Às vésperas das eleições presidenciais, o futuro da mineração entra na pauta econômica com uma sinalização da indústria para o próximo governo: o setor precisa de continuidade. Para que o Brasil consiga transformar seu vasto potencial geológico em desenvolvimento socioeconômico e tecnológico, especialistas ouvidos pelo Radar Mineração traçaram as diretrizes que precisam estar entre as prioridades dos candidatos.

A pauta defendida por pesquisadores e instituições da área baseia-se no consenso de que a mineração deve ser tratada como política de Estado, ultrapassando os ciclos de quatro anos de gestão. As recomendações aos presidenciáveis trazem modelos já adotados por nações com forte atuação mineral: regras fiscais e jurídicas estáveis, consolidação institucional, legislação atualizada e previsibilidade para atração de investimentos.

O avanço na cadeia global de valor exige planejamento contínuo. João Augusto Hilário de Souza, diretor da Associação Brasileira de Engenheiros de Mineração (Abremi) e coordenador estadual de Mineração de Minas Gerais, observa que a transição de perfil do país exige foco.

João Augusto Hilário de Souza

A diferença entre repetir o papel histórico de exportador de matéria-prima (minério de ferro, manganês, lítio, quartzo e grafita) e ocupar posição de maior valor na cadeia global, depende de decisões de engenharia, de política pública e de governança que precisam ser tomadas nos próximos anos, e não de circunstâncias externas fora do controle nacional”

João Augusto Hilário de Souza Diretor da Abremi

Um dos gargalos para a expansão do setor é o mapeamento geológico. Enquanto nações desenvolvidas possuem cerca de 95% de seus territórios mapeados, o índice brasileiro situa-se em torno de 28%, dado reforçado pelo estudo  “Destravando o Potencial da mineração do Brasil”, lançado pela Vale em agosto deste ano e elaborado com a consultoria da Accenture Brasil.

Transformar essa base geológica em operações técnica e economicamente viáveis demanda tempo e coordenação institucional.

Claudia Salles

O Brasil é uma potência na geodiversidade. Porém, ainda não se sabe como essa dotação mineral se transformará em recursos que tenham viabilidade econômica. Ainda estamos engatinhando nesse processo”

Claudia Salles Gerente de Sustentabilidade do IBRAM

A estabilidade regulatória é o traço comum entre as nações que lideram a produção global. O Chile, maior produtor mundial de cobre, registrou a extração de 5,3 milhões de toneladas no último ano, segundo o United States Geological Survey (USGS), seguido pelo Peru, com 2,7 milhões. Esses mercados, assim como Austrália (minério de ferro e carvão) e Canadá (potássio), apoiam-se em marcos jurídicos e fiscais perenes para sustentar o fluxo de capital.

Terras raras e a nova fronteira tecnológica

A expansão dos minerais críticos e estratégicos, especialmente as terras raras, reposiciona a mineração no debate econômico global. Sendo o segundo maior detentor de reservas de terras raras do mundo, o Brasil tem o desafio de estruturar essa cadeia produtiva para atrair capital de longo prazo (leia: “O agro é pop, a mineração tem de ser rock”).

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Minerais críticos (Foto: Vale)
A busca por minerais críticos: geólogo analisa terreno em Minaçu, Goiás. Projetos focados em terras raras, como o da Serra Verde, começam a ditar os novos rumos do setor de mineração (Foto: Divulgação/ Serra Verde)
Imagem gerada digitalmente representando amostras de minerais de terras raras em variadas granulometrias
Exploração de terras raras em complexo da Serra Verde (Foto: Divulgação/ Serra Verde)

O professor Fernando Landgraf, especialista em terras raras da Universidade de São Paulo (USP), dimensiona o desafio financeiro. “Se o Brasil quiser avançar nessa área, terá que dispor de, pelo menos, U$ 10 bilhões para os próximos dez anos. Nós temos esse dinheiro?”, questiona. Atualmente, a pesquisa mineral no segmento é movida prioritariamente por capital estrangeiro — com fundos canadenses, australianos e britânicos operando por meio de empresas juniores, que encontram maior facilidade legislativa em seus países de origem para captação de risco. A consolidação do setor interno esbarra em um obstáculo estrutural, segundo o professor: “O Brasil ainda não desenvolveu um mercado financeiro especializado capaz de financiar, em escala, a pesquisa e o desenvolvimento de novos projetos minerais”. (leia: Capital nacional é o “grande ausente” na cadeia brasileira de terras raras)

O estabelecimento da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos introduziu instrumentos para mitigar esse cenário. O programa prevê o Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM), com aporte de R$ 2 bilhões da União, além de uma estimativa de R$ 5 bilhões direcionados ao beneficiamento e transformação desses recursos no país.

Ainda assim, o volume de pesquisa precisa escalar. Conforme pontua Claudia Salles, do Ibram, “a despeito de termos a segunda maior reserva de terras raras do mundo, quando se fala em produção o Brasil está na 12º posição”. “Por que uma coisa é ter o mineral – nesse caso o país é uma potência na geodiversidade. Outra é ter pesquisas suficientes e em escala para que o mineral tenha viabilidade econômica”, afirma Claudia.

Mapa interativo do Rm mostra a geopolítica dos minerais críticos

Ciclos de maturação e o cenário global

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) cataloga hoje 21 depósitos nacionais com terras raras como substância principal, abrangendo projetos em diferentes estágios de prospecção. O ciclo de maturação desses ativos é extenso. “Primeiro será preciso estudar a localidade e verificar suas reservas. Depois, pensar na extração, para que esse projeto vire de fato uma mina. E isso irá requerer condições logísticas na região porque estamos falando de uma indústria com muita tecnologia. Há energia, estradas por perto?”, exemplifica Claudia. Somando essa estrutura ao licenciamento ambiental, ela calcula que “são no mínimo uns 17 anos”.

Esse horizonte de tempo reforça a necessidade de continuidade das diretrizes públicas e do fortalecimento de estruturas como o próprio serviço geológico nacional.

O cenário se desenvolve sob uma dinâmica geopolítica acirrada, liderada pela China. O país asiático domina a cadeia industrial estratégica: em 2024, respondeu por cerca de 60% da mineração mundial de terras raras aplicadas em ímãs permanentes e, no ano anterior, deteve 91% do refino e 94% da fabricação desses ímãs. Essa liderança é resultado de um planejamento integrado iniciado na década de 1950, a partir da exploração do depósito de Bayan Obo, consolidando domínio sobre mineração, separação química e fabricação de produtos de alta tecnologia num intervalo de quatro décadas.

No mercado interno, a produção comercial de terras raras de forma individualizada ocorre na operação da Serra Verde, em Minaçu (GO). O complexo do Barreiro (MG), da CBMM, e a operação de Angico dos Dias (BA), da Galvani, têm terras raras associadas às reservas principais, mas não realizam a separação química para fins comerciais diretos. Há ainda projetos em fase de viabilidade, como Caldeira, Carina e Morro Preto (GO), da CMOC.

Os fundamentos econômicos do setor refletem seu peso na balança comercial. O faturamento da indústria mineral brasileira atingiu quase R$ 300 bilhões no ano passado, respondendo por 55% do saldo positivo da balança comercial do país. Com uma projeção de US$ 76,9 bilhões em investimentos até 2030, o desempenho futuro do setor e sua inserção nas cadeias tecnológicas globais dependem da manutenção de um ambiente de negócios previsível e de políticas estruturais de longo prazo.

 (leia o balanço do Radar Mineração sobre a mineração e os presidenciáveis neste link)

* Especial para o Radar Mineração