- A indústria mineral brasileira emite 12,77 milhões de toneladas de CO₂e anualmente, com 59% proveniente da queima de diesel, representando 0,55% das emissões nacionais totais de gases de efeito estufa.
- Estudos da Coalizão Minerais Essenciais indicam que o setor pode reduzir emissões em até 90% até 2050 mediante eletrificação de frotas, expansão de energias renováveis, eficiência energética e recuperação de áreas degradadas.
- A descarbonização da mineração tornou-se imperativa competitiva global, pois minerais críticos são essenciais para tecnologias de energia limpa, exigindo sincronização com compromissos climáticos internacionais e políticas públicas de precificação de carbono.
Com operações intensivas em energia e combustíveis fósseis, a indústria mineral enfrenta um duplo desafio: mitigar suas próprias emissões de dióxido de carbono (CO₂) e atender à crescente demanda por minerais críticos que viabilizam a transição energética global. O movimento ultrapassa a agenda ambiental e se conecta à eficiência operacional, às expectativas dos investidores e aos compromissos climáticos assumidos por países e empresas. Cada vez mais, mineradoras anunciam metas de carbono neutro e planos robustos para reduzir suas pegadas de carbono.
No Brasil, o setor mineral respondeu por cerca de 0,55% das emissões totais de gases de efeito estufa (GEE), com 12,77 milhões de toneladas de CO₂e, um volume modesto em comparação com outros setores industriais, mas com grande potencial de melhoria. O dado foi apresentado no Inventário de Emissões GEE do Setor Mineral, divulgado em 2025 pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). A maior parte das emissões do setor (59%) provém da queima de combustíveis fósseis, especialmente o óleo diesel. As atividades de mudança do uso do solo são responsáveis por uma fatia menor (14%). O CO₂ é o gás mais emitido, representando 85% do total.
Potencial de redução: cenários de descarbonização até 2050
Estudos promovidos pela iniciativa Coalizão Minerais Essenciais, liderada pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), a Vale e o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), mostram que o setor mineral brasileiro pode reduzir suas emissões em até 90% até 2050.

Essa projeção considera não apenas a mitigação direta das emissões operacionais, mas também a produção de insumos de baixo carbono e a contribuição para as cadeias globais de valor, como a do aço.
De acordo com o estudo, há cinco pilares identificados como essenciais para viabilizar esse cenário até 2050. São eles:
- Eficiência energética em processos e operações;
- Uso de biocombustíveis em substituição ao diesel;
- Expansão de eletricidade de fontes renováveis;
- Eletrificação de frotas e maquinário pesado;
- Recuperação de áreas degradadas para compensar emissões residuais.
Para Gustavo Pimenta, presidente da Vale, o engajamento do setor privado é decisivo para o avanço da agenda climática. Em entrevista, ele destacou que a descarbonização é um dos eixos centrais da estratégia da empresa, especialmente em um contexto de crescente relevância geopolítica dos minerais da transição energética.
O setor mineral no cenário da transição energética global
Embora represente uma parcela pequena das emissões nacionais de gases de efeito estufa, a necessidade de descarbonização no setor deve estar cada vez mais sincronizada com os compromissos do Acordo de Paris. Organizações internacionais e coalizões do setor, incluindo a recém-criada Associação de Minerais Críticos (AMC) no Brasil, enfatizam que minerais críticos são essenciais para tecnologias de energia limpa, como baterias para veículos elétricos, energia solar e eólica e sistemas de armazenamento de energia.
A alta demanda criou um ambiente no qual a redução de emissões na mineração é tanto uma necessidade climática quanto um diferencial competitivo no mercado internacional.
Neste cenário, grandes mineradoras e iniciativas setoriais já implementam ou testam tecnologias de ponta para reduzir emissões operacionais. Segundo a Reuters, na Austrália, grandes operações de mineração já testam a eletrificação de frotas e equipamentos, complementando a tentativa de reduzir as emissões do setor. Caminhões elétricos já estão em testes em áreas de mineração, assim como a adoção de novas tecnologias de baterias (leia matéria sobre caminhões autônomos e elétricos no Radar Mineração).
De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o hidrogênio verde vem sendo apresentado como alternativa aos combustíveis fósseis em processos industriais e transporte pesado para reduzir emissões de CO₂. Essas iniciativas indicam que a indústria mineral pode atuar como catalisadora da descarbonização, desde que combinadas a políticas públicas, infraestrutura e incentivos econômicos adequados.
No campo das políticas públicas, especialistas defendem que os avanços caminhem em sintonia com o setor mineral. Isso inclui o aperfeiçoamento de mecanismos de precificação de carbono e de incentivos fiscais voltados a operações de menor intensidade de emissão, além da definição de marcos regulatórios mais claros e previsíveis. Também são apontados como essenciais os investimentos em infraestrutura de energia renovável e logística sustentável, bem como a ampliação do acesso a financiamento verde e a instrumentos financeiros que valorizem produtos minerais com menor pegada de carbono.
Compromissos do IBRAM e a transição climática
Durante a COP30, realizada em novembro de 2025 no Brasil, o Ibram apresentou um conjunto de cinco compromissos setoriais que conectam metas ambientais e sociais a indicadores verificáveis, com foco em energia, natureza positiva, água, adaptação e descarbonização. A proposta posiciona a mineração como parte da solução climática, ao mesmo tempo em que oferece previsibilidade para investimentos e políticas públicas, em convergência com os debates da COP30 sobre transição energética, resiliência territorial e fortalecimento das cadeias de valor de baixo carbono.

Construídos em diálogo com empresas associadas e lideranças do setor, os compromissos apresentados pelo Ibram contam com linhas de base, métricas e metas até 2030, com monitoramento público e transparência nos resultados. Entre os destaques estão a ampliação da participação de fontes renováveis na matriz energética do setor mineral, o ganho líquido de biodiversidade, a redução do uso específico de água nova por tonelada de ROM (Run-of-mine, em português “minério bruto”) e o fomento à elaboração de planos municipais de adaptação climática em territórios mineradores.
Na frente de descarbonização, o Instituto estabeleceu padrões de governança e trajetórias indicativas de redução das emissões diretas do setor, com foco em eletrificação de operações, substituição de combustíveis fósseis, contratação de energia renovável, eficiência operacional e soluções baseadas na natureza. Segundo o Ibram, são ações que contemplam o plano de mitigação e adaptação do setor, reforçando o compromisso da mineração brasileira com o país, com o planeta e com as próximas gerações, alinhando o setor aos ODS e às prioridades climáticas globais.