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Painel de discussão sobre Cinturão Solar com especialistas em painel azul na conferência, com painel de controle e participantes atentos ao assunto.
Foto: Viviane Kulczynski

Descarbonização desacelera na Europa e busca viabilidade no “Cinturão Solar”

A corrida para descarbonizar indústrias como a do aço está mudando de eixo; Para a mineração, há oportunidade de liderar a transição, combinando minério de alta qualidade com responsabilidade socioambiental

Por Viviane Kulczynski*, 3 min de leitura

Publicado em 17/11/2025

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  • A descarbonização europeia desacelera enquanto Brasil, Índia e Oriente Médio ganham protagonismo como "Cinturão Solar" por oferecerem energia renovável mais barata para produção de aço e cimento de baixo carbono.
  • A viabilidade econômica, não a tecnologia, é o gargalo principal, e a lógica de custos de eletricidade favorece regiões com acesso abundante a energia solar e eólica sobre políticas climáticas europeias tradicionais.
  • Mineradoras como Vale precisam combinar operações em geografias com energia renovável barata, oferta de minérios de alta qualidade e acesso a mercados com demanda garantida para prosperar na economia de baixo carbono.
Resumo revisado pela redação.

A transição para uma indústria de baixo carbono enfrenta um paradoxo global: enquanto o número de projetos verdes anunciados ultrapassa a marca dos milhares, poucos chegam à decisão final de investimento. O gargalo não é a falta de tecnologia ou de capital, mas sim a viabilidade econômica. A solução, que antes parecia centrada nas políticas climáticas europeias, agora aponta para uma nova geografia da descarbonização.

O dinamismo está migrando da Europa para regiões como o Brasil, Índia, Oriente Médio e Austrália, que formam o chamado “Cinturão Solar Global”. A razão é puramente econômica. “Estamos percebendo cada vez mais que será mais barato produzir aço primário ou cimento de zero carbono em lugares com acesso abundante a energia solar e eólica”, explica Lord Adair Turner, presidente da Energy Transitions Commission.

De acordo com Turner, a eletricidade no “Cinturão Solar” será muito mais barata do que no “Cinturão de Vento” europeu, fazendo com que a lógica econômica se sobreponha à lógica política.

A mineração no epicentro da mudança

Essa reconfiguração global coloca as mineradoras com operações estratégicas no centro do debate. A Vale, por exemplo, está “totalmente inserida nas conversas de descarbonização, especialmente da siderurgia”, setor responsável por 8% das emissões globais de CO2, como afirma o CEO da companhia, Gustavo Pimenta. A empresa busca reduzir em 15% suas emissões de escopo 3 (da cadeia de valor) até 2035.

Gustavo Pimenta, CEO da companhia
Gustavo Pimenta, CEO da companhia (Foto: Viviane Kulczynski)

O posicionamento da companhia ilustra uma tendência crucial: a descarbonização vai além da simples redução de emissões. Ela exige um novo modelo de “mineração responsável”. Pimenta destaca as operações da Vale no Pará, onde a empresa protege uma área de floresta cinco vezes maior do que Londres. “Conseguimos combinar atividade econômica com preservação ambiental e desenvolvimento social, e estamos tirando 500 mil pessoas da pobreza na região”, disse ele. Esta abordagem integra a oferta de minério de alta qualidade, que por si só já reduz as emissões no processo siderúrgico, a um compromisso socioambiental robusto.

Os desafios: demanda garantida e projetos “bancáveis”

Apesar do potencial, dois grandes obstáculos persistem. O primeiro é a falta de garantia de que haverá compradores para os produtos verdes, cujo custo inicial é mais elevado. Para resolver isso, iniciativas como a First Movers Coalition (FMC), liderada pelo Fórum Econômico Mundial, estão ganhando força. A FMC reúne empresas que se comprometem a comprar produtos de baixo carbono até 2030, criando um “sinal forte” de demanda que dá confiança aos investidores para financiar projetos de grande escala.

O segundo gargalo é a escassez de projetos maduros e “bancáveis”, prontos para receber financiamento. Embora o interesse do setor financeiro seja enorme, com estimativas de “trezentos trilhões de dólares mobilizados”, como aponta Bob Wigley, representante do setor financeiro do Reino Unido, os investidores enfrentam riscos de greenwashing e a falta de projetos viáveis para absorver esse capital.

