A descarbonização da economia – necessária para o cumprimento do Acordo de Paris – demanda uma transição energética. Veículos e indústrias movidos a combustíveis fósseis estão migrando para tecnologias elétricas, o que movimenta a cadeia de baterias e de condutores de eletricidade; e estão aí as principais aplicações dos minerais críticos como lítio, cobre, cobalto, grafite e terras raras.

Das baterias de veículos elétricos à eletrificação e conectividade de cidades – passando por turbinas eólicas e painéis solares fotovoltaicos – esses insumos estão no coração das cadeias produtivas da “nova economia verde”, o que tem movido governos, empresas e investidores a uma nova corrida econômica mundo afora. É a construção de um novo tabuleiro econômico na geopolítica e o Brasil, mais uma vez, emerge como figura importante. Ou, ao menos, como potencialmente importante, já que reúne uma das maiores reservas de minerais críticos do mundo.

Além disso, com energia renovável em abundância, o país tem possibilidade de buscar protagonismo na indústria de beneficiamento desses minerais. Afinal, produção verde exige energia igualmente verde, e essa lição de casa o Brasil vem fazendo há anos, especialmente com a energia gerada por hidrelétricas.

Mas não estamos sozinhos na panaceia. Vizinhos latinoamericanos, como Bolívia, Argentina e Chile, têm os seus diferenciais. Globalmente, a China, os Estados Unidos e a Indonésia – para ficarmos em três exemplos – são competidores fortes também. Além disso, temos desafios estruturantes e é justamente a capacidade de resolvê-los que definirá se seremos protagonistas ou, novamente, o “país do futuro”.

Brasil, mostra a tua cara!

Em termos de riqueza mineral, ninguém reúne tantas possibilidades quanto o Brasil. O país tem a terceira maior reserva mundial de níquel e a maior reserva de nióbio, que não é considerado crítico pela Agência Internacional de Energia (IEA), mas tem característica para acelerar a recarga de baterias e reduzir a demanda por cobalto, por exemplo.
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Sobre o lítio, a IEA mapeou que a procura deve crescer mais de 40 vezes até 2040, enquanto grafite, cobalto e níquel terão aumento de 20 a 25 vezes no período. Já o consumo de cobre deve crescer 60%, nas projeções do Banco Mundial.

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Minério de lítio (Foto: BJP7images/ Shutterstock)
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Minério de cobre (Foto: Pamela Au/ Shutterstock)

Somam-se a isso as terras raras: um grupo de 17 elementos químicos que habilitam tecnologias de turbinas eólicas, foguetes, motores de carros elétricos, cabos de transmissão de energia e outras. Nesse caso, o Brasil detém a segunda maior reserva do mundo (atrás da China).

Em dados gerais, o Ministério de Minas e Energia contabiliza aproximadamente 50 projetos em andamento, entre pesquisa e extração de minerais críticos no país. Goiás, Bahia, Minas Gerais e Pará concentram a maioria deles.

Fernando Azevedo, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), contextualizou que o “Brasil tem uma verdadeira tabela periódica em seu subsolo”. O comentário aconteceu durante um seminário realizado pelo jornal Correio Braziliense, em parceria com o Instituto Escolhas e intitulado “Os desafios da agenda de minerais estratégicos para o Brasil”.

De acordo com o executivo do IBRAM, o país detém reservas relevantes de onze minerais listados pela IEA como estratégicos para armazenamento de energia. Ele destacou que, com esse potencial, o país se torna um player na geopolítica mineral, mas deve ficar atento às vulnerabilidades, inclusive à dependência tecnológica.

Fatores comparativos (quiçá, competitivos)

Rodrigo Cota, então diretor do Departamento de Transformação e Tecnologia Mineral do Ministério de Minas e Energia (MME), afirmou, no mesmo evento, que a jornada de se posicionar globalmente como provedor estratégico exige do Brasil políticas focadas no desenvolvimento da cadeia de valor, especialmente no processamento mineral.

“A oportunidade surge em um contexto mundial, no qual há um descompasso entre a oferta projetada e a demanda de minerais estratégicos cruciais para a transição energética, como cobre, lítio, níquel, cobalto, grafite e terras raras”, explicou.

Além disso, segundo ele, a indústria de processamento desses minerais está altamente concentrada na China. “Países ocidentais, em busca de alternativas à indústria chinesa, veem o Brasil como uma opção viável”, completou.

