opera em 2,8 milhões de hectares, foi categórica: a dependência da natureza é total.

Painel discute a resiliência do negócio mineral, justiça social e climática, durante a COP30. Com a palavra, Malu Paiva.
Da esquerda para a direita: Andréa Louback, Malu Paiva e Angela Pinhati (Foto: Viviane Kulczynski)

“O bem-estar da comunidade e a vida digna dela estão diretamente ligados ao sucesso do negócio hoje”, explicou. Ela ressaltou que o antigo modelo de ações pontuais e reativas — a filantropia clássica ou o “compensatório” — não funciona mais.

A solução, segundo Paiva, foi redesenhar a relação com o entorno, criando “arranjos territoriais”. Neles, a governança é construída em conjunto com a comunidade, o poder público e outras empresas. A empresa deixa de ser a única protagonista para ser uma facilitadora.

O resultado é medido no negócio: “Isso fez a gente reduzir demais os incêndios, demais as invasões. Começamos a medir a efetividade do investimento social”, relatou.

A VP se define como uma “profissional biodegradável”, cuja missão será cumprida quando toda a liderança da empresa incorporar a “lente social e a lente ambiental” em todas as decisões, do estratégico ao operacional. “Vamos voltar para o pensamento sistêmico”, defendeu.

Justiça climática: a nova lente da licença social

Uma representação em miniatura do globo terrestre cercado por figuras humanas de papel em verdadeiro ato de justiça climática, representando a nova lente da licença social.
Foto: Black Salmon/ Shutterstock

Mas quem realmente precisa de justiça climática no Brasil? A pergunta, feita por Andréa Louback, diretora-executiva do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), é o ponto de partida para a mineração avaliar suas próprias áreas de influência.

Para ela, a resposta está na “roda da interseccionalidade”, um princípio que exige olhar simultaneamente para raça, gênero e territorialidade, evitando uma visão limitada da desigualdade.

“O território é vivo”, afirmou ela. Esta é uma realidade que a mineração conhece bem.

Ela citou como exemplo o projeto “Teto Verde Favela”, no Rio de Janeiro. A iniciativa, que instala plantas nos telhados para regular a temperatura das casas, não apenas gerou renda e bem-estar, mas se tornou um modelo de adaptação climática nascido na própria comunidade. O papel da empresa, neste caso, não é criar, mas apoiar o que já existe.

Louback alerta, no entanto, contra a armadilha do “copia e cola” — um vício comum em projetos sociais corporativos. “Não dava para replicar exatamente [o projeto do Rio] no Nordeste da mesma forma”. A lição é a importância da escuta radical e da manutenção do relacionamento. “A gente não lança nenhuma pesquisa sem retornar ao território para saber se essa pesquisa ainda faz sentido.”

Lições do Quênia: liderança comunitária primeiro

A perspectiva internacional, trazida por Malkia John, diretora-executiva da Sauti Salama, uma organização de impacto social do Quênia, reforçou que os desafios são globais. Sua mensagem foi um recado direto ao setor privado: “Meu objetivo seria que os negócios se apropriassem de soluções onde vejam a liderança da comunidade primeiro”.

Para ela, o futuro ideal é um em que o “equilíbrio social” seja colocado antes do lucro — não como antagonista, mas como pré-condição.

Malkia compartilhou exemplos práticos, como o da Solar Sisters, que treina mulheres empreendedoras para vender painéis solares em suas próprias comunidades, e o da GivePower, que instala usinas de dessalinização de água movidas a energia solar.

“Quando os negócios realmente focam, convergem ou se orientam fundamentalmente para a comunidade, o impacto é real”, afirmou.

Da ideia à escala: o fim dos projetos-piloto

O consenso entre as painelistas é de que o tempo dos projetos-piloto isolados, que geram bons insights, mas pouco impacto estrutural, está chegando ao fim.

“Já tem muita coisa boa que foi testada. Vamos parar de falar de piloto e vamos falar de escala daqui para frente”, conclamou Malu Paiva.

