Os 1,6 bilhão de veículos que circulam atualmente no mundo concentram cerca de 2,5 bilhões de toneladas de minério de ferro, segundo a Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). Esse estoque de materiais ajuda a explicar por que a recuperação de minerais em produtos no fim da vida útil, conhecida como mineração urbana, passou a integrar a discussão da indústria automotiva sobre o futuro dos recursos minerais.
Essa é uma das reflexões apresentadas pela entidade no Caderno de Tendências Tecnológicas da Indústria de Minerais Estratégicos, divulgado no fim de agosto, durante o Simpósio Internacional de Engenharia Automotiva (SIMEA) 2026.
O conceito amplia a lógica do “berço ao túmulo”, associada no caderno às etapas que vão da extração ao descarte.
A proposta da AEA é completar esse ciclo com o retorno dos materiais à cadeia produtiva, sempre que houver condições para isso.
Segundo Carlos Sakuramoto, diretor de Manufatura da AEA, a pergunta colocada durante a apresentação do documento foi sobre o destino desse material quando os produtos deixam de ser utilizados.
“Ele vai para onde?”, questionou o especialista. Para a AEA, a resposta passa pela recuperação e pelo reaproveitamento dos recursos que já estão disponíveis na economia.
A questão ganha relevância diante do aumento do consumo de recursos naturais. Segundo Sakuramoto, a humanidade já ultrapassou em 60% a capacidade de regeneração do planeta. Para a AEA, esse cenário exige uma mudança na forma como a indústria encara a matéria-prima.
Engenharia precisa considerar todo o ciclo dos materiais
Sakuramoto chamou atenção para a responsabilidade da engenharia no legado que será deixado para as próximas gerações, ao explicar a proposta do Caderno de Tendências.
A publicação parte da economia circular para propor uma abordagem que percorra toda a cadeia dos materiais: extração da matéria-prima, transformação, fabricação, uso e descarte, que passa a incluir uma etapa de retorno dos materiais à economia.

O estudo organiza essa visão em cinco pilares: energia, ligas metálicas, polímeros e compósitos, minerais e neomineração.
Nesse contexto, a mineração circular amplia o entendimento sobre onde estão os recursos minerais disponíveis para a indústria. Além das reservas naturais, existe um estoque de materiais já extraídos, transformados e incorporados a produtos em uso ou que chegaram ao fim de sua vida útil.
Para a indústria automotiva, esse estoque ganha importância à medida que novas tecnologias de mobilidade elevam a demanda por materiais e minerais específicos. “Recuperar aquilo que já foi extraído pode reduzir a necessidade de recorrer exclusivamente à mineração primária e, ao mesmo tempo, criar novas etapas de processamento e reaproveitamento”, disse Sakuramoto.
Materiais como estoque mineral
A mudança de perspectiva também altera a relação entre mineração e indústria. Em vez de considerar que o ciclo do mineral termina quando ele deixa a mina e é transformado em um produto, a economia circular passa a enxergar o material como um ativo que pode permanecer disponível por diferentes ciclos de uso.

Um veículo, nesse sentido, deixa de ser apenas um produto no fim de sua vida útil. Ele também representa um estoque de metais, polímeros, compósitos e outros materiais que podem ser separados, processados e utilizados novamente.
A ideia está relacionada ao conceito de neomineração tratado pela AEA.
A entidade criou uma comissão técnica para materiais minerais após identificar o aumento da importância dos minerais estratégicos, especialmente diante das mudanças geopolíticas que ganharam força durante a pandemia.
A recuperação, entretanto, depende de tecnologia, processos industriais e infraestrutura capazes de separar os diferentes materiais e devolver qualidade suficiente para que retornem à produção. Por isso, a circularidade não se restringe à etapa final do produto. Ela precisa ser considerada desde o projeto e a escolha dos materiais.
Desafio para a cadeia automotiva
A discussão coloca a indústria automotiva diante de uma mudança de abordagem. A disponibilidade de minerais deixa de ser analisada apenas pela capacidade de ampliar a extração e passa a incluir a possibilidade de recuperar materiais de produtos, como veículos e suas peças, que já estão em circulação.
Essa nova etapa também pode contribuir para reduzir a exposição da indústria às oscilações do mercado internacional e às questões geopolíticas relacionadas aos minerais estratégicos. “Quanto maior a capacidade de recuperar e reaproveitar materiais, maior pode ser a diversidade de fontes disponíveis para a indústria”, pontuou Sakuramoto.
Quanto maior a capacidade de recuperar e reaproveitar materiais, maior pode ser a diversidade de fontes disponíveis para a indústria.”
Carlos Sakuramoto
A AEA, porém, não apresenta a economia circular como uma solução única. O próprio caderno foi concebido como instrumento para reunir diferentes visões e estimular a discussão entre indústria, academia e sociedade. “Ele não tem uma solução única. Ele tem ideias, visões complementares”, afirmou Sakuramoto, durante o lançamento da publicação.
Elaborado ao longo de um ano, o estudo contou com a participação voluntária de 27 pesquisadores, professores e doutores de instituições como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Sesi e Senai, além do apoio da Fundep para a publicação.
Ao colocar a circularidade dos materiais no centro da discussão, a AEA amplia o conceito de disponibilidade mineral: além do que ainda está no subsolo, há recursos já extraídos e incorporados à economia que podem voltar aos processos produtivos. Para a indústria automotiva, os veículos no fim da vida útil fazem parte desse estoque.