A Groenlândia entrou recentemente no radar de muitos governos – vide o interesse expresso do presidente estadunidense Donald Trump -, empresas e investidores por causa das terras raras, mas o território dinamarquês abriga um conjunto muito mais amplo de riquezas minerais. Além desses elementos estratégicos, a maior ilha do planeta concentra hidrocarbonetos, pedras preciosas e metais industriais em escala relevante. Ainda assim, como ressalta um artigo do geólogo Jonathan Paul, da Universidade de Londres, não basta cavar para que a riqueza jorre do solo: gelo, custos, logística e viabilidade econômica tornam a exploração um desafio de longo prazo.
Segundo o pesquisador, além dos elementos de terras raras, a Groenlândia abriga reservas expressivas de petróleo e gás, ocorrências de diamantes, rubis, grafite e metais industriais como cobre, ferro, chumbo e zinco. Parte significativa desse potencial, no entanto, permanece sob quilômetros de gelo, o que amplia as incertezas técnicas, ambientais e econômicas em torno de qualquer projeto de mineração em larga escala.
Vulcanismo, riftes e montanhas

A diversidade mineral da Groenlândia é resultado de uma evolução geológica rara. A ilha concentra alguns dos afloramentos rochosos mais antigos da Terra e passou por todos os principais processos responsáveis pela formação de recursos naturais: episódios prolongados de formação de montanhas, fases de rifteamento da crosta e intensa atividade vulcânica.
Durante os ciclos de compressão tectônica, fraturas na crosta favoreceram a deposição de ouro, gemas e grafite. Já os episódios de rifteamento, incluindo a abertura do oceano Atlântico, há pouco mais de 200 milhões de anos, criaram bacias sedimentares com potencial para hidrocarbonetos, comparáveis às da plataforma continental da Noruega.
O vulcanismo, embora menos ativo do que o da Islândia, também foi decisivo. Muitos dos elementos de terras raras identificados na Groenlândia estão associados a rochas ígneas e sistemas hidrotermais formados em torno de grandes intrusões magmáticas. Entre eles estão neodímio e disprósio, considerados hoje os mais estratégicos e difíceis de obter, por sua aplicação em motores elétricos, turbinas eólicas e ímãs de alto desempenho.
Apesar do potencial, apenas cerca de 20% da superfície da Groenlândia está livre de gelo, o que sugere que grandes volumes de recursos ainda não foram mapeados. Avanços tecnológicos, como o uso de radar de penetração no solo, já permitem visualizar a topografia do embasamento rochoso sob até dois quilômetros de gelo, mas o próprio autor do artigo citado ressalta que a prospecção nessas condições é lenta, cara e tecnicamente complexa.
O texto aponta ainda um dilema central: o aquecimento global, que acelera o derretimento da calota e amplia o acesso a áreas antes inacessíveis, é o mesmo fenômeno que agrava os danos ambientais à exploração desses recursos, muitos deles essenciais à própria transição energética.
Potencial e desafios técnicos e econômicos
Outros geólogos trazem base científica aos debates, ao colocar o potencial da Groenlândia em perspectiva. Adam Simon, professor da Universidade de Michigan, afirmou à BBC que a Groenlândia poderia conter até 25% de todos os recursos de elementos de terras raras do mundo. A estimativa, porém, vem acompanhada de cautela.
Segundo Simon, é altamente improvável que haja produção comercial consistente na Groenlândia em menos de dez anos, diante da falta de infraestrutura, dos custos elevados e dos desafios logísticos em uma região remota e coberta por gelo.
Um relatório do Geological Survey of Denmark and Greenland citado pela BBC estima que os 400 mil km² atualmente sem gelo concentram depósitos moderados ou altos de 38 minerais críticos listados pela Comissão Europeia.
O geólogo brasileiro Marcelo Carvalho, vice-presidente do Conselho da Associação de Minerais Críticos, pondera que o conhecimento geológico da região ainda é limitado. “Por ser um território coberto por gelo na maior parte do ano, o conhecimento geológico ainda é precário”, afirmou. Mesmo onde há indícios mais consistentes, Carvalho observa que “essas ocorrências não configuram depósitos desenvolvidos nem com economicidade comprovada”, citando entraves ligados a preços de mercado, clima, localização e infraestrutura.
