- A indústria de mineração enfrenta transformações impulsionadas por mudanças geopolíticas, pressão por cadeias resilientes e metas de descarbonização, exigindo que empresas adotem operações mais eficientes e sustentáveis.
- Digitalização, inteligência artificial e sistemas ERP modernos emergem como ferramentas centrais para otimizar exploração mineral, operações inteligentes e decisões ágeis no setor.
- Descarbonização, ESG e soluções baseadas na natureza tornaram-se diferenciais estratégicos que geram valor financeiro e competitivo, demandando investimentos entre US$ 360 e US$ 450 bilhões até 2030.
A indústria da mineração passa por transformações impulsionadas por fatores como mudanças geopolíticas, pressão por cadeias de suprimentos mais resilientes e a necessidade crescente de cumprir metas de descarbonização. Nesse contexto, empresas do setor buscam melhorar eficiência, reduzir riscos e adotar modelos de operação mais sustentáveis.
O relatório Tracking the trends 2025, da Deloitte, analisa essas mudanças e apresenta as principais direções que devem orientar o setor nos próximos anos. A partir desse retrato, o estudo destaca dez tendências que devem moldar o futuro da mineração. Confira cada uma delas a seguir.
1. Lideranças preparadas para o futuro do setor
Em um ambiente complexo e incerto, os líderes devem ter sensibilidade e consciência ao liderar uma força de trabalho diversa; gerir produtividade; priorizar saúde mental e desenvolver curiosidade tecnológica, abraçando a inteligência artificial generativa (GenAI). Outros pontos destacados pelo relatório são a capacidade de empoderar e motivar a força de trabalho e a habilidade de se tornar uma liderança transformacional, pronta para atuar em ambientes de grandes mudanças.
2. Ecossistemas de negócios e alianças
A transição energética está impulsionando uma corrida global por minerais críticos. Para gerenciar a volatilidade geopolítica e os riscos da cadeia de suprimentos, as empresas de mineração devem alavancar ecossistemas de negócios para maximizar a criação de valor. Isso inclui a formação de alianças e o aproveitamento de incentivos governamentais. O setor também deve liderar a economia circular para reduzir a dependência de grandes quantidades de minerais virgens.
3. Crescimento e resiliência
A incerteza geopolítica e a participação ativa (e crescente) de investidores forçam as mineradoras a buscarem o equilíbrio de seus portfólios. Essa gestão envolve a avaliação regular de ativos para garantir que estejam alinhados com a estratégia geral da empresa, retendo aqueles que geram vantagem competitiva e alienando ativos não essenciais. Essa abordagem contínua é necessária para a resiliência da empresa e também para a agilidade de suas decisões.
4. Uso de IA na exploração mineral
Embora o investimento em exploração mineral permaneça elevado, a taxa de descoberta de depósitos economicamente viáveis diminuiu significativamente na última década. Os dados geocientíficos pré-competitivos (dados geológicos, geofísicos e geoquímicos públicos) podem ser aproveitados para informar melhor os programas de exploração, gerando economia de tempo e custos. A aplicação de ferramentas avançadas de inteligência artificial (IA) e machine learning (ML) a dados de qualidade pode acelerar novas descobertas e contribuir para o desenvolvimento de estratégias de exploração.
5. Sistemas de ERP vão promover decisões mais ágeis
O estudo mostra que existe uma necessidade urgente de as empresas de mineração e metais substituírem seus sistemas de Planejamento de Recursos Empresariais (ERP) legados por plataformas de próxima geração. Esta mudança é vista não apenas como uma atualização de software, mas como uma oportunidade para a reinvenção do negócio.
6. Uso de dados para operações inteligentes

Operações inteligentes utilizam recursos digitais, como IA, gêmeos digitais e análises preditivas para otimizar processos e gerar ganhos mensuráveis em eficiência, segurança e sustentabilidade. O objetivo é expandir as operações inteligentes para a escala empresarial, convergindo as tecnologias operacionais (OT) e de informação (IT). O uso de gêmeos digitais no setor, por exemplo, otimiza novas minas (greenfield) desde o início, simulando cenários operacionais para reduzir custos e aumentar a segurança.
7. GenAI na força de trabalho
De acordo com o relatório, a adoção da IA Generativa (GenAI) deve focar em como essa tecnologia pode ser usada para atingir metas de produtividade e sustentabilidade. A GenAI pode elevar os resultados de tarefas rotineiras e liberar tempo dos trabalhadores para atividades de maior valor estratégico, ajudando a mitigar a escassez de talentos. Para tanto, é importante desenvolver estratégias de requalificação (reskilling) que preparem a força de trabalho para novas funções, as quais exigirão competências em análise de dados, robótica avançada e pensamento crítico.
Glossário da Mineração
Machine learning
Conjunto de métodos da IA que permite que sistemas aprendam padrões a partir de dados e melhorem seu desempenho ao longo do tempo sem programação explícita. Na mineração, o machine learning é usado para prever falhas em equipamentos, otimizar processos, identificar anomalias e apoiar a tomada de decisão em operações complexas com base em análises preditivas.
Gêmeos digitais
Representações virtuais de processos, ativos ou ambientes reais. Na mineração, permitem simular cenários, antecipar falhas, testar melhorias e acompanhar o desempenho de minas, plantas industriais ou equipamentos em tempo real, aumentando a eficiência e a segurança.
8. Colaboração para o net zero
Embora o foco sejam as metas de descarbonização, os desafios logísticos e de segurança da cadeia de suprimentos são complexos. O ritmo para alcançar o net zero é determinado por quatro fatores: acesso a financiamento (necessário um investimento adicional entre US$ 360 bilhões e US$ 450 bilhões até 2030 para habilitar a descarbonização em toda a cadeia mineral e metalúrgica – da extração ao beneficiamento, infraestrutura e logística), maturidade tecnológica, novos modelos de negócios (como infraestrutura multiusuário e mining-as-a-service) e a formação de talentos capazes de operar essas novas soluções.
9. ESG é diferencial estratégico e gerador de valor

Embora a pressão dos investidores em relação ao ESG (boas práticas ambientais, sociais e de governança) possa ter diminuído ligeiramente, as iniciativas focadas em sustentabilidade permanecem determinantes para a saúde financeira dos empreendimentos. As empresas devem adotar uma abordagem baseada no potencial de geração de valor do ESG, e não apenas em métricas de classificação. O uso da materialidade dupla (considerando o impacto da empresa nas pessoas/planeta e o impacto da sustentabilidade na empresa) é considerada a melhor prática.
10. Soluções baseadas na natureza
Embora o relatório da Deloitte não use exatamente este termo – soluções baseadas na natureza –, o documento destaca que o setor de extração mineral está, atualmente, em um ponto crítico na forma como se relaciona com a natureza, o que significa que as mudanças são necessárias, incluindo a integração de questões como biodiversidade, preservação de recursos, geologia e clima como preponderantes para a operação.
Globalmente, essa mudança vem sendo impulsionada por estruturas como a Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) e o International Council on Mining and Metals (ICMM). Segundo o documento, a transição para práticas nature-positive (positivas para a natureza) não é apenas uma obrigação moral, mas uma oportunidade financeira significativa (com potencial de negócios anual de US$ 10 trilhões até 2030, em três setores, incluindo o extrativo).