Vista aérea de uma instalação recreativa cercada por árvores, com grandes edifícios brancos construídos com ligas de nióbio, piscinas circulares, um estacionamento e áreas verdes com paisagismo e trilhas para caminhada.
Unidade de produção de ânodos de nióbio da CBMM dedicada ao desenvolvimento de baterias de carregamento ultrarrapido da XNO® da Echion (Foto: CBMM)

CBMM investe em inovação para diversificar demanda por nióbio

Com apoio de pesquisas e parcerias, mineral ganha mercado na construção civil, baterias, materiais ópticos e semicondutores

Por Vanderlei Campos, 5 min de leitura

Publicado em 09/06/2026

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A expansão do mercado de nióbio não depende apenas do crescimento da produção de aço ou da descoberta de novas reservas minerais. Para a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), o desafio passa por criar aplicações, desenvolver tecnologias e construir parcerias capazes de ampliar a utilização do metal em diferentes setores da economia. O CEO da mineradora, Ricardo Lima, explica que a estratégia é diversificar a carteira de clientes, criando oportunidades de inovação a partir das propriedades singulares do metal.

Como principal produtora mundial de nióbio, a CBMM tem capacidade instalada superior à demanda atual. Segundo Lima, isto faz parte da estratégia de longo prazo da empresa. “Historicamente, sempre investimos antes da demanda. Não queremos correr o risco de deixar um cliente desabastecido. Quando um cliente decide adotar nova aplicação, precisa ter confiança de que haverá fornecimento para sustentar o crescimento daquele mercado”, justifica.

A postura permitiu que a companhia se posicionasse tanto como fornecedora de matéria-prima quanto como agente de desenvolvimento tecnológico para toda a cadeia industrial. “São 70 anos com o objetivo de crescer o mercado e acreditando muito em parceria. Não temos a pretensão de ter todo o conhecimento. Temos que buscar o conhecimento onde existe e fazer parcerias”, destaca.

O nióbio foi identificado no século XIX pelo químico inglês Charles Hatchett, que descobriu o elemento químico de número atômico 41 ao analisar uma amostra mineral proveniente da América do Norte. Em 1953, o geólogo e mineralogista brasileiro Djalma Guimarães identificou a presença de pirocloro (o mineral de onde se extrai o nióbio) na região de Araxá (MG). Essa descoberta revelou que o Brasil detinha a maior reserva de nióbio do planeta (cerca de 90% do total mundial), transformando o país no principal fornecedor desse metal até hoje.

Estratégia de crescimento exigiu ir além da siderurgia

A trajetória de expansão do mercado global de nióbio foi expressiva nas últimas décadas. Dados apresentados pela CBMM mostram que o consumo anual passou de cerca de 33 mil toneladas no fim dos anos 1990 para aproximadamente 133 mil toneladas em 2025, acompanhando a expansão da indústria siderúrgica global, especialmente na China.

Apesar desse crescimento, a direção da companhia passou a enxergar limitações estruturais para a continuidade da expansão baseada exclusivamente na siderurgia. “Em qualquer geografia, a produção de aço bruto se estabiliza em cerca de 2 bilhões de toneladas por ano. Entre 2017 e 2018, percebemos a necessidade de expandir nossa estratégia. Não podemos ficar simplesmente justificando o não crescimento. A companhia era rentável, com boas margens, tudo certo, mas não crescia. Isso gerava realmente um incômodo na gestão, no conselho e nos acionistas”, relata.

A conclusão foi que o crescimento da empresa não poderia depender apenas do aumento da produção mundial de aço. Era necessário criar mercados. “Resolvemos explorar aplicações que não utilizavam nióbio ou utilizavam muito pouco nióbio. Precisávamos ampliar o mercado para além daquilo que já conhecíamos”, conta.

O metal que transforma o desempenho do aço

A siderurgia continua o principal destino do nióbio produzido pela CBMM. Em quantidades muito pequenas, normalmente inferiores a 0,1% da composição do aço, o elemento altera significativamente as propriedades mecânicas do material. O resultado é um aço mais resistente, mais tenaz, com melhor comportamento sob esforços mecânicos e maior durabilidade. Isso permite reduzir peso, aumentar desempenho e ampliar a vida útil de estruturas e equipamentos.

Segundo Lima, a combinação de características explica por que o metal se tornou fundamental para a produção de aços avançados utilizados em setores como infraestrutura, energia, transporte e construção civil.

A China é a principal responsável pelo crescimento. Embora o consumo específico de nióbio por tonelada de aço ainda seja inferior ao observado em países mais desenvolvidos, o avanço da indústria chinesa para produtos de maior valor agregado vem aumentando a utilização do metal.

