Ilustração digital representando a cadeia produtiva de terras raras no Brasil, desde a extração na mina até as plantas de processamento industrial
Ilustração digital representando a cadeia produtiva de terras raras no Brasil, desde a extração na mina até as plantas de processamento industrial

Agenda para o próximo governo: O desafio de estruturar a cadeia de terras raras no Brasil

Especialistas recomendam aos presidenciáveis foco na verticalização do setor, da extração à fabricação de ímãs permanentes, para alavancar a competitividade nacional

Por Rodrigo Conceição Santos, 4 min de leitura

Publicado em 22/09/2026

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O debate econômico que antecede a escolha do próximo presidente do Brasil impõe uma pauta importante ao setor de minerais críticos: a verticalização da cadeia de terras raras. Embora o país detenha a segunda maior reserva global desses elementos, o avanço do setor depende de um planejamento governamental que ultrapasse a extração e alcance a produção de bens de alto valor agregado, como os ímãs permanentes. Essa é a recomendação de especialistas e pesquisadores para compor os planos de governo.

As terras raras representam uma parcela pequena do volume global de minerais, mas estão associadas a aplicações de alto valor agregado. Segundo Fernando Antonio Freitas Lins, pesquisador do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), o Brasil possui 11,4 milhões de toneladas de reservas de terras raras, enquanto a China concentra 44 milhões de toneladas. Os volumes representam, respectivamente, cerca de 15% e 58% das reservas mundiais, segundo os dados apresentados pelo pesquisador.

Lins destacou a diferença entre volume físico e valor econômico dos chamados materiais funcionais, que incluem terras raras e nióbio. 

No caso das terras raras, o volume total citado foi de 390 mil toneladas, associado a um mercado de aproximadamente R$ 3 bilhões. Na etapa seguinte da cadeia, os ímãs de terras raras representam apenas 266 toneladas, mas movimentam cerca de US$ 20 bilhões.

O consumo também mostra essa diferença. Enquanto o consumo mundial de minério de ferro foi estimado em 230 kg por habitante, o consumo de terras raras fica em torno de 50 gramas per capita. No Brasil, o consumo geral de minerais é aproximadamente metade da média mundial.

Segundo Lins, essa relação é característica dos materiais funcionais.

Fernando Lins durante a ABM Week, realizada no início de setembro em São Paulo

Esses de desempenho, como as terras raras e nióbio, são de proporção menor mesmo, mas de alto valor agregado.”

Fernando Lins durante a ABM Week, realizada no início de setembro em São Paulo

China domina porque concentra a produção de ímãs

Klaus Petersen, membro da Associação de Minerais Críticos (AMC) e country manager da Viridis Mining and Minerals, destacou que a principal concentração econômica das terras raras está nos ímãs permanentes. Segundo ele, a China domina até 94% dessa etapa da cadeia.

As terras raras também são utilizadas em diversas outras aplicações, como polimento de vidros, mas os ímãs concentram grande parte do volume e, principalmente, do valor da cadeia.

Esses componentes estão presentes em equipamentos eletrônicos, motores e outras aplicações nas quais é necessário obter alta eficiência magnética em componentes pequenos.

Klaus Petersen

Hoje, por exemplo, só conseguimos colocar um alto-falante nos ouvidos (fones) graças a esses ímãs.”

Klaus Petersen

Ele compara que os ímãs de ferrite (aqueles ímãs simples usados como decoração em portas de geladeira) perdem propriedades com o tempo e com a exposição ao calor. Já os ímãs permanentes têm alta resistência térmica, especialmente quando fabricados com a utilização de elementos de terras raras pesados. E é por isso que são usados como compensadores de calor em baterias e diversos outros componentes eletrônicos.

Segundo Petersen, o protagonismo dos ímãs permanentes elevará ainda mais a sua demanda nos próximos anos, e a projeção é que a oferta atual não acompanhe o crescimento projetado. Por isso a cadeia de mineração e beneficiamento está movimentando a geopolítica global.

Nesse sentido, um componente relevante é o custo. Segundo o especialista da AMC, grande parte dos projetos globais são demasiadamente custosos, com operações que chegam a empatar financeiramente. 

Nesse aspecto, o Brasil, calcula ele, tem outra vantagem competitiva, com as reservas de terras raras em argilas iônicas, onde o custo de beneficiamento pode ser bem menor.

O diferencial das argilas iônicas

Em depósitos de rocha dura, os elementos de terras raras precisam ser seccionados em um processo que envolve britagem, moagem, ácido e calor, “Isso tudo é custo”, resume Petersen.

Quando presentes em argilas iônicas, é como se a natureza fizesse parte importante desse beneficiamento. Ou seja: o custo do processamento industrial tende a ser menor.

Os íons de terras raras ficam adsorvidos à argila nesses casos e Petersen confirma que isso permite um processo de extração mais simples, sem a necessidade das mesmas etapas de fogo, britagem, moagem, ácido e calor utilizadas em depósitos de rocha dura.

O resultado é uma estrutura de custos potencialmente mais competitiva. Além disso, o processo industrial associado a esse tipo de depósito tende a ter menor impacto operacional.

Depósito de argila iônica no Brasil

A Viridis Mining and Minerals, da qual Petersen é líder, desenvolve na região de Poços de Caldas (MG) um projeto de terras raras baseado em argila iônica. Segundo ele, a produção está prevista para começar em 2028 e o projeto estaria classificado entre os dois melhores de terras raras do mundo, quando considerado o potencial de custos operacionais.

Leia também: Viridis recebe financiamento de R$ 77,5 mi para terras raras

A vantagem da Viridis estaria justamente no tipo de depósito. A empresa pretende produzir também elementos pesados de terras raras, considerados relevantes para aplicações magnéticas de maior desempenho (especialmente nos ímãs permanentes).

Profissional da Viridis Mining & Minerals realiza análise de amostra de solo contendo minerais de terras raras em peneira de laboratório
Profissional da Viridis Mining & Minerals realiza análise de amostra de solo contendo minerais de terras raras em peneira de laboratório (Foto: Divulgação)

Para Petersen, esse tipo de empreendimento coloca o Brasil em uma posição favorável diante da busca global por novas fontes de terras raras, desde que haja um bom ambiente de negócios e regulatório.

Previsibilidade regulatória

Para ampliar os investimentos, Petersen aponta a necessidade de melhorar a previsibilidade para os investidores, especialmente nas etapas de beneficiamento e produção industrial.

Segundo ele, há apenas cinco fábricas de ímã permanente fora da China e “o Brasil precisa criar a sua própria, ou ficará refém desse Oligopólio”.

O executivo conclui que, mais do que um desafio, esse cenário é uma oportunidade para o Brasil estruturar a construção de uma cadeia que avance da extração e separação das terras raras para o processamento dos óxidos, produção de metais e, principalmente, fabricação de ímãs.