- Brasil condiciona acordos de minerais críticos com a Alemanha à industrialização doméstica e agregação de valor, rejeitando o modelo histórico de exportação de commodities sem processamento local.
- O governo brasileiro vincula parcerias internacionais ao desenvolvimento tecnológico interno, incluindo data centers e cadeias produtivas resilientes, para manter soberania sobre recursos naturais estratégicos.
- A cooperação bilateral ampliada abrange defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas e biocombustíveis, posicionando o Brasil como fornecedor de matérias-primas e tecnologia em uma estratégia de diversificação geopolítica alemã.
Brasil e Alemanha oficializaram nesta semana um acordo de cooperação em minerais críticos e terras raras que vincula o acesso aos recursos naturais brasileiros ao desenvolvimento tecnológico e à industrialização doméstica. O entendimento foi formalizado nesta semana, durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Feira Industrial de Hannover, na Alemanha.
O movimento ocorre em paralelo à intensificação de acordos em áreas como inteligência artificial, defesa, clima e tecnologias emergentes, consolidando uma estratégia mais ampla de cooperação industrial. A diretriz central do governo brasileiro nas negociações é evitar a repetição de um padrão histórico de exportação de commodities sem processamento local.
O presidente Lula reforçou que o país pretende atrelar parcerias internacionais à internalização de etapas industriais e ao avanço tecnológico. “Não aceitaremos modelos que reduzam nosso país à extração de recursos simplesmente para satisfazer a demanda estrangeira”, afirmou o presidente em entrevista à ZDF.
A mesma linha foi reforçada pelo secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços do MDIC, Uallace Moreira. “Para além de explorar os minerais, queremos agregar valor produtivo, desenvolvendo a indústria nacional e gerando emprego e renda”, declarou durante o painel Parceria estratégica Brasil–União Europeia em minerais críticos e desenvolvimento sustentável, realizado ontem no evento na Alemanha.
Além dos minerais críticos, o tema da soberania foi estendido a outras frentes tecnológicas. “Não queremos mais depender de empresas estrangeiras que se enriquecem às custas dos dados de nossos cidadãos, sem qualquer garantia de privacidade e segurança”, comentou Lula em entrevista à mídia alemã, ao se referir a um acordo para cooperação em data centers.
Parceria estratégica e agenda ampliada
A declaração conjunta das consultas intergovernamentais Brasil-Alemanha, realizada em Hannover, explicita que a cooperação bilateral vai além dos minerais críticos e se ancora em uma agenda ampla de transformação econômica e geopolítica. O documento reafirma a parceria estratégica entre os dois países com base em valores como democracia, multilateralismo e comércio internacional baseado em regras, além de destacar o compromisso conjunto com temas como digitalização, inovação, clima e desenvolvimento sustentável .
O texto também aponta o acordo Mercosul–União Europeia como um marco para aprofundar as relações econômicas, com início de aplicação provisória previsto para maio de 2026, e menciona a intenção de avançar em um acordo de dupla tributação para estimular investimentos. No campo industrial, há ênfase na construção de cadeias de valor mais resilientes e integradas, especialmente em minerais críticos.
As consultas resultaram, ainda, em um conjunto amplo de iniciativas, incluindo cooperação em defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, mobilidade sustentável, pesquisa climática e economia circular, além de programas de apoio a startups e intercâmbio de especialistas. Também foram anunciados instrumentos financeiros e projetos conjuntos em áreas como energia limpa e preservação ambiental, incluindo o fortalecimento do Fundo Clima e iniciativas como a Tropical Forest Forever Facility .
Do lado alemão, a aproximação com o Brasil foi apresentada como parte de uma estratégia mais ampla de diversificação geopolítica. O chanceler Friedrich Merz afirmou que pretende dobrar o volume de comércio bilateral “nos próximos anos” e ressaltou a importância do Brasil como fornecedor de matérias-primas para cadeias produtivas mais resilientes.
Sem mencionar diretamente o atual presidente dos EUA, Merz sugeriu que o aprofundamento dos laços com o Brasil faz parte de uma estratégia alemã mais ampla de buscar relações econômicas mais estreitas com as chamadas “potências médias” ao redor do mundo, em um esforço para reduzir a dependência dos EUA e da China.
Na área de minerais, a Alemanha não tenta competir em volume de mineração, mas com tecnologia de processamento de alto valor agregado. Por exemplo, enquanto depende fortemente da produção mineral de parceiros como Brasil e Austrália, domina a tecnologia de produção de ímãs de alta potência, com ótimo aproveitamento dos insumos de terras raras.
No plano comercial, o avanço também se conecta ao acordo entre Mercosul e União Europeia. De acordo com estimativa da CNI, o comércio bilateral pode saltar de US$ 20 bilhões para US$ 40 bilhões nos próximos cinco anos com a implementação do tratado.
Em outra entrevista a uma emissora de TV alemã, Lula também contextualizou a parceria com a Alemanha dentro de uma política mais ampla de “portas abertas” a diferentes parceiros internacionais, sem alinhamentos exclusivos. Ao tratar da exploração de minerais críticos, reforçou que o país pretende manter controle soberano sobre seus recursos naturais e condicionar a cooperação externa à geração de valor interno. “A Alemanha é um parceiro privilegiado, mas ninguém terá vantagens unilaterais”, esclareceu.
O presidente indicou que o Brasil busca ampliar acordos sem impor restrições geopolíticas a priori. “Não impomos veto a ninguém, nem aos Estados Unidos, nem à China, nem à Rússia, nem à Índia, nem à Alemanha”, disse. Ao mesmo tempo, destacou que a abertura a investimentos estrangeiros está condicionada à realização de etapas produtivas no país e à transformação industrial dos minerais estratégicos.
Defesa dos biocombustíveis e combate à desinformação
Um dos pontos mais sensíveis da agenda bilateral envolve os biocombustíveis. Lula dedicou parte significativa de seus discursos a contestar o que classificou como narrativas equivocadas sobre o impacto ambiental da produção brasileira.
O presidente brasileiro alertou a Comissão Europeia contra a sanção do cultivo e uso de plantas para biocombustíveis no Brasil. Ele rejeitou as acusações de que o cultivo de plantas para biocombustíveis restringe a produção de alimentos ou leva a um maior desmatamento da floresta tropical. “Ninguém seria louco de substituir a segurança alimentar pelo aumento da produção de biocombustíveis. Ninguém come diesel ou gasolina; as pessoas comem comida”, disse Lula.
O presidente também associou o tema à agenda de descarbonização europeia, destacando que o transporte é hoje um dos principais gargalos do bloco e que restrições aos biocombustíveis podem limitar alternativas de energia limpa em um momento crítico. “Estão na mesa propostas que ignoram práticas de sustentabilidade no uso do solo brasileiro”, apontou. Ele ainda criticou mecanismos de cálculo de carbono que desconsideram o perfil energético do país, baseado em fontes renováveis.
“Essas iniciativas podem dificultar a oferta de energia limpa para os europeus em momento crítico”, disse. “A elevação de padrões ambientais é necessária, mas não é correto adotar critérios que ignorem outra realidade e prejudiquem os produtores brasileiro”, disse.
O discurso reforça a estratégia brasileira de vincular a agenda de biocombustíveis não apenas à transição energética, mas também à inserção competitiva do país em cadeias globais de baixo carbono, em paralelo ao esforço de agregação de valor observado no setor de minerais críticos.