Nas contas do MME, a China concentraria 93% do beneficiamento global de grafite, 74% de cobalto, 46% de cobre e cerca de 65% de níquel, considerando também operações na Indonésia controladas por empresas chinesas. As condições brasileiras, na avaliação de Cota, ganham maior destaque pelo país deter a segunda maior reserva mundial de grafite, assim como a segunda maior na área de terras raras.

Além das reservas importantes, o Brasil é considerado uma boa escolha para abrigar a indústria de processamento mineral, e muito disso se deve à capacidade de geração de energia renovável.

De fato, o país é o que mais produz energia elétrica renovável, proporcionalmente, no mundo. Isso está em linha com as benesses naturais, bastante generosas: 12% da água doce do mundo, por exemplo, estão em território brasileiro. Não sem motivo, o Brasil construiu um grande parque de usinas hidrelétricas no século passado e, até hoje, tem essa infraestrutura respondendo por 46% da sua geração de energia.

Mapa interativo do Rm mostra a geopolítica dos minerais críticos

Considerada renovável, a energia hidrelétrica brasileira vem sendo equilibrada com outras fontes igualmente renováveis, como a eólica e a solar, especialmente nas duas últimas décadas.

De acordo com o Global Electricity Review, publicado neste ano pela Ember - organização internacional que monitora a transição energética -, 24% da energia elétrica produzida no Brasil veio dessas duas fontes em 2024.

Com a soma dessas fontes a outras, como a energia nuclear e o biometano (que pode abastecer termelétricas a gás), a contabilidade da Empresa Brasileira de Energia (EPE) é de que quase 90% da geração de energia elétrica brasileira é renovável. Mas isso, por si só, não garante o protagonismo do Brasil na geopolítica dos minerais críticos: há outros desafios que precisam ser vencidos.

Desafios à vista

Entre as estratégias para pavimentar a jornada dos minerais críticos no país, Rodrigo Cota, do MME, elencou a necessidade de ampliação da oferta de minerais. Nesse caso, o processo começa com maior conhecimento geológico e apoio à pesquisa.

Já o desenvolvimento da indústria de processamento mineral deve envolver uma priorização na tramitação de processos na Agência Nacional de Mineração (ANM) e no MME, e o mapeamento geológico de áreas com alto potencial para recursos minerais estratégicos.

A oferta de apoio financeiro para pesquisa, extração e processamento mineral também deve fazer parte da estratégia de posicionamento do país, assim como a atração de investimento estrangeiro em colaboração com a Apex Brasil e o Ministério das Relações Exteriores (MRE).

O relacionamento internacional com países parceiros é outra ação da diplomacia mineral para a integração da indústria brasileira às cadeias globais de valor da transição energética.

À cooperação internacional, abre-se uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo em que é preciso transferir tecnologias e fomentar mercados compradores, o Brasil deve acompanhar o desenvolvimento internacional para alcançar a vanguarda que se deseja.

Até mesmo no seu diferencial comparativo - a geração de energia renovável - o relatório da Ember mostra que o país não ficará confortavelmente na liderança isolada para sempre. Já no ano passado, o mundo ultrapassou a marca de 40% de renovabilidade na geração de energia elétrica pela primeira vez na história. A nível de comparação, essa taxa era inferior a 30% em 2021.

A China tem sido o grande impulsionador, mas países do Oriente Médio, a África do Sul e até mesmo europeus, como a Alemanha, também avançaram significativamente. Mas o tigre asiático é destaque porque triplicou o seu parque de geração renovável nos últimos três anos. Só em 2024, a ampliação foi de 29%.

Responsabilidade ambiental, mas também econômica

No Brasil, as licenças ambientais e sociais também são desafios. Assim como Cota e Azevedo, a diretora de Pesquisa do Instituto Escolhas, Larissa Rodrigues, lembrou que não se discute mais o setor de mineração sem incluir a responsabilidade ambiental e social. “Esse tema está apaziguado e é central nas discussões mundiais, ao lado de tarifas, investimentos e preços”, reforçou a especialista.
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Para ela, o desafio do país é encontrar um equilíbrio entre a viabilização de projetos econômicos importantes e a contenção dos impactos ambientais e sociais, garantindo a distribuição dos benefícios.

