Um painel composto por seis palestrantes está no palco do evento Fórum de Líderes, com uma tela grande atrás deles exibindo o título do evento. A discussão gira em torno de temas como capital humano, enquanto o público assiste atentamente das fileiras de assentos em um auditório com iluminação suave.
Da esquerda para a direita: Rodrigo Vilela, Ricardo Lima, Maurício Metz, Marcelo Chara, Ricardo Henriques e Vânia Lúcia de Lima Andrade (Foto: ABM Brasil)

Capital humano é o principal déficit a ser sanado na mineração e siderurgia, defendem especialistas

Líderes da Usiminas, Samarco, Fundação Dom Cabral, Gerdau e CBMM afirmam que o Brasil só conseguirá avançar na indústria se reduzir a lacuna de profissionais qualificados

Por Rodrigo Conceição Santos, 5 min de leitura

Publicado em 09/09/2026

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Apenas 16% dos jovens brasileiros em idade universitária procuram cursos nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). No mundo, a média é de 23%. E, mais grave: entre os que concluem essas formações, a média brasileira é de 38%, contra 58% de média entre os demais países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Os dados foram apresentados no final da tarde de ontem pelo professor Ricardo Henriques, da Fundação Dom Cabral (FDC), durante a ABM Week, em São Paulo, e mostram que há um caminho extenso para que o Brasil volte a atrair jovens para a engenharia. 

“Só com engenharia conseguiremos transformar as nossas vantagens comparativas em vantagens competitivas” — Ricardo Henriques

Como vantagem comparativa, ele listou o alto índice de energia renovável (acima de 90%) e a variedade mineral do país, considerando que só 28% do subsolo foi mapeado até o momento. Ou seja: a variedade pode ser maior e melhor. 

“O Brasil tem uma riqueza mineral diversificada, matriz energética limpa, posição geopolítica favorável e potencial de exploração do território [mas faltam profissionais qualificados]”

Estruturas e formação profissional

Henriques sugeriu cinco frentes para ampliar o capital humano do país. A primeira é superar estruturas hierárquicas e rígidas nas empresas, para as aproximar das expectativas dos profissionais atuais.

Também estão entre os pontos citados a definição de propósito, o alinhamento de valores, o engajamento individual e coletivo e a explicação das escolhas das empresas em relação à inovação e à tecnologia.

Ricardo Henriques, professor da Fundação Dom Cabral
Ricardo Henriques, professor da Fundação Dom Cabral (Foto: ABM Brasil)

O professor defendeu ainda políticas afirmativas, para ampliar a diversidade dos profissionais, e a realização de processos de reconhecimento, mobilidade interna e desenvolvimento de carreira, com meios de sinalização clara desde a entrada do funcionário na empresa.

Outro ponto é melhorar a percepção que a sociedade tem da mineração e da siderurgia. Para Henriques, o setor precisa trabalhar para superar associações negativas relacionadas a desastres e impactos ambientais, e uma forma de fazer isso é apresentando os investimentos realizados em inovação, sustentabilidade, desenvolvimento econômico e tecnologia.

A formação também precisa acompanhar as mudanças no trabalho, pois a inteligência artificial, automação e digitalização estão alterando o perfil profissional necessário para a indústria. Ao mesmo tempo, há necessidade de atrair e reter engenheiros e de formar profissionais com competências técnicas, socioemocionais e multidisciplinares.

Henriques citou a necessidade de ampliar competências e requalificar (upskilling e reskilling) os profissionais Nos tempos atuais, isso envolve a promoção de treinamentos tecnológicos para os seniores, especialmente em relação ao uso de IA, o a curadoria dos conhecimentos dos seniores para os mais jovens.

“E tudo isso deve ser proporcionado pela aproximação entre universidades, indústria e sociedade”, disse.

“Formar capital humano no ritmo certo é condição para o desenvolvimento nacional. Isto envolve capacitar na velocidade e nas qualificações exigidas pelos objetivos do país, alinhados às estratégias das empresas e oportunidades do mercado global”, completou.

Ele afirmou ainda que não há como avançar na indústria sem capital humano de altíssima qualidade. “Esse profissional deve ser técnico e humano, empático e produtivo. Talvez, o capital humano seja a variável-chave para a potência brasileira aproveitar a janela de oportunidades de hoje”, disse.