O infográfico mostra quatro estágios de desenvolvimento em mineração: Ideação, Pesquisa, Adoção em massa e Manutenção, detalhando etapas, riscos, estratégias de mitigação e exemplos como hidrogênio, baterias e nióbio.
Imagem gerada digitalmente com base em informações da CBMM no Mining Innovation Summit 2026

Construção civil reduz materiais e amplia liberdade arquitetônica

Uma das principais apostas da CBMM para ampliar a demanda foi o desenvolvimento de aplicações em aços estruturais para a construção civil. A iniciativa começou com estudos voltados a regiões sujeitas a terremotos e outros eventos sísmicos.

“Resolvemos ser um pouquinho mais arrojados e começamos a explorar a possibilidade de usar nióbio em aços que não eram usados. Estou falando de aços estruturais para a construção civil e aços para vergalhão. Vimos que, em países que têm terremotos e abalos sísmicos, o uso do nióbio em microadições faz com que se tenha uma resistência muito maior e permite evitar grandes desastres, como desabamento de edifícios”, explica. Os ganhos, porém, vão além da segurança. “Se cumprem as mesmas funções estruturais com muito menos aço”, acrescenta.

Segundo Lima, edifícios de grande porte podem reduzir a quantidade total de aço utilizada. “Começamos a mostrar que grandes edifícios; arranha-céus de 80 andares, podiam ter de 12% a 15% menos aço contido”, detalha.

Com a redução do volume necessário de aço, estruturas mais leves exigem menos concreto, menos fundações e menos transporte de materiais. Embora o aço especial tenha custo unitário maior, o volume total utilizado diminui. O resultado é uma obra potencialmente mais econômica, com menor impacto ambiental e maior liberdade arquitetônica para grandes vãos e projetos complexos. “Apesar de vender menos, se vende um aço de maior valor agregado. São aços de melhor qualidade e menor emissão de CO₂. Portanto, está em linha com toda a tendência global”, observa.

Simulação digital acelera adoção tecnológica

Outro elemento da estratégia da CBMM é o trabalho conjunto com clientes para reduzir riscos na adoção de novas aplicações. A empresa passou a investir em ferramentas de modelagem, algoritmos e sistemas de simulação capazes de prever resultados antes da realização dos primeiros testes industriais. “Depois que se mostra isso tudo, aí sim fazemos uma primeira corrida de aço com as sugestões que são colocadas. O nível de assertividade é muito maior”, conta Lima. “Hoje, por meio de dados de medição e feedback dos gestores de produção, os algoritmos vão sendo aperfeiçoados e ajustados às condições de cada um dos clientes”, esclarece.

A redução das incertezas técnicas, na visão dele, acelera a adoção de novas soluções e isto tem proporcionado crescimento ao uso de nióbio na indústria. “Está sendo bom para nós e para os clientes. O fato de a demonstração ser mais rápida e fácil faz com que realmente reduzamos o risco de os projetos morrerem no meio do caminho”, nota.

Oportunidades nas baterias

No contexto da transição energética, segundo Lima, o nióbio pode contribuir também para resolver um dos principais desafios da eletrificação, que é conciliar velocidade de carregamento, segurança e durabilidade das baterias. “Ele oferece estabilidade térmica muito elevada. Isso permite trabalhar com velocidades maiores de carregamento e descarregamento sem os riscos normalmente associados ao aquecimento das baterias [de íon de lítio]”, descreve.

O executivo salienta que o setor de baterias é um dos que têm maior potencial de crescimento nas próximas décadas, dada expansão dos veículos elétricos, dos sistemas estacionários de armazenamento de energia e da eletrificação da economia.

O desenvolvimento das baterias utiliza materiais à base de óxido de nióbio, composto que atua nos eletrodos e permite maior estabilidade estrutural durante os ciclos de carga e descarga. “O que hoje leva de 30 a 40 minutos para carregar pode ser reduzido para algo próximo de cinco a dez minutos, dependendo da aplicação”, afirma o executivo.

Outras aplicações emergentes para o nióbio

Além do uso tradicional na siderurgia e, mais recentemente, em baterias para veículos elétricos, o nióbio ganha espaço em aplicações de alta tecnologia. Entre os principais usos emergentes estão materiais ópticos especiais, supercondutores, componentes eletrônicos avançados, sistemas de geração de energia e ligas metálicas destinadas a ambientes de alta exigência. 

Outro vetor de crescimento está relacionado aos benefícios ambientais do metal. O uso do nióbio permite produzir estruturas mais leves e resistentes, reduzindo a necessidade de aço, concreto e outras matérias-primas. Isto gera ganhos ao longo de toda a cadeia produtiva, com menor consumo de energia, redução de emissões industriais e diminuição da extração e transporte de insumos.