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Floresta Amazônica destacando um rio sinuoso
Foto: MatteoFar8 / Shutterstock

Riqueza no subsolo, paradoxo na superfície: como repensar o desenvolvimento da Amazônia

O desafio é romper o ciclo do extrativismo predatório e transformar riqueza mineral e energética em prosperidade social e ambiental para os territórios amazônicos.

Por Redação, 3 min de leitura

Publicado em 03/11/2025

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  • A Amazônia Legal extrai riqueza mineral e energética que representa um quinto da energia brasileira, mas municípios produtores apresentam indicadores de saúde, educação e saneamento entre os piores do país, evidenciando desconexão entre crescimento econômico e progresso social.
  • Municípios que recebem maiores royalties de mineração e petróleo apresentam baixos índices de qualidade de vida conforme o Índice de Progresso Social, demonstrando que o modelo extrativista tradicional não converte recursos financeiros em bem-estar populacional.
  • Fundos soberanos, gestão baseada em dados e parcerias estratégicas entre poder público, empresas e sociedade civil são mecanismos viáveis para transformar a riqueza mineral finita em desenvolvimento territorial sustentável e permanente na região.
Resumo revisado pela redação.

A Amazônia Legal, berço de projetos minerais e energéticos que movem o Brasil, vive uma profunda contradição: a riqueza extraída de seu solo raramente se converte em prosperidade para quem vive sobre ele. O desafio, que une especialistas e líderes do setor privado, é abandonar um modelo extrativista predatório por uma nova visão de futuro, baseada em gestão inteligente, planejamento de longo prazo e no valor da floresta em pé.

A Amazônia gera um quinto da energia do Brasil e abriga reservas minerais de classe mundial. No entanto, em muitos dos municípios que impulsionam essa riqueza, os indicadores de saúde, educação e saneamento estão entre os piores do país. Este é o paradoxo amazônico: um crescimento econômico que não se traduz em progresso social.

“A região possui quatro das cinco maiores hidrelétricas do Brasil, mas 3 milhões de pessoas ainda dependem de geradores a diesel, uma energia cara e poluente”, aponta Joana Chiavari, da PUC-Rio. “A infraestrutura está na Amazônia, mas não serve à Amazônia.”

Este descompasso é o que Beto Veríssimo, pesquisador do Imazon, chama de “maldição dos recursos”. Usando o Índice de Progresso Social (IPS), que mede a qualidade de vida para além do PIB, ele mostra que os municípios que mais recebem royalties de mineração ou petróleo estão, em sua maioria, “no vermelho”. O dinheiro entra, mas não melhora a vida das pessoas.

Beto com óculos e fones de ouvido, com expressão séria, participando de um evento ou painel de discussão.
Beto Veríssimo, pesquisador do Imazon (Foto: Vale)

As raízes de um modelo falho

Historicamente, o desenvolvimento na região seguiu uma lógica destrutiva. A abertura de estradas, por exemplo, está diretamente ligada à devastação. “Quando olhamos para o desmatamento, 95% dele acontece a até 5,5 quilômetros de uma estrada”, explica Chiavari. O Estado chega com uma grande obra, a terra se valoriza e desencadeia-se uma corrida especulativa. O resultado, segundo Veríssimo, é um boom inicial seguido de um colapso, deixando para trás municípios falidos que o poder público precisa socorrer.

O setor de mineração enfrenta um desafio particular: a “rigidez locacional”. A atividade só pode ocorrer onde o minério está. Em Carajás (PA), isso cria um conflito direto entre vastas reservas de ferro e ecossistemas únicos. Para Daniel Raíces, do ICMBio, a solução está em investir em “novas tecnologias para extrair minérios sem destruir a superfície ou para recuperar espécies de forma eficaz”.

Contudo, o maior gargalo não é tecnológico, e sim de gestão. O contraste entre os municípios vizinhos de Parauapebas e Canaã dos Carajás, ambos com operações da Vale, é emblemático. “Canaã dos Carajás é um dos poucos pontos azuis no mapa do Pará. Parauapebas ficou para trás”, aponta Veríssimo. A diferença crucial? Canaã instituiu um fundo soberano para investir os royalties no futuro, enquanto Parauapebas usou os recursos para custear a máquina pública.

Construindo o futuro: dados, floresta e parcerias estratégicas

A boa notícia é que as soluções para quebrar este ciclo vicioso já existem e estão sendo implementadas.

A primeira é uma mudança de mentalidade. Beto Veríssimo defende que a floresta seja vista como uma “infraestrutura viva”, cujos “rios voadores” irrigam o agronegócio e abastecem hidrelétricas no resto do país. “A floresta provê um serviço essencial de infraestrutura e não é remunerada por isso”, afirma.