Tecnologia e custo: a equação a ser fechada

A tecnologia para descarbonizar a indústria pesada já existe. Pavan Chilukuri, ex-vice-presidente da gigante de cimento Holcim e atual diretor-geral da empresa de consultoria Energex, cita usinas na Europa onde 100% do calor já vem de fontes não fósseis. Ele explica como a precificação do carbono pode transformar a equação econômica: uma indústria que antes pagava para descartar resíduos agora pode ser paga para usá-los como combustível biogênico. Se as emissões resultantes forem capturadas, a empresa pode gerar e vender créditos de carbono, transformando um passivo em um ativo.

Para o setor de mineração, o caminho está claro. O sucesso na economia de baixo carbono não será apenas uma questão de conformidade ambiental, mas de posicionamento estratégico. As empresas que prosperarão serão aquelas capazes de combinar três elementos:

  1. Operações em geografias com energia renovável barata e abundante.
  2. Oferta de minérios de alta qualidade e produtos processados de baixo carbono.
  3. Acesso a mercados com demanda estruturada por meio de coalizões globais.

A descarbonização deixou de ser um desafio isolado para se tornar uma oportunidade econômica global, e seu mapa está sendo redesenhado em tempo real.

* Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

O Cinturão Solar Global refere-se a regiões como Brasil, Índia, Oriente Médio e Austrália que possuem acesso abundante a energia solar e eólica. Essas regiões estão se tornando o novo eixo da transição climática global porque a eletricidade nessas áreas é significativamente mais barata do que na Europa, tornando economicamente viável a produção de produtos de baixo carbono, como aço primário e cimento, em larga escala.

A descarbonização na Europa está desacelerando porque a lógica econômica está se sobrepondo à lógica política. Embora a Europa tenha políticas climáticas robustas, a eletricidade no chamado 'Cinturão de Vento' europeu é muito mais cara do que no Cinturão Solar Global. Isso faz com que investidores e empresas busquem regiões com custos de energia renovável mais baixos para viabilizar economicamente seus projetos de descarbonização.

O principal gargalo não é a falta de tecnologia ou capital, mas sim a viabilidade econômica dos projetos. Embora milhares de projetos verdes sejam anunciados, poucos chegam à decisão final de investimento. Além disso, há dois obstáculos específicos: a falta de garantia de demanda por produtos verdes de custo mais elevado e a escassez de projetos maduros e 'bancáveis' prontos para receber financiamento.

O Programa de Descarbonização da Indústria (Industry Decarbonization Program – IDP) é uma iniciativa dos Fundos de Investimento Climático voltada a apoiar países em desenvolvimento na transformação de setores industriais de alta intensidade de emissões. Esse programa busca facilitar a transição para processos produtivos mais sustentáveis e de baixo carbono.

A First Movers Coalition, liderada pelo Fórum Econômico Mundial, reúne empresas que se comprometem a comprar produtos de baixo carbono até 2030. Essa iniciativa cria um 'sinal forte' de demanda que dá confiança aos investidores para financiar projetos de grande escala, resolvendo o problema da falta de garantia de compradores para produtos verdes.

As mineradoras, como a Vale, estão no centro do debate de descarbonização, especialmente porque a siderurgia é responsável por 8% das emissões globais de CO2. O sucesso na economia de baixo carbono exige um novo modelo de 'mineração responsável' que combine operações em geografias com energia renovável barata, oferta de minérios de alta qualidade que reduzem emissões no processo siderúrgico, e acesso a mercados com demanda estruturada.

A precificação do carbono muda a equação econômica ao fazer com que indústrias que antes pagavam para descartar resíduos agora possam ser pagas para usá-los como combustível biogênico. Se as emissões resultantes forem capturadas, a empresa pode gerar e vender créditos de carbono, transformando um passivo ambiental em um ativo financeiro lucrativo.

As empresas que prosperarão na economia de baixo carbono precisam combinar: (1) operações em geografias com energia renovável barata e abundante; (2) oferta de minérios de alta qualidade e produtos processados de baixo carbono; e (3) acesso a mercados com demanda estruturada por meio de coalizões globais. Essa combinação garante viabilidade econômica, competitividade e segurança de mercado.