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Painel na conferência ExpoSBRAM 2023 sobre incentivos e mecanismos de financiamento para projetos de mineração no Brasil, com cinco especialistas discutindo o tema.
Da esquerda para a direita: Julio Cesar Nery Ferreira, Flávio Moraes da Mota, Guillaume Legare, Marco Diogo e Mauro Barros (Foto: ALDAIR LIMA FILMS / IBRAM via Flickr)

BNDES e bancos internacionais criam mecanismo de financiamento para destravar nova era da mineração no Brasil

Fundo de R$ 2 bilhões ancorado pelo BNDES e novas linhas de crédito marcam a chegada de capital global ao setor mineral brasileiro

Por Viviane Kulczynski *, 4 min de leitura

Publicado em 31/10/2025

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Um movimento coordenado entre o BNDES, gigantes do setor, a bolsa de valores brasileira (B3) e instituições financeiras internacionais está criando um robusto e diversificado ecossistema de financiamento para a mineração no Brasil. Com foco em destravar o potencial do país em minerais críticos, essenciais para a transição energética, uma série de iniciativas promete preencher um vácuo histórico de capital, especialmente para projetos em estágio inicial, mas sob a condição de um novo patamar de rigor técnico, social e ambiental.

A peça principal desse movimento é a criação de um fundo de investimento com meta de R$ 1 bilhão a R$ 2 bilhões, ancorado pelo BNDES. A gestão ficará a cargo da Ore Investments, gestora com DNA mineiro que se define como “mineradores que viraram gestores”. “Nosso foco é estar onde a ação acontece, na mina”, afirma Mauro Barros, da Ore, explicando que a estratégia é atuar em fases de maior risco, como a pesquisa mineral, buscando participações minoritárias relevantes (15% a 40%) e atuando ativamente na governança para destravar valor.

Mauro Barros de terno azul com fone de ouvido, sentado em evento ou entrevista
Mauro Barros, Sócio & CEO na Ore Investments Fundo de Investimentos em Mineração (Foto: ALDAIR LIMA FILMS / IBRAM via Flickr)

O otimismo em torno do fundo é sustentado por números que revelam um gigantesco potencial represado. Flávio da Mota, chefe do Departamento de Indústrias de Bases Extrativas do BNDES, compartilhou dados de uma chamada pública recente com a Finep para projetos de minerais estratégicos. A iniciativa, que esperava R$ 5 bilhões em propostas, recebeu 124 projetos que somaram impressionantes R$ 86 bilhões em investimentos. “Foi extremamente surpreendente, furando qualquer projeção mais otimista”, declarou Mota.

Flávio Moraes da Mota participando de evento, usando terno azul e headset, falando ao microfone em uma conferência.
Flávio Moraes da Mota, Chefe do Departamento de Indústrias de Base e Extrativa do BNDES (Foto: ALDAIR LIMA FILMS / IBRAM via Flickr)

Portfólio diversificado: de juros baixos a fundos estratégicos

Além do novo fundo, o BNDES detalhou seu portfólio de apoio ao setor. Para projetos com foco em inovação, o banco oferece uma linha de crédito com taxas de juros que, segundo Mota, ficam “em torno de 4,5% a 5% ao ano”.

Para a agenda de sustentabilidade e minerais críticos, o principal instrumento é o Fundo Clima, que já captou cerca de R$ 21 bilhões via “Green Bonds”. O custo final do financiamento para as empresas, de acordo com o executivo, “orbita entre 8,5% e 9% ao ano”. “Aqui, sem dúvida, enquadram-se os projetos dos minerais críticos”, afirmou Mota.

As portas para o capital global

Enquanto o fomento nacional se estrutura, as portas do capital internacional se abrem, mas com exigências claras. Guillaume Légaré, representante da Bolsa de Valores de Toronto (TSX) no Brasil, apresentou a plataforma canadense como a “principal bolsa de mineração do mundo”, com um ecossistema único para financiar empresas pré-operacionais (juniors). O setor na TSX atingiu recentemente US$ 1 trilhão em valor de mercado e, apenas em 2024, levantou US$ 10 bilhões.

Homem de terno com expressão séria, usando fones de ouvido, em um estúdio de rádio ou televisão, com fundo azul com logos 'Europeu' e outras palavras.
Guillaume Legare, Head, South América, Toronto Stock Exchange & TSX Venture Exchange (Foto: ALDAIR LIMA FILMS / IBRAM via Flickr)

Para acessar esse capital, Légaré destaca três pilares: a qualidade do ativo (comprovada por padrões técnicos internacionais), uma equipe de gestão competente e, crucial, a sustentabilidade (ESG), que “já faz parte do discurso” e é premissa para o investidor.

Do outro lado do Atlântico, o European Investment Bank (EIB) também mira o Brasil através da estratégia “Global Gateway”. Marco Diogo, representante do banco de investimentos europeu, revelou um pipeline de 3 bilhões de euros para projetos de mineração. O financiamento, no entanto, exige um “ângulo europeu”: o projeto deve envolver acionistas, tecnologia ou compradores do continente.

Marco Diogo adulto participando de um painel de discussão em um evento de investimentos, usando blazer e notebook, com fundo azul e painel digital.
Marco Diogo, European Investment Bank, Global Representative to Brazil (Foto: ALDAIR LIMA FILMS / IBRAM via Flickr)

O desafio interno e a condição ESG

Apesar do cenário promissor, o acesso a esse capital está condicionado a um novo nível de profissionalismo. O setor, em parceria com o BNDES, busca uma aproximação com a B3 para fortalecer o mercado de capitais local, já que o número de mineradoras listadas na bolsa brasileira “não conta nos dedos das duas mãos”.

Mauro Barros, da Ore Investments, alerta que, por mais rentável que um projeto pareça, “não existem atalhos em relação ao licenciamento ambiental e socioambiental”. Ele enfatiza que o respeito a ritos como audiências públicas e a correta elaboração de estudos de impacto são inegociáveis para investidores institucionais. A mensagem é clara: o capital para a nova era da mineração brasileira está disponível, mas apenas para aqueles dispostos a jogar segundo as mais altas regras de governança e sustentabilidade.

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

* Especial para o Radar Mineração