- O setor mineral depende de integração profunda entre pautas ambiental, social e econômica para garantir resiliência empresarial e sobrevivência em contexto de choques climáticos.
- Empresas como Suzano demonstram que redesenhar relações territoriais com governança compartilhada reduz riscos operacionais e mede efetividade do investimento social de forma concreta.
- A mineração deve escalar soluções comunitárias já testadas e priorizar liderança das comunidades locais, evitando replicação genérica de projetos e garantindo justiça climática interseccional.
Em um cenário global de choques climáticos e pressão social, a pergunta que redefine setores de uso intensivo de capital e território, como a mineração, é: que futuro imaginamos para o negócio?
A resposta, segundo especialistas reunidas em um painel na Casa C.A.S.E. durante a COP30, em Belém, é que a sobrevivência empresarial depende de uma profunda integração entre as pautas ambiental, social e econômica. A C.A.S.E. é uma iniciativa multiempresarial para posicionar o Brasil como protagonista na agenda climática global, fruto da união de Bradesco, Itaúsa, Itaú Unibanco, Marcopolo, Natura, Nestlé e Vale.
A conclusão do encontro realizado na noite de domingo (16/11) é unânime: adaptação climática e equidade social não são mais apêndices ou custos de Relações Públicas; são pilares tão centrais para o sucesso quanto o custo operacional e a competitividade.
O painel, que uniu vozes do Brasil e do Quênia, destacou uma questão central do nosso tempo. “É um desafio evitar que a transição [energética, que depende de minerais] reproduza exclusões históricas”, afirmou a moderadora Angela Pinhati, chefe de Sustentabilidade da Natura, dando o tom da discussão.
A jornada da integração: o paralelo da Suzano
Para a mineração, que opera por definição dentro do território, a experiência de outros setores de gestão intensiva de terra oferece um roteiro. Malu Paiva, vice-presidente de Sustentabilidade da Suzano, uma empresa que opera em 2,8 milhões de hectares, foi categórica: a dependência da natureza é total.

“O bem-estar da comunidade e a vida digna dela estão diretamente ligados ao sucesso do negócio hoje”, explicou. Ela ressaltou que o antigo modelo de ações pontuais e reativas — a filantropia clássica ou o “compensatório” — não funciona mais.
A solução, segundo Paiva, foi redesenhar a relação com o entorno, criando “arranjos territoriais”. Neles, a governança é construída em conjunto com a comunidade, o poder público e outras empresas. A empresa deixa de ser a única protagonista para ser uma facilitadora.
O resultado é medido no negócio: “Isso fez a gente reduzir demais os incêndios, demais as invasões. Começamos a medir a efetividade do investimento social”, relatou.
A VP se define como uma “profissional biodegradável”, cuja missão será cumprida quando toda a liderança da empresa incorporar a “lente social e a lente ambiental” em todas as decisões, do estratégico ao operacional. “Vamos voltar para o pensamento sistêmico”, defendeu.
Justiça climática: a nova lente da licença social

Mas quem realmente precisa de justiça climática no Brasil? A pergunta, feita por Andréa Louback, diretora-executiva do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), é o ponto de partida para a mineração avaliar suas próprias áreas de influência.
Para ela, a resposta está na “roda da interseccionalidade”, um princípio que exige olhar simultaneamente para raça, gênero e territorialidade, evitando uma visão limitada da desigualdade.
“O território é vivo”, afirmou ela. Esta é uma realidade que a mineração conhece bem.
Ela citou como exemplo o projeto “Teto Verde Favela”, no Rio de Janeiro. A iniciativa, que instala plantas nos telhados para regular a temperatura das casas, não apenas gerou renda e bem-estar, mas se tornou um modelo de adaptação climática nascido na própria comunidade. O papel da empresa, neste caso, não é criar, mas apoiar o que já existe.
Louback alerta, no entanto, contra a armadilha do “copia e cola” — um vício comum em projetos sociais corporativos. “Não dava para replicar exatamente [o projeto do Rio] no Nordeste da mesma forma”. A lição é a importância da escuta radical e da manutenção do relacionamento. “A gente não lança nenhuma pesquisa sem retornar ao território para saber se essa pesquisa ainda faz sentido.”
Lições do Quênia: liderança comunitária primeiro
A perspectiva internacional, trazida por Malkia John, diretora-executiva da Sauti Salama, uma organização de impacto social do Quênia, reforçou que os desafios são globais. Sua mensagem foi um recado direto ao setor privado: “Meu objetivo seria que os negócios se apropriassem de soluções onde vejam a liderança da comunidade primeiro”.
Para ela, o futuro ideal é um em que o “equilíbrio social” seja colocado antes do lucro — não como antagonista, mas como pré-condição.
Malkia compartilhou exemplos práticos, como o da Solar Sisters, que treina mulheres empreendedoras para vender painéis solares em suas próprias comunidades, e o da GivePower, que instala usinas de dessalinização de água movidas a energia solar.
“Quando os negócios realmente focam, convergem ou se orientam fundamentalmente para a comunidade, o impacto é real”, afirmou.
Da ideia à escala: o fim dos projetos-piloto
O consenso entre as painelistas é de que o tempo dos projetos-piloto isolados, que geram bons insights, mas pouco impacto estrutural, está chegando ao fim.
“Já tem muita coisa boa que foi testada. Vamos parar de falar de piloto e vamos falar de escala daqui para frente”, conclamou Malu Paiva.
Este é o grande desafio para a mineração: como escalar as soluções existentes, garantir que o financiamento chegue de forma acessível às comunidades e que a colaboração nos “arranjos territoriais” seja efetiva.
Com as expectativas voltadas para o documento final que emergirá da COP30, a urgência é por uma agenda de adaptação que seja “antirracista, inclusiva e transformativa”, como espera Andréa Louback.
No final, a mensagem para o setor mineral é de que a transição para um futuro sustentável e justo não será construída por decretos ou relatórios de sustentabilidade, mas pela ação conjunta e sistêmica de empresas, governos e, sobretudo, das comunidades que estão na linha de frente e que definem, dia a dia, a verdadeira licença para operar.
* Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