Ricardo Sennes, diretor da consultoria Prospective, que também participou do seminário do Correio Braziliense, reforçou a necessidade de o Brasil focar na sensibilidade geopolítica e na diplomacia estratégica. “Minerais críticos são essenciais não apenas para a transição energética, mas para eletrônica, computação de alta velocidade, redes de comunicação, inteligência artificial e a indústria bélica”, explicou. “A inserção do Brasil nesse mercado exigirá acordos de fornecimento, cooperação tecnológica e uma diplomacia estratégica, diferente da venda tradicional de commodities”, disse.

A Niquelândia é do Brasil

O desenvolvimento tecnológico para aumentar a capacidade de processamento e beneficiamento mineral também é um desafio brasileiro para tomar a dianteira global de minerais críticos. Com a terceira maior reserva mundial de níquel (16 milhões de toneladas), por exemplo, o país ainda tem uma produção modesta, de 89 mil toneladas (número de 2023). Isto representou participação de apenas 2,47% no mercado global, segundo a revista Minérios.

Com esses números, o Brasil era apenas o nono maior provedor de níquel, mas se vangloriava de ser o único país latino-americano na lista dos dez principais produtores do mundo.

Dados mais recentes, do Sumário Mineral, publicado pela Agência Nacional de Mineração (ANM), destacam que a produção brasileira foi de 72,4 mil toneladas de níquel contido, o que representaria 1,9% do total global, puxado pela Indonésia (54%), Filipinas (11%), Nova Caledônia (6,2%), Rússia (5,6%) e Canadá (4,2%).

Regionalmente, Goiás é o maior produtor, inclusive com destaque para o município de Niquelândia, que concentra uma das maiores reservas do mundo. No estado, já foram extraídas mais de 75 milhões de toneladas de níquel em estado natural, desde que começaram as explorações, segundo a ANM.

O níquel é um metal mais presente no cotidiano: ele está em moedas de baixo valor, como os cinco centavos de dólar, por exemplo. No entanto, desde que foi reconhecido como um elemento diferente do cobre, com o qual era confundido, o níquel ganhou espaço e hoje faz parte da lista de elementos críticos para a transição energética, principalmente pela sua condição na fabricação de baterias.

Segundo a Shangai Metal Marketing (SMM), especializada em níquel, embora a taxa de uso desse mineral no mercado de baterias esteja em expansão, a velocidade de crescimento é menor do que se esperava. Porém, a instituição explica que a produção de baterias com alto teor do metal segue em crescimento e já garantiu uma fatia considerável do mercado de carros elétricos.

Também em 2023, as vendas de veículos elétricos (incluindo híbridos plug-in) cresceram 35% globalmente e esse tipo de automóvel representou de 15% a 18% das vendas globais de veículos leves.

No Brasil, a tendência não é diferente. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), mais de 61 mil veículos elétricos (BEV) foram vendidos em 2024, o que representou um aumento de 219,1% em relação a 2023. Tão importante quanto o volume, é o fato de que os veículos elétricos foram 34,7% de todos os veículos novos vendidos no país no ano passado.
Minerais críticos são essenciais para a transição energética, inclusive para produzir baterias de carros elétricos.
Minerais críticos são essenciais para a transição energética, inclusive para produzir baterias de carros elétricos.

Aos minerais críticos utilizados na produção de baterias que propulsionam esses automóveis - como o níquel - a projeção de demanda está posta, portanto. Um veículo elétrico típico alimentado por uma bateria de 62,5 kWh, por exemplo, precisa de 43 kg de níquel.

Globalmente, a Indonésia é a maior produtora mundial e dona das maiores reservas do níquel, e a China continuará como o maior consumidor primário do mineral, com a previsão de representar 63,5% da demanda total global ainda neste ano.

Cobre e lítio colocam os hermanos na disputa

Além do Brasil, outros países sulamericanos estão assumindo papel relevante na geopolítica de minerais críticos. A começar pela mineração de lítio, a Bolívia lidera as perspectivas após validar reservas de 23 milhões de toneladas. Em seguida, vem a Argentina (22 milhões/t) e o Chile (11 milhões/t). Mas quando o assunto é capacidade produtiva, o Chile muda o cenário.

Em 2024, o país de Neruda foi o segundo maior produtor mundial, com 44 mil toneladas, superado apenas pela Austrália, que liderou com uma produção de 86 mil toneladas.