Entre promessas geológicas de escala global e restrições práticas severas, a Groenlândia surge menos como solução imediata para a demanda por minerais críticos e mais como uma fronteira estratégica de longo prazo, onde ciência, clima, economia e geopolítica precisam ser analisados em conjunto.
Dúvidas mais comuns
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A Groenlândia concentra uma diversidade notável de recursos minerais, incluindo terras raras (neodímio e disprósio), hidrocarbonetos (petróleo e gás natural), diamantes, rubis, grafite e metais industriais como cobre, ferro, chumbo e zinco. Além disso, há prospecção de urânio, alumínio, níquel, platina, tungstênio e titânio. Essa riqueza mineral é resultado de uma evolução geológica única, com episódios prolongados de formação de montanhas, rifteamento da crosta e intensa atividade vulcânica.
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A exploração mineral na Groenlândia enfrenta obstáculos significativos: apenas cerca de 20% da superfície está livre de gelo, com grandes volumes de recursos ainda sob quilômetros de gelo; a prospecção em tais condições é lenta, cara e tecnicamente complexa; há falta de infraestrutura adequada; os custos operacionais são elevados; e a localização remota cria desafios logísticos severos. Além disso, o conhecimento geológico da região ainda é limitado devido à cobertura de gelo permanente.
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O Serviço Geológico dos EUA estima que a costa nordeste da Groenlândia contém cerca de 31 bilhões de barris de petróleo equivalente em hidrocarbonetos, volume semelhante ao total das reservas comprovadas de petróleo bruto dos Estados Unidos. Essas reservas foram formadas durante episódios de rifteamento da crosta, incluindo a abertura do oceano Atlântico há pouco mais de 200 milhões de anos, criando bacias sedimentares comparáveis às da plataforma continental da Noruega.
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Segundo Adam Simon, professor da Universidade de Michigan, a Groenlândia poderia conter até 25% de todos os recursos de elementos de terras raras do mundo. Esses elementos, particularmente neodímio e disprósio, são estratégicos e difíceis de obter, com aplicações em motores elétricos, turbinas eólicas e ímãs de alto desempenho. Muitos desses elementos estão associados a rochas ígneas e sistemas hidrotermais formados em torno de grandes intrusões magmáticas.
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É altamente improvável que haja produção comercial consistente na Groenlândia em menos de dez anos, diante da falta de infraestrutura, dos custos elevados e dos desafios logísticos em uma região remota e coberta por gelo. Mesmo onde há indícios mais consistentes de depósitos minerais, essas ocorrências não configuram depósitos desenvolvidos nem com economicidade comprovada, sendo afetadas por preços de mercado, clima, localização e infraestrutura inadequada.
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O aquecimento global apresenta um dilema central: ao acelerar o derretimento da calota de gelo, amplia o acesso a áreas antes inacessíveis e facilita a prospecção mineral. Porém, esse mesmo fenômeno agrava os danos ambientais à exploração desses recursos, muitos deles essenciais à própria transição energética. Assim, a solução para a demanda por minerais críticos pode estar em conflito direto com a proteção ambiental.
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A Groenlândia possui uma evolução geológica rara, concentrando alguns dos afloramentos rochosos mais antigos da Terra. A ilha passou por todos os principais processos responsáveis pela formação de recursos naturais: ciclos de compressão tectônica que favoreceram a deposição de ouro, gemas e grafite; episódios de rifteamento que criaram bacias sedimentares; e intensa atividade vulcânica que foi decisiva para a formação de elementos de terras raras. Essa combinação única de processos geológicos explica a diversidade mineral da região.
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O conhecimento geológico da Groenlândia ainda é limitado e precário, principalmente porque a região é coberta por gelo na maior parte do ano. Um relatório do Geological Survey of Denmark and Greenland estima que os 400 mil km² atualmente sem gelo concentram depósitos moderados ou altos de 38 minerais críticos listados pela Comissão Europeia. Avanços tecnológicos como radar de penetração no solo permitem visualizar a topografia do embasamento rochoso sob até dois quilômetros de gelo, mas a prospecção nessas condições permanece lenta e cara.