A transição energética e as metas climáticas globais impõem ao setor mineral o desafio de ampliar a produção de matérias-primas essenciais com o máximo de responsabilidade ambiental e social. Nesse cenário, a economia circular surge como uma ferramenta estratégica para transformar passivos em recursos e conectar a mineração a outras cadeias produtivas.
Para detalhar os avanços, as oportunidades e os gargalos dessa transformação, o Radar Mineração conversou com a engenheira química chilena Tabatha Chavez Matus, gerente de Inovação do Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM).
Matus participa como keynote speaker da sessão de aceleração promovida hoje (18) pelo Mining Hub e pela Vale, em Belo Horizonte, cujo tema central é “Circularidade como ferramenta para transformar a mineração”. O evento integra a programação global da décima edição do Fórum Mundial de Economia Circular (WCEF), realizado na Índia de 15 a 18 de setembro.
Confira os principais trechos da entrevista:
Tabatha, o que a levou a concentrar sua carreira na sustentabilidade mineral e como você avalia a evolução do setor na última década?
Sou engenheira química e, no início da minha carreira, imaginava que seguiria para a indústria de alimentos, mas percebi que esse não era o meu caminho. Como chilena, voltei meu olhar para a mineração, motivada pela imensa escala do setor. Em uma indústria com volumes tão expressivos, qualquer ganho de 1% gera um impacto transformador. Escolhi me concentrar em rejeitos ainda na universidade, trabalhando com grupos europeus para recuperar materiais dessas estruturas sob uma perspectiva tecnológica.
Nos últimos dez anos, a sustentabilidade mudou drasticamente. Se a mineração já foi vista como uma atividade antiquada, hoje temos operações funcionando com veículos 100% elétricos, água do mar dessalinizada, energia renovável e projetos concretos de circularidade.”
Marcos globais recentes, como a meta de biodiversidade do ICMM de interromper a perda de biodiversidade nas operações de seus membros, chegando a nenhuma perda líquida de biodiversidade em todos os locais de mineração até o fechamento – medida em relação a uma linha de base de 2020 –, demonstram a velocidade sem precedentes com que o setor avançou.
Diante do aumento da demanda por minerais para a transição energética e a inteligência artificial, a reciclagem será suficiente ou precisaremos minerar mais?
Os dados mostram que, mesmo se utilizássemos 100% da capacidade atual de reciclagem e mantivéssemos a produção mineral primária no ritmo atual, ainda não atenderíamos à demanda necessária para alcançar as metas climáticas de 2050. O mundo está construindo novos sistemas de energia limpa, eletrificando frotas e ampliando a infraestrutura para data centers e IA em uma velocidade sem precedentes.

Portanto, não se trata de escolher entre mineração e reciclagem. Ambas precisam trabalhar juntas de forma complementar. É indispensável combinar mineração primária responsável, reciclagem e reprocessamento de rejeitos. Para dimensionar a oportunidade, o volume global de rejeitos de mineração é cerca de quatro vezes maior do que todo o lixo doméstico gerado no planeta. É um grande volume de recursos potenciais.
Como a transformação de rejeitos em produtos (waste to value) pode gerar valor para a sociedade e outras indústrias?
Já existem tecnologias consolidadas que nos permitem transformar rejeitos em materiais de construção. A Vale, por exemplo, tem sido pioneira no desenvolvimento de areia sustentável a partir do processamento de minério de ferro. Quando conectamos a mineração à construção civil, como tem sido feito no Chile e na Finlândia, ajudamos a indústria da construção a alcançar suas próprias metas ambientais e climáticas. Usamos um desafio da mineração para resolver um problema de outro setor.

Além disso, o modelo waste to value fortalece o desenvolvimento regional. Já vemos casos bem-sucedidos no Brasil e no Chile de spin-offs que se tornaram empresas financeiramente independentes, gerando empregos locais, movimentando a economia regional e aumentando a segurança das comunidades.
Quais são as principais barreiras que o setor precisa superar hoje para ampliar a escala dessas soluções circulares?