Além do lítio, o Chile mantém posição forte no cenário mundial com o Cobre, que é o principal mineral produzido no país. Em 2024, a produção chilena de cobre chegou a 5,3 milhões de toneladas, com 71,8% provenientes de mineradoras privadas, 24,1% da mineradora estatal Codelco e 4% de pequenas e médias mineradoras. Os dados são da Comissão Chilena de Cobre (Cochilco).

Já a Câmara Chilena e Norteamericana de Comércio (Amcham-Chile) projeta que, em 2027, o país vai representar 27% da produção mundial de cobre. Já no ano passado, o mundo consumiu 25,7 milhões de toneladas de cobre e 20% disso veio do Chile (leia reportagem sobre a mineração no Chile).

A natureza e, novamente, o Brasil

Diferentemente do Chile - líder em cobre - o Brasil não é líder em nenhum mineral crítico. Porém, é “um dos líderes” em quase todos, mostrando que a natureza gosta mesmo de nos dar as suas benesses.

Recentemente, uma nova reserva mineral, que reúne urânio, elementos de terras raras (ETR) e fosfato, foi anunciada pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB). A ocorrência tripla dos minerais está localizada no Piauí, dentro da Bacia Geológica do Parnaíba, que envolve mais outros dois estados – Maranhão e Ceará - e volta a estimular a corrida brasileira pela geopolítica dos minerais críticos.

soluções baseadas na natureza

Dados preliminares indicam que o teor de urânio da nova reserva pode variar de 9 a 1.270 partes por milhão (ppm). Segundo reportagem do portal G1, esse último valor estaria acima da média, o que significa que a recuperação do urânio seria economicamente viável mesmo em cenários econômicos desafiadores.

A descoberta dos novos depósitos pode colocar o Brasil em posição de maior destaque como fornecedor do minério em curto prazo. Em sua forma enriquecida, o urânio é usado como combustível em usinas nucleares, hoje apontadas nos Estados Unidos como uma das fontes para alimentar a demanda de energia de data centers.

Outro diferencial está nas terras raras. Para os especialistas do SGB, os depósitos do Piauí representam um novo modelo, com os minerais concentrados em rochas fosfáticas e em alta concentração. As ocorrências das terras raras no Brasil estão ligadas, em geral, a depósitos costeiros de areias monazíticas, granitos e complexos alcalinos.

Com a segunda maior reserva mundial, o Brasil precisa avançar em tecnologia para competir com o domínio da China em terras raras.

Embora sejam abundantes na crosta terrestre, o termo “raras" se refere à dificuldade de extração em sua forma bruta e é justamente esse o salto tecnológico que o Brasil precisa.

A China, que até o momento concentra 70% da produção mundial, já domina todas as etapas tecnológicas, do processamento ao beneficiamento e até à fabricação de ímãs de alto desempenho.

Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a China possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas, o que a torna a maior detentora desses recursos. A mina de Bayan Obo, no norte do país, supera de forma expressiva outros depósitos globais. Desde a década de 1980, Pequim investe em uma estratégia de avanço na cadeia produtiva, incluindo patentes sobre processos de refino, que dificultam a entrada de concorrentes.

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Em entrevista ao podcast O Assunto, o professor Fernando José Gomes Landgraf, da Escola Politécnica da USP, destacou que as terras raras são fundamentais para turbinas eólicas, baterias e motores de carros elétricos, cabos de transmissão de energia, foguetes, equipamentos médicos, sistemas de defesa e eletrônicos avançados. Um destaque é o disprósio, pois garante que ímãs mantenham seu desempenho em altas temperaturas, algo importante também para veículos elétricos de última geração.

Do ponto de vista ambiental, a extração desses minerais envolve processos complexos e potencialmente poluentes, exigindo gestão rigorosa de rejeitos e mitigação de impactos. O desafio tecnológico, segundo Landgraf, está no domínio do beneficiamento e na transformação industrial, áreas nas quais o Brasil ainda é limitado, exportando parte de suas terras raras como commodities brutas.

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O Brasil, com cerca de 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras (25% do total global descoberto até o momento) pode usar mais esse diferencial para se tornar líder na produção de insumos críticos para a transição energética.

Há algumas iniciativas em andamento e uma delas, o Projeto MagBras, é liderado pelo Senai para a criação de uma cadeia completa de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro, com tecnologia brasileira do beneficiamento à reciclagem.

