A inteligência artificial é frequentemente imaginada como algo etéreo, uma força digital que vive na nuvem. No entanto, a realidade por trás dos algoritmos é profundamente física, tangível e faminta por recursos naturais. A explosão da IA está gerando uma demanda sem precedentes por infraestrutura e, no cerne dessa expansão, desponta um metal milenar: o cobre. Sem uma revolução urgente na forma como produzimos e reciclamos esse elemento, o avanço da própria revolução tecnológica pode estar em risco.
O alerta foi um dos destaques do primeiro dia do Web Summit, um dos maiores eventos de inovação da América Latina, realizado no Rio de Janeiro. No palco 4, o iraniano Mohammad Doost Mohammadi, fundador e CEO da empresa de tecnologia de extração de metais pH7, apresentou números que conectam diretamente o mundo dos códigos ao da mineração.
”Até 2030, projetamos que os data centers de IA exigirão 945 terawatts-hora de eletricidade globalmente. Isso é mais que o dobro do consumo atual. É o equivalente a adicionar toda a infraestrutura elétrica de um país como o Japão à rede mundial em apenas quatro anos”, disse.
Para distribuir essa energia, o mundo precisará de cerca de 80 milhões de quilômetros de novos cabos de rede na próxima década. Isto é suficiente para duplicar toda a malha elétrica existente hoje no planeta. E o principal ingrediente desses cabos, pela sua alta condutividade, é o cobre.
O gargalo da mineração tradicional
A escala do desafio é matemática. A demanda anual de cobre apenas para a infraestrutura de IA e a eletrificação associada deve atingir 512 mil toneladas até 2040. Para efeito de comparação, a maior mina de cobre do mundo produz cerca de 300 mil toneladas por ano.

Quando olhamos para os projetos de grande porte, o cenário se complica: um único data center de 1 gigawatt pode consumir entre 150 mil e 250 mil toneladas do metal. Como já existem 100 gigawatts em projetos de data centers aprovados globalmente, a necessidade total pode chegar a 25 milhões de toneladas de cobre – o equivalente a décadas de extração atual.
A solução mais óbvia seria simplesmente minerar mais. Contudo, o setor esbarra em um obstáculo intransponível: o tempo. Mohammadi explica que uma nova mina leva, em média, 17 anos para começar a produzir, desde as primeiras pesquisas até a obtenção de licenças ambientais e operacionais. “Não temos esse tempo. A demanda por cobre é para hoje”, alertou o executivo.
Além da urgência cronológica, o mercado já opera no vermelho, com um déficit de 2 milhões de toneladas entre a demanda global (30 milhões de toneladas) e a produção atual (28 milhões). As projeções indicam que esse gap anual saltará para 16 milhões de toneladas na próxima década.
Soma-se a isso a extrema centralização geopolítica do refino. Embora Chile e Peru sejam os grandes produtores do minério bruto, cerca de 80% do concentrado de cobre atravessa os oceanos para ser processado na China. Trata-se de um modelo logístico complexo e altamente vulnerável a tensões internacionais.
A solução: mineração urbana e “gêmeos digitais”
Para a pH7, o problema real não é a escassez do cobre no planeta, mas sim o método de processamento. Há volumes massivos de metal retidos em rochas de rejeitos de mineração de baixa concentração e, principalmente, nas gavetas dos consumidores, na forma de celulares e computadores obsoletos.
A inovação apresentada no Web Summit propõe um modelo sustentável e descentralizado, com base em processo eletroquímico, modular e eletrificado, capaz de extrair cobre puro diretamente nos locais de mineração ou em instalações urbanas de reciclagem de lixo eletrônico. O resultado são cátodos de cobre prontos para a manufatura, produzidos perto dos centros de demanda e quebrando a dependência das frágeis cadeias globais de suprimentos.
Em uma virada irônica, a própria inteligência artificial surge como peça-chave para viabilizar sua própria sobrevivência física. A tecnologia da startup utiliza sensores e “gêmeos digitais” para monitorar e otimizar as reações eletroquímicas em tempo real, maximizando a eficiência energética e eliminando a geração de novos resíduos.