A segunda é o uso de ferramentas de gestão. O IPS funciona como uma bússola, permitindo que gestores públicos e empresas identifiquem as reais necessidades da população. Já os fundos soberanos, como o de Canaã, são o caminho para transformar a riqueza mineral finita em um legado de desenvolvimento permanente.

Nesse novo cenário, o papel das empresas também evolui. Graziele Parenti, vice-presidente de Sustentabilidade da Vale, explica que a companhia migrou de uma visão assistencialista para uma “abordagem de território”, atuando como parceira estratégica no planejamento local. Um exemplo é a meta pública da empresa de retirar 500 mil pessoas da pobreza extrema.

“Não é possível que, com tanta riqueza gerada, ainda tenhamos pessoas em absoluta vulnerabilidade. A experiência mostra que, com a metodologia certa, tem jeito de fazer”, defende Parenti.

O futuro da Amazônia depende, portanto, de uma aliança poderosa: um marco regulatório que incentive as boas práticas, gestores públicos que usem dados para governar e um setor privado que assuma seu papel no desenvolvimento territorial. Apenas transformando os desafios históricos da região em oportunidades será possível construir um futuro em que a riqueza do subsolo finalmente se traduza em para um desenvolvimento justo e sustentável.

Dúvidas mais comuns

O paradoxo amazônico refere-se à contradição entre a riqueza mineral e energética da Amazônia Legal e a extrema desigualdade vivida por sua população. A região gera um quinto da energia do Brasil e abriga reservas minerais de classe mundial, mas em muitos municípios que impulsionam essa riqueza, os indicadores de saúde, educação e saneamento estão entre os piores do país. Esse crescimento econômico não se traduz em progresso social para quem vive na região.

A 'maldição dos recursos' ocorre porque o dinheiro gerado pela extração de minerais e petróleo entra nos municípios, mas não melhora a qualidade de vida das pessoas. Segundo o Índice de Progresso Social (IPS), a maioria dos municípios que mais recebem royalties de mineração ou petróleo estão em situação crítica. Isso acontece porque historicamente o modelo de desenvolvimento seguiu uma lógica destrutiva, com recursos sendo utilizados para custear a máquina pública em vez de serem investidos em desenvolvimento de longo prazo.

O modelo extrativista tradicional está diretamente ligado ao desmatamento através da abertura de estradas. Aproximadamente 95% do desmatamento na Amazônia ocorre a até 5,5 quilômetros de uma estrada. Quando o Estado chega com uma grande obra de infraestrutura, a terra se valoriza e desencadeia-se uma corrida especulativa, resultando em um boom inicial seguido de colapso econômico que deixa municípios falidos.

Ambos os municípios têm operações da Vale, mas seguiram estratégias diferentes. Canaã dos Carajás instituiu um fundo soberano para investir os royalties no futuro, tornando-se um dos poucos pontos de desenvolvimento bem-sucedido no Pará. Parauapebas, por sua vez, utilizou os recursos para custear a máquina pública, ficando para trás. Essa diferença crucial demonstra que a gestão inteligente dos recursos é mais importante que a quantidade de riqueza gerada.

Considerar a floresta como uma 'infraestrutura viva' significa reconhecer que ela fornece serviços essenciais de infraestrutura que beneficiam toda a economia brasileira. Os 'rios voadores' da floresta irrigam o agronegócio e abastecem hidrelétricas em outras regiões do país. Atualmente, a floresta provê esses serviços sem ser remunerada por isso, o que reforça a necessidade de um novo modelo que valorize a floresta em pé.

O IPS funciona como uma bússola para gestores públicos e empresas, permitindo que identifiquem as reais necessidades da população além do PIB. Ele mede a qualidade de vida considerando indicadores de saúde, educação e saneamento, revelando que municípios ricos em recursos naturais frequentemente têm baixos índices de desenvolvimento social. Essa ferramenta de gestão baseada em dados permite tomar decisões mais eficazes para transformar a riqueza mineral em progresso social.

As empresas estão migrando de uma visão assistencialista para uma 'abordagem de território', atuando como parceiras estratégicas no planejamento local. Exemplos incluem metas públicas como a da Vale de retirar 500 mil pessoas da pobreza extrema. Nesse novo cenário, o setor privado assume seu papel no desenvolvimento territorial, trabalhando em aliança com gestores públicos e um marco regulatório que incentive as boas práticas.

O desenvolvimento sustentável na Amazônia envolve a promoção de processos participativos e inclusivos, a proteção dos direitos das comunidades locais e povos indígenas, e o fortalecimento da governança ambiental. Também inclui a ativação de cadeias de produtos florestais como frutas, castanhas e insumos derivados de espécies nativas, que trazem renda para as populações locais enquanto mantêm vivos seus conhecimentos e ajudam a valorizar a floresta em pé e a biodiversidade.