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Painel na Exposibram 2025 apresentando discussões sobre territorialidade, sustentabilidade e direitos humanos na mineração sustentável.
Da esquerda para a direita: Claúdio C. Maretti, Carlos Alberto Pinto dos Santos, Claudinete dos Santos Colé, Lissette Hidalgo Bacian, Rutian Pataxó (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

Territorialidade e mineração sustentável devem andar juntas, mostra Conferência Amazônia

Com a nova mineração, povos indígenas, quilombolas e de atividades locais, como pescadores, discutem sua coexistência com a mineração e outras atividades

Por Redação, 4 min de leitura

Publicado em 04/11/2025

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  • Povos indígenas, quilombolas e comunidades extrativistas reivindicam participação protagonista na definição de modelos de mineração que respeitem territorialidade, direitos humanos e sustentabilidade ambiental.
  • Comunidades tradicionais enfrentam desafios históricos de sobreposição territorial com áreas de conservação, operações minerárias e projetos de desenvolvimento, demandando reparação pelos impactos acumulados da crise climática.
  • A inclusão de povos tradicionais em processos decisórios sobre mineração sustentável requer diálogo permanente, acesso a educação técnica e reconhecimento de direitos fundiários historicamente negados.
Resumo revisado pela redação.

A territorialidade ligada à sustentabilidade e direitos humanos coloca no mesmo plano histórias de comunidades tradicionais indígenas, quilombolas e extrativistas costeiras. O assunto foi tratado na Conferência Internacional Amazônia e Novas Economias, realizada em Salvador, na semana passada, pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Em comum, essas comunidades têm o desafio da convivência harmônica com a mineração e outras atividades produtivas, buscando imprimir a lógica de conservação e preparo para a transição econômica justa.

No litoral do Brasil, Carlos Alberto Pinto dos Santos (o Carlinhos), do Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e dos Povos e Comunidades Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinho (Confrem), relata mais de 20 anos de organização contra a perda de territórios e maretórios tradicionais no sul da Bahia. A associação fica na região dos Abrolhos e, até o momento, já participou da criação de mais de 30 reservas extrativistas costeiras no litoral brasileiro.

Carlos Alberto Pinto dos Santos em uma conferência, usando fones de ouvido e vestindo uma camisa branca.
Carlos Alberto Pinto dos Santos, do Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e dos Povos e Comunidades Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinho (Confrem) (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

Carlinhos provocou: “a transição justa é justa para quem?”. Ele criticou a lógica de descarbonização dos países europeus, replicada também no Brasil, e advertiu que “não basta equalizar o que foi feito. É preciso reparar”. “A gente não consome o que esse povo consome. Eu não troco celular todos os anos. Eu também não troco de carro todos os anos. Aliás, nem tenho carro. Então, precisa ter uma questão reparativa, pois quem causou isso tudo [crise climática] não fomos nós. A política de democratizar o prejuízo e centralizar o lucro precisa acabar”, disse.

Mineração e quilombolas

Claudinete dos Santos Colé está à frente da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Município de Oriximiná (Arqmo). Ela é originária do primeiro quilombo titulado no Brasil, em 1995, o Boa Vista Trombetas, localizado na região de Oriximiná (PA). Nessa mesma região tem operação de mineração com a qual Claudinete e a sua comunidade convivem há anos.

Claudinete dos Santos Colé está à frente da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Município de Oriximiná
Claudinete dos Santos Colé está à frente da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Município de Oriximiná (Arqmo) (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

Sua avaliação é de que a atividade, que não era inclusiva, hoje tem condições de ser melhor, principalmente após os acidentes de Mariana e Brumadinho. “Como as coisas mudam, a forma que a gente encontrou foi sentar com a empresa e colocar os pontos na mesa. E a gente vai na fé, no coração. É a nossa vida, o nosso território e, muitas vezes, o outro lado não tem a mesma clareza”, disse.

No passado, lembrou ela, não havia diálogo. “Os comunitários não podiam sequer acessar a vila do projeto, e nos perguntávamos por que a mineração não abria a porta para a gente trabalhar. A gente precisa trabalhar também”, contou, salientando que ela própria trabalhou por seis anos na mineração anos depois. 

Nos últimos anos, a Arqmo firmou parceria com a Universidade do Sudoeste do Pará. Inicialmente, houve duas disciplinas, Ciências Biológicas e Sistemas de Informação. Depois, o programa se estendeu para o campus de Santarém, também no Pará, com outras opções. “Criamos o cursinho quilombola, um curso preparatório também, e preparamos os nossos meninos para o trabalho”, contou. “Hoje, já temos engenheiro e geólogo trabalhando na mineração. Então, a escolaridade não é mais uma desculpa”, ressalta.