Este é o grande desafio para a mineração: como escalar as soluções existentes, garantir que o financiamento chegue de forma acessível às comunidades e que a colaboração nos “arranjos territoriais” seja efetiva.

Com as expectativas voltadas para o documento final que emergirá da COP30, a urgência é por uma agenda de adaptação que seja “antirracista, inclusiva e transformativa”, como espera Andréa Louback.

No final, a mensagem para o setor mineral é de que a transição para um futuro sustentável e justo não será construída por decretos ou relatórios de sustentabilidade, mas pela ação conjunta e sistêmica de empresas, governos e, sobretudo, das comunidades que estão na linha de frente e que definem, dia a dia, a verdadeira licença para operar.

* Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

Resiliência no negócio mineral refere-se à capacidade de uma organização se adaptar e se recuperar rapidamente diante de crises, mudanças repentinas e eventos imprevisíveis. No contexto da mineração, a resiliência depende da integração profunda entre as pautas ambiental, social e econômica, transformando adaptação climática e equidade social em pilares centrais para o sucesso empresarial, não apenas como custos de relações públicas.

A justiça social é fundamental porque a mineração opera dentro de territórios e depende totalmente da natureza e das comunidades locais. O bem-estar das comunidades e a vida digna delas estão diretamente ligados ao sucesso do negócio. Quando as empresas adotam uma abordagem de justiça climática que considera raça, gênero e territorialidade, conseguem reduzir conflitos, invasões e incêndios, além de medir a efetividade real dos investimentos sociais.

Arranjos territoriais são estruturas de governança construídas em conjunto entre a empresa, a comunidade, o poder público e outras organizações. Nesse modelo, a empresa deixa de ser a única protagonista para se tornar uma facilitadora. A Suzano, por exemplo, implementou arranjos territoriais em seus 2,8 milhões de hectares, resultando em redução significativa de incêndios e invasões, além de maior efetividade dos investimentos sociais.

A liderança comunitária deve ser priorizada colocando o equilíbrio social como pré-condição para o lucro, não como antagonista. Isso significa que as empresas devem apoiar soluções que já existem nas comunidades, em vez de criar projetos de cima para baixo. Exemplos como a Solar Sisters, que treina mulheres empreendedoras para vender painéis solares, demonstram que quando os negócios realmente focam na comunidade, o impacto é real e transformador.

A escuta radical é essencial para evitar o vício do 'copia e cola' em projetos sociais corporativos. Significa que as empresas devem manter relacionamento contínuo com as comunidades, retornando aos territórios para validar se as pesquisas e projetos ainda fazem sentido. Cada território é único e vivo, exigindo soluções adaptadas às realidades locais, não replicações mecânicas de modelos de outras regiões.

A interseccionalidade exige olhar simultaneamente para raça, gênero e territorialidade, evitando uma visão limitada da desigualdade. Esse princípio ajuda a mineração a identificar quem realmente precisa de justiça climática em suas áreas de influência. Projetos como o 'Teto Verde Favela' no Rio de Janeiro exemplificam como soluções nascidas nas próprias comunidades, considerando essas múltiplas dimensões, geram renda, bem-estar e adaptação climática efetiva.

Os projetos-piloto isolados geram bons insights, mas pouco impacto estrutural. O setor mineral precisa escalar as soluções existentes, garantir que o financiamento chegue de forma acessível às comunidades e que a colaboração nos arranjos territoriais seja efetiva. A urgência é por uma agenda de adaptação que seja antirracista, inclusiva e transformativa, construída pela ação conjunta e sistêmica de empresas, governos e comunidades.

A transição energética depende de minerais, mas corre o risco de reproduzir exclusões históricas se não for acompanhada de justiça social. Isso exige que as empresas de mineração redesenhem suas relações com o entorno, criando governança compartilhada e reconhecendo que a verdadeira licença para operar é definida dia a dia pelas comunidades que estão na linha de frente. A integração entre pautas ambiental, social e econômica é essencial para garantir que a transição seja justa e inclusiva.