Outro exemplo é um fundo de R$ 1 bilhão para financiar pesquisas minerais, com foco em empresas juniores, além de uma chamada pública de R$ 5 bilhões do BNDES, FINEP e MME para apoiar planos de negócio e implantação de plantas industriais, mostrando que o Brasil pretende se apresentar para o futuro na cadeia de minerais críticos.

Dúvidas mais comuns

O Brasil possui uma vasta variedade de minerais críticos essenciais para a transição energética, incluindo lítio, cobre, cobalto, grafite, níquel e terras raras. O país detém a segunda maior reserva mundial de grafite e terras raras, além de possuir a terceira maior reserva de níquel com 16 milhões de toneladas. Aproximadamente 50 projetos de pesquisa e extração desses minerais estão em andamento no país, concentrados principalmente em Goiás, Bahia, Minas Gerais e Pará.

Os minerais críticos são fundamentais para as tecnologias que substituem os combustíveis fósseis. Eles são essenciais na fabricação de baterias para veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares fotovoltaicos, cabos de transmissão de energia e sistemas de eletrificação de cidades. A demanda por esses minerais é projetada para crescer significativamente até 2040, com o lítio aumentando mais de 40 vezes, enquanto grafite, cobalto e níquel devem crescer entre 20 e 25 vezes.

O Brasil possui duas vantagens competitivas principais: abundância de reservas minerais e capacidade de geração de energia renovável. O país produz quase 90% de sua energia elétrica de fontes renováveis, com 46% proveniente de hidrelétricas e 24% de fontes eólicas e solares. Essa energia limpa é essencial para o processamento mineral sustentável, posicionando o Brasil como uma opção viável para países ocidentais que buscam alternativas à indústria chinesa, altamente concentrada no beneficiamento desses minerais.

Os principais desafios incluem: desenvolvimento da indústria de processamento mineral, que atualmente está concentrada na China; avanço tecnológico em beneficiamento e transformação industrial; ampliação da oferta de minerais através de maior conhecimento geológico; atração de investimento estrangeiro; e diplomacia estratégica para integração às cadeias globais de valor. Além disso, o Brasil precisa equilibrar a viabilização de projetos econômicos com a contenção de impactos ambientais e sociais, garantindo a distribuição dos benefícios.

Apesar de possuir a terceira maior reserva mundial de níquel com 16 milhões de toneladas, a produção brasileira é modesta. Em 2023, o Brasil produziu 89 mil toneladas, representando apenas 2,47% do mercado global, ocupando a nona posição entre os maiores produtores mundiais. Dados mais recentes indicam uma produção de 72,4 mil toneladas de níquel contido, equivalente a 1,9% do total global. Goiás é o maior produtor brasileiro, com destaque para o município de Niquelândia, que concentra uma das maiores reservas do mundo.

O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, com aproximadamente 21 milhões de toneladas, representando 25% do total global descoberto. Recentemente, uma nova reserva foi descoberta no Piauí contendo urânio, elementos de terras raras e fosfato em alta concentração. No entanto, o Brasil ainda exporta grande parte dessas terras raras como commodities brutas, pois a China domina 70% da produção mundial e todas as etapas tecnológicas de processamento, beneficiamento e fabricação de ímãs de alto desempenho.

O Brasil está implementando várias iniciativas estratégicas, incluindo o Projeto MagBras, liderado pelo Senai, para criar uma cadeia completa de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro com tecnologia brasileira. Além disso, foi criado um fundo de R$ 1 bilhão para financiar pesquisas minerais focando em empresas juniores, e uma chamada pública de R$ 5 bilhões do BNDES, FINEP e MME para apoiar planos de negócio e implantação de plantas industriais, demonstrando o compromisso do Brasil em se posicionar como protagonista na cadeia de minerais críticos.

A descoberta recente de uma reserva mineral contendo urânio, elementos de terras raras e fosfato na Bacia Geológica do Parnaíba, no Piauí, representa um novo modelo de depósitos com minerais concentrados em rochas fosfáticas e em alta concentração. Os dados preliminares indicam que o teor de urânio pode variar de 9 a 1.270 partes por milhão, com valores acima da média que tornam a recuperação economicamente viável. Essa descoberta pode colocar o Brasil em posição de maior destaque como fornecedor de urânio em curto prazo, especialmente considerando a demanda crescente para usinas nucleares que alimentam data centers.