Fica cada vez mais claro que a próxima era da tecnologia não será definida apenas por chips mais rápidos ou modelos de linguagem mais complexos, mas pela capacidade de suprir a base física que os sustenta. A corrida pela supremacia na inteligência artificial transformou-se, essencialmente, em uma corrida inteligente pelo cobre.
* Especial para o Radar Mineração
Dúvidas mais comuns
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O cobre é essencial para a infraestrutura de IA devido à sua alta condutividade elétrica. Com a demanda por data centers de IA exigindo 945 terawatts-hora de eletricidade até 2030, será necessário instalar cerca de 80 milhões de quilômetros de novos cabos de rede na próxima década. O cobre é o principal ingrediente desses cabos, tornando-o crítico para distribuir a energia necessária para sustentar a revolução tecnológica.
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A demanda anual de cobre apenas para a infraestrutura de IA e eletrificação associada deve atingir 512 mil toneladas até 2040. Considerando os 100 gigawatts em projetos de data centers já aprovados globalmente, onde um único data center de 1 gigawatt consome entre 150 mil e 250 mil toneladas de cobre, a necessidade total pode chegar a 25 milhões de toneladas - o equivalente a décadas de extração atual.
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O principal gargalo é o tempo. Uma nova mina leva, em média, 17 anos para começar a produzir, desde as primeiras pesquisas até a obtenção de licenças ambientais e operacionais. Como a demanda por cobre é urgente, não há tempo suficiente para abrir novas minas. Além disso, o mercado global já opera com um déficit de 2 milhões de toneladas anuais, com projeções indicando que esse gap saltará para 16 milhões de toneladas na próxima década.
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A cadeia de suprimentos de cobre é altamente centralizada e vulnerável. Embora Chile e Peru sejam os grandes produtores do minério bruto, cerca de 80% do concentrado de cobre é transportado para ser processado na China. Esse modelo logístico complexo depende de frágeis cadeias globais de suprimentos e está exposto a tensões internacionais, criando riscos significativos para a continuidade do fornecimento.
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A mineração urbana é a extração de cobre de resíduos eletrônicos e rejeitos de mineração de baixa concentração, em vez de apenas minerar novo cobre. A solução proposta utiliza processos eletroquímicos modulares e eletrificados para extrair cobre puro diretamente em locais de mineração ou em instalações urbanas de reciclagem. Esse modelo descentralizado produz cátodos de cobre prontos para manufatura perto dos centros de demanda, quebrando a dependência das cadeias globais frágeis.
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A IA surge como peça-chave para viabilizar a sustentabilidade da própria infraestrutura tecnológica. Tecnologias como sensores e 'gêmeos digitais' monitoram e otimizam reações eletroquímicas em tempo real, maximizando a eficiência energética e eliminando a geração de novos resíduos. Essa abordagem demonstra que a próxima era da tecnologia será definida não apenas por chips mais rápidos, mas pela capacidade de suprir a base física que sustenta a IA.
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Os data centers de IA têm um impacto massivo no consumo energético global. Até 2030, projeta-se que os data centers de IA exigirão 945 terawatts-hora de eletricidade globalmente, mais que o dobro do consumo atual. Isso é equivalente a adicionar toda a infraestrutura elétrica de um país como o Japão à rede mundial em apenas quatro anos, representando um desafio sem precedentes para a infraestrutura energética global.
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A corrida pela supremacia em inteligência artificial transformou-se em uma corrida pelo cobre porque a IA depende fundamentalmente de infraestrutura física robusta. Sem cobre suficiente para construir os cabos, transformadores e sistemas de distribuição de energia necessários, a expansão dos data centers de IA será limitada. Portanto, a capacidade de suprir cobre de forma sustentável e descentralizada tornou-se tão crítica quanto o desenvolvimento dos próprios algoritmos de IA.