Para dar o mesmo peso aos nossos desafios, precisamos reconhecer que nenhuma das principais variáveis está 100% resolvida. Enfrentamos quatro grandes gargalos:
- Regulatório: A maioria das jurisdições ainda possui estruturas incipientes para regulamentar a reutilização de materiais secundários.
- Mercado: Os mercados para produtos secundários ainda estão em desenvolvimento e exigem maior integração com as cadeias de suprimentos.
- Tecnológico: Extrair valor de fluxos complexos exige inovação contínua, uma vez que a composição dos rejeitos varia entre minas e até mesmo dentro da mesma operação.
- Modelo de negócio e avaliação financeira: Projetos circulares muitas vezes não se enquadram na avaliação tradicional de Valor Presente Líquido (VPL), pois geram benefícios de longo prazo, como recuperação de água, redução do uso de terra, menor risco operacional e ganho reputacional, que nem sempre aparecem nas equações financeiras convencionais.
Como o ICMM tem trabalhado para desenvolver novas métricas e superar esses gargalos de avaliação financeira?
Como não existe uma única métrica capaz de capturar a complexidade da circularidade, o ICMM está trabalhando no Tools for Tailings Innovation (TfTI), uma iniciativa com lançamento previsto para o primeiro trimestre de 2027. O TfTI fornecerá orientações práticas, métricas e estruturas de apoio à decisão para ajudar as empresas de mineração a construir casos de negócio robustos para a inovação em rejeitos e acelerar a adoção de soluções que reduzam riscos, criem valor e melhorem os resultados de sustentabilidade.
O objetivo é oferecer a gestores e CFOs uma visão holística que lhes permita atribuir valor a benefícios tangíveis e intangíveis, como eficiência hídrica, intensidade de resíduos, uso de energia renovável e engajamento comunitário, facilitando a alocação de capital em projetos inovadores.
Um dos temas mais debatidos globalmente é a rastreabilidade dos minerais ao longo da cadeia. Por que esse processo é tão complexo?
Quando uma commodity é vendida e transformada em diversos produtos de consumo, rastrear esse material até o fim de sua vida útil torna-se extremamente desafiador. Esse não é um problema exclusivo da mineração; indústrias como a têxtil e a eletrônica enfrentam o mesmo dilema ao tentar implementar mecanismos como passaportes de produtos.
É uma responsabilidade compartilhada que exige um ecossistema tecnológico integrado entre produtores, processadores, fabricantes e recicladores. O foco do ICMM é incentivar a cadeia a trabalhar de forma colaborativa para garantir transparência sem dupla contagem.
Qual é o papel da colaboração pré-competitiva na aceleração dessas tecnologias? O que podemos esperar dos próximos eventos do setor?
Nenhum desafio dessa magnitude pode ser resolvido por uma empresa isolada. O ICMM atua criando um ambiente colaborativo pré-competitivo, reunindo empresas-membro do ICMM, academia, governos e sociedade civil. Por meio de consórcios, uma tecnologia desenvolvida por uma mineradora que não atende a todos os seus ativos pode ser testada e aplicada nas operações de outras empresas.
Um grande exemplo dessa articulação será o segundo Tailings Innovation Summit, realizado em parceria com a Universidade de Queensland, em Brisbane, nos dias 18 e 19 de novembro de 2026. O evento terá uma sessão dedicada às soluções de areia desenvolvidas pela Vale e pela Agera, além de debates com especialistas de outros setores – farmacêutico e de petróleo e gás, por exemplo – para aprender como outras indústrias financiam e ampliam a escala da inovação.
Como você projeta a presença da circularidade na indústria mineral para a próxima década?
Acredito que veremos o surgimento de novos negócios focados em waste to value e uma integração muito mais profunda entre a mineração e setores como o automotivo, de construção, tecnológico e os data centers.
À medida que casos bem-sucedidos demonstrarem retornos financeiros, ambientais e reputacionais, a economia circular deixará de ser um conjunto de iniciativas isoladas para se tornar parte intrínseca do modelo de negócio e da estratégia global das empresas de mineração. A mudança já está em curso.
* Especial para o Radar Mineração.