A Arqmo reúne 38 comunidades quilombolas e cerca de 10 mil pessoas. A região de Oriximiná abriga várias áreas de conservação, como a Floresta Nacional Saracá-Taquera e a Reserva Ecológica do Rio Trombetas. Essa última foi criada em 1979, determinando que não poderia haver pessoas morando ali. “Só que já havia pessoas lá: nós”, destacou Claudinete, explicando que esse problema até hoje é motivo de discussões por parte da comunidade. Ela lembrou que o primeiro quilombo titulado é recente e a luta pela demarcação da terra já vem de muito tempo. “O que me traz aqui [à Conferência Amazônia], portanto, é a continuação dessa luta”, afirmou.

Proteção aos povos originários

Rutian Pataxó, indígena da tribo Pataxó na Bahia, lembrou que o povo Pataxó é a maior comunidade indígena da Bahia, com quase 40 mil pessoas nas imediações de Porto Seguro, que chama de “território do descobrimento”. “Nosso território está em sobreposição com o Parque Nacional do Descobrimento e, desde 2002, estamos em um processo de autodemarcação que tem gerado grande conflito”, disse

Rutian Pataxó, indígena da tribo Pataxó na Bahia
Rutian Pataxó, indígena da tribo Pataxó na Bahia (Foto: Aldair Lima/ IBRAM via Flickr)

Segundo Rutian, o sul baiano é uma área de grandes fazendas e turismo predatório. “Porto Seguro tem um histórico de turismo muito forte. Nossa aldeia-mãe fica lá, então temos grande impacto do turismo e tudo que ele traz: tráfico, prostituição, violência.”

A Conferência da Amazônia ocorreu na sequência da Exposibram, na semana passada em Salvador (BA), reunindo lideranças da mineração e de povos originários para discutir o presente e o futuro da coexistência de ambos.

Dúvidas mais comuns

Mineração sustentável é a atividade de extração mineral que concilia a produção com a conservação ambiental, respeito aos direitos humanos e aos territórios das comunidades tradicionais. Envolve práticas que minimizam impactos ambientais, promovem a inclusão social das populações locais e garantem uma transição econômica justa, especialmente para povos indígenas, quilombolas e comunidades extrativistas que dependem desses territórios.

A territorialidade é fundamental porque os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais têm direitos históricos e culturais sobre suas terras, além de dependerem delas para sua subsistência e preservação ambiental. Respeitar a territorialidade significa reconhecer que a mineração deve coexistir harmoniosamente com esses territórios, garantindo que as comunidades tenham voz ativa nas decisões sobre projetos minerais e que seus direitos humanos sejam protegidos.

Transição justa refere-se ao processo de mudança econômica que deve beneficiar equitativamente todas as partes envolvidas, especialmente as comunidades mais afetadas. No contexto da mineração, significa que a descarbonização e as mudanças nas atividades produtivas não devem transferir o ônus para os povos tradicionais que historicamente não causaram a crise climática, mas sofrem suas consequências. Requer políticas reparativas que reconheçam as desigualdades históricas e garantam oportunidades econômicas para essas comunidades.

Comunidades quilombolas como a Arqmo em Oriximiná (PA) têm buscado diálogo direto com empresas de mineração, estabelecendo parcerias para inclusão social e educacional. Criaram programas como o cursinho quilombola e firmaram parcerias com universidades para capacitar jovens em áreas como Engenharia e Geologia, permitindo que membros da comunidade trabalhem na mineração com melhor qualificação e maior poder de negociação sobre as condições de coexistência.

Os povos indígenas enfrentam desafios complexos, como sobreposição de territórios com áreas protegidas, processos de autodemarcação que geram conflitos, e impactos de atividades econômicas predatórias como turismo descontrolado. Além disso, historicamente não tiveram voz nas decisões sobre projetos minerais em seus territórios, e precisam lutar continuamente pelo reconhecimento de seus direitos e pela proteção contra violências e exploração associadas a essas atividades.

Após esses acidentes ambientais, houve maior abertura para diálogo entre empresas de mineração e comunidades tradicionais. As empresas reconheceram a necessidade de ser mais inclusivas e transparentes, permitindo maior acesso das comunidades aos projetos e criando oportunidades de trabalho. Isso possibilitou que comunidades quilombolas e outras populações tradicionais pudessem participar mais ativamente das decisões e beneficiar-se economicamente da atividade, embora ainda haja muito a avançar.

As reservas extrativistas são áreas de conservação que reconhecem o direito das comunidades tradicionais extrativistas de usar sustentavelmente os recursos naturais de seus territórios. Organizações como a Confrem têm trabalhado há mais de 20 anos para criar e fortalecer essas reservas no litoral brasileiro, participando da criação de mais de 30 reservas extrativistas costeiras. Elas funcionam como instrumentos legais que protegem tanto o meio ambiente quanto os direitos territoriais e econômicos das comunidades.

As universidades têm papel estratégico ao oferecer educação e capacitação profissional para jovens de comunidades tradicionais, permitindo que eles acessem posições qualificadas na indústria minerária. Parcerias como a da Arqmo com a Universidade do Sudoeste do Pará demonstram como programas educacionais podem eliminar barreiras de escolaridade, capacitando profissionais indígenas e quilombolas para negociar melhores condições de trabalho e participação nas decisões sobre mineração em seus territórios.