- A Amazônia Legal extrai riqueza mineral e energética que representa um quinto da energia brasileira, mas municípios produtores apresentam indicadores de saúde, educação e saneamento entre os piores do país, evidenciando desconexão entre crescimento econômico e progresso social.
- Municípios que recebem maiores royalties de mineração e petróleo apresentam baixos índices de qualidade de vida conforme o Índice de Progresso Social, demonstrando que o modelo extrativista tradicional não converte recursos financeiros em bem-estar populacional.
- Fundos soberanos, gestão baseada em dados e parcerias estratégicas entre poder público, empresas e sociedade civil são mecanismos viáveis para transformar a riqueza mineral finita em desenvolvimento territorial sustentável e permanente na região.
A Amazônia Legal, berço de projetos minerais e energéticos que movem o Brasil, vive uma profunda contradição: a riqueza extraída de seu solo raramente se converte em prosperidade para quem vive sobre ele. O desafio, que une especialistas e líderes do setor privado, é abandonar um modelo extrativista predatório por uma nova visão de futuro, baseada em gestão inteligente, planejamento de longo prazo e no valor da floresta em pé.
A Amazônia gera um quinto da energia do Brasil e abriga reservas minerais de classe mundial. No entanto, em muitos dos municípios que impulsionam essa riqueza, os indicadores de saúde, educação e saneamento estão entre os piores do país. Este é o paradoxo amazônico: um crescimento econômico que não se traduz em progresso social.
“A região possui quatro das cinco maiores hidrelétricas do Brasil, mas 3 milhões de pessoas ainda dependem de geradores a diesel, uma energia cara e poluente”, aponta Joana Chiavari, da PUC-Rio. “A infraestrutura está na Amazônia, mas não serve à Amazônia.”
Este descompasso é o que Beto Veríssimo, pesquisador do Imazon, chama de “maldição dos recursos”. Usando o Índice de Progresso Social (IPS), que mede a qualidade de vida para além do PIB, ele mostra que os municípios que mais recebem royalties de mineração ou petróleo estão, em sua maioria, “no vermelho”. O dinheiro entra, mas não melhora a vida das pessoas.

As raízes de um modelo falho
Historicamente, o desenvolvimento na região seguiu uma lógica destrutiva. A abertura de estradas, por exemplo, está diretamente ligada à devastação. “Quando olhamos para o desmatamento, 95% dele acontece a até 5,5 quilômetros de uma estrada”, explica Chiavari. O Estado chega com uma grande obra, a terra se valoriza e desencadeia-se uma corrida especulativa. O resultado, segundo Veríssimo, é um boom inicial seguido de um colapso, deixando para trás municípios falidos que o poder público precisa socorrer.
O setor de mineração enfrenta um desafio particular: a “rigidez locacional”. A atividade só pode ocorrer onde o minério está. Em Carajás (PA), isso cria um conflito direto entre vastas reservas de ferro e ecossistemas únicos. Para Daniel Raíces, do ICMBio, a solução está em investir em “novas tecnologias para extrair minérios sem destruir a superfície ou para recuperar espécies de forma eficaz”.
Contudo, o maior gargalo não é tecnológico, e sim de gestão. O contraste entre os municípios vizinhos de Parauapebas e Canaã dos Carajás, ambos com operações da Vale, é emblemático. “Canaã dos Carajás é um dos poucos pontos azuis no mapa do Pará. Parauapebas ficou para trás”, aponta Veríssimo. A diferença crucial? Canaã instituiu um fundo soberano para investir os royalties no futuro, enquanto Parauapebas usou os recursos para custear a máquina pública.
Construindo o futuro: dados, floresta e parcerias estratégicas
A boa notícia é que as soluções para quebrar este ciclo vicioso já existem e estão sendo implementadas.
A primeira é uma mudança de mentalidade. Beto Veríssimo defende que a floresta seja vista como uma “infraestrutura viva”, cujos “rios voadores” irrigam o agronegócio e abastecem hidrelétricas no resto do país. “A floresta provê um serviço essencial de infraestrutura e não é remunerada por isso”, afirma.
A segunda é o uso de ferramentas de gestão. O IPS funciona como uma bússola, permitindo que gestores públicos e empresas identifiquem as reais necessidades da população. Já os fundos soberanos, como o de Canaã, são o caminho para transformar a riqueza mineral finita em um legado de desenvolvimento permanente.
Nesse novo cenário, o papel das empresas também evolui. Graziele Parenti, vice-presidente de Sustentabilidade da Vale, explica que a companhia migrou de uma visão assistencialista para uma “abordagem de território”, atuando como parceira estratégica no planejamento local. Um exemplo é a meta pública da empresa de retirar 500 mil pessoas da pobreza extrema.
“Não é possível que, com tanta riqueza gerada, ainda tenhamos pessoas em absoluta vulnerabilidade. A experiência mostra que, com a metodologia certa, tem jeito de fazer”, defende Parenti.
O futuro da Amazônia depende, portanto, de uma aliança poderosa: um marco regulatório que incentive as boas práticas, gestores públicos que usem dados para governar e um setor privado que assuma seu papel no desenvolvimento territorial. Apenas transformando os desafios históricos da região em oportunidades será possível construir um futuro em que a riqueza do subsolo finalmente se traduza em para um desenvolvimento justo e sustentável.