Propósito e autonomia

O vice-presidente da Gerdau, Maurício Metz, relacionou a formação e a retenção de profissionais ao ambiente oferecido pelas empresas.

Com base em conceitos do especialista em liderança Simon Sinek, ele destacou propósito, autonomia e dosagem de desafios profissionais como fatores relacionados ao engajamento das pessoas.

Maurício Metz. vice-presidente da Gerdau
Maurício Metz. vice-presidente da Gerdau (Foto: ABM Brasil)

Segundo o executivo, o consumo de aço per capita é um indicador do baixo desenvolvimento nacional. Pelas contas da Gerdau, o país consome cerca de 130 kg de aço por pessoa, enquanto a média dos países desenvolvidos é de aproximadamente 500 kg. Na China, o consumo deve chegar a 1 mil kg por habitante neste ano.

“Então, o potencial [de desenvolvimento] é enorme, desde que consigamos dar às pessoas os recursos para se desenvolverem”, afirmou.

A autonomia é outro ponto citado por Metz. Segundo ele, estruturas menos hierárquicas permitem que os profissionais tenham espaço para atuar e se sintam à vontade para contribuir.

Quanto aos desafios profissionais, Metz avaliou que os trabalhadores precisam ser colocados diante de problemas complexos e compreenderem o impacto de suas decisões no processo produtivo.

“Ser desafiado a resolver problemas complexos e saber o impacto que está sendo gerado num processo produtivo é muito importante.” — Maurício Metz

De volta às universidades

Na CBMM, o trabalho para aproximar os jovens da empresa começa nas universidades.

O CEO da companhia, Ricardo Fonseca de Mendonça Lima, contou que recebeu, quando cursava o terceiro ano de Engenharia Metalúrgica da Poli-USP, uma bolsa de incentivo da Fapesp com apoio da CBMM. Isso, lembrou ele, mostrava que a empresa tinha proximidade com as universidades na época.

Ricardo Fonseca de Mendonça Lima, CEO da CBMM
Ricardo Fonseca de Mendonça Lima, CEO da CBMM (Foto: ABM Brasil)

Por isso, a CBMM estruturou um programa no qual ele e outros executivos passaram a visitar suas escolas de origem, com o intuito de contar sobre suas carreiras e apresentar as iniciativas de ciência, tecnologia e descarbonização que desenvolvem.

“Depois dessas ações, houve aumento do interesse de estudantes pela empresa. Eu mesmo fui à Poli e vi que no ano seguinte tivemos um interesse muito maior dos alunos de lá, simplesmente porque mostrei ações de tecnologia, de descarbonização.”

Retomada da Samarco começou com pessoas

Rodrigo Alvarenga Vilela, CEO da Samarco
Rodrigo Alvarenga Vilela, CEO da Samarco (Foto: ABM Brasil)

A Samarco, que passou pela paralisação de suas atividades por cinco anos após o rompimento da barragem do Fundão, em 2015, perdeu parte relevante do capital humano nesse período, como lembrou o CEO Rodrigo Alvarenga Vilela. Quando houve a decisão de retomada, em 2020, a empresa decidiu retomar as operações com as pessoas que permaneceram nela. 

“O processo incluiu educação, autoconhecimento e encontramos o propósito da retomada, da confiança, de quem superou seus desafios e voltou a gerar valor para a sociedade”, afirmou Vilela.

Hoje, segundo o executivo, o desafio é levar esse propósito para a nova geração de profissionais da empresa.

“Temos uma escassez enorme na qualidade da mão de obra e isso nos preocupa especialmente muito”, disse.

Decisões de hoje terão efeito nos próximos anos

Marcelo Chara, CEO da Usiminas e presidente do Conselho de Administração da ABM
Marcelo Chara, CEO da Usiminas e presidente do Conselho de Administração da ABM (Foto: ABM Brasil)

Em setores de tecnologia profunda, como mineração e siderurgia, os projetos são de longo prazo e, portanto, intensivos em capital. Isso exige que a qualidade de administração e execução seja de alto nível, o que depende essencialmente de capital humano qualificado.

O raciocínio é de Marcelo Chara, CEO da Usiminas e presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Metais (ABM), segundo o qual, “muitas das decisões tomadas hoje nas empresas do setor serão refletidas daqui a dez anos”.

“Isso requer uma qualidade profissional que só se consegue com pessoas que têm totalmente desenvolvidas suas capacidades de criar, interagir e fazer”, concluiu.