Prédio dos filtros prensa na Alunorte
Prédio dos filtros prensa na Alunorte (Crédito: Alunorte)

De rejeito a subprodutos: automação e inteligência de dados ampliam reaproveitamento de alumina

Estratégia combina dados, machine learning e automação em tempo real para reduzir depósitos e transformar resíduos em insumos para construção, siderurgia e agricultura

Por Vanderlei Campos, 6 min de leitura

Publicado em 25/06/2026

Baixar PDF Copiar link

A iniciativa da Hydro Alunorte para reduzir custos operacionais e ambientais tem menos relação com mudanças físicas na planta de Barcarena (PA) e mais com a agregação de inteligência operacional sobre ativos existentes. Em outras palavras, o que era rejeito passou a se chamar resíduo, e esse mindset explica novos usos de alumina em insumos industriais.

Pertencente à Norsk Hydro e à Glencore, a refinaria de alumina da Hydro Alunorte no Pará é a maior planta integrada do mundo no segmento e vem se destacando por adotar um sistema de automação chamado Receita Dinâmica, com o qual elevou o índice de conformidade do resíduo processado de 83% para 96%, reduzindo retrabalho, custos operacionais e a necessidade de expansão de depósitos.

A lógica do projeto foi transformar um sistema antes reativo em uma operação adaptativa, baseada em sensores, controle automático e aprendizado contínuo. Em vez de grandes intervenções mecânicas ou substituição de equipamentos, portanto, a refinaria integrou dados já capturados por filtros prensa a sistemas de controle capazes de ajustar automaticamente parâmetros de operação, conforme as características do material processado.

O ganho operacional se alinha à meta da Hydro Alunorte de reduzir progressivamente a dependência de grandes áreas de disposição de resíduos. “Temos a ambição de não precisar mais de grandes depósitos até 2050. Ou seja, queremos dar um destino sustentável para esse rejeito que geramos no filtro prensa”, afirmou o gerente sênior de operação e manutenção da Alunorte, Leonardo Braga, em entrevista ao Radar Mineração.

Retrato de Leonardo Braga, gerente sênior de operação e manutenção da Alunorte, sorrindo com os braços cruzados, em estúdio com fundo cinza claro.
Leonardo Braga, gerente sênior de operação e manutenção da Alunorte (Foto: Divulgação)

A receita dos resíduos sólidos

A refinaria produz cerca de 6,3 milhões de toneladas de alumina por ano e consome aproximadamente 15 milhões de toneladas de bauxita no mesmo período. Como resultado do processo Bayer — utilizado para separar a alumina da bauxita com uso de soda cáustica e vapor — a operação gera 4,5 milhões de toneladas anuais de resíduos. Isso representa um fluxo diário de cerca de 10 mil a 12 mil toneladas, movimentadas continuamente em uma operação que funciona 24 horas por dia.

Segundo Braga, a companhia evita o termo “rejeito” justamente porque a estratégia passou a considerar esse material como potencial matéria-prima para novos processos industriais. “Chamamos de resíduo e não de rejeito, porque com o resíduo temos a expectativa de utilizar esse material para alguma coisa. Rejeito é quando não serve para mais nada”, define.

A operação dos filtros prensa é central nessa estratégia. Implantada na Alunorte a partir de 2009 como alternativa às barragens convencionais, a tecnologia permite retirar grande parte da umidade do resíduo e transformá-lo em material empilhável, reduzindo drasticamente a área necessária para disposição.

Para explicar o conceito, Braga recorre a uma analogia com castelos de areia na praia. “Quando se está fazendo um castelinho, a areia não pode estar muito molhada e nem muito seca, a ponto de esfacelar. Existe uma faixa ali, logo depois que a maré baixa, em que a areia está na umidade ideal para ser moldada e compactada. O filtro prensa precisa entregar o resíduo nessa mesma faixa”, compara.

Na operação de refino, o principal desafio é que cada amostra da “areia”, seguindo a ilustração do engenheiro, tem características de granulação, permeabilidade e outras variáveis que influem na umidade ideal do “castelinho”, e é isso que precisa ser ajustado nos parâmetros de pressão e filtragem dos equipamentos.

O processo envolve 12 etapas de prensagem, lavagem e secagem. O material entra ainda com umidade elevada e passa por sucessivos ciclos de compressão mecânica, lavagem para recuperação de soda cáustica e secagem com ar comprimido, até atingir a especificação ideal para compactação nos depósitos. A soda recuperada retorna ao processo industrial, reduzindo consumo de matéria-prima importada.

“Somos um dos maiores consumidores de soda da América Latina”, lembra Braga. “O filtro prensa permite recuperar parte dessa soda para o processo”, completa.

Além do reaproveitamento químico, a compactação do material reduz significativamente a ocupação de terrenos. “Como fazemos a compactação e retiramos os espaços vazios, conseguimos colocar o mesmo volume em uma área quatro vezes menor”, dimensiona.

Inovação incremental com efeitos estruturais

Filtros prensa em operação na Alunorte (Crédito: Alunorte)
Filtros prensa em operação na Alunorte (Crédito Alunorte)

Antes do sistema Receita Dinâmica, o controle de qualidade dependia de análises laboratoriais posteriores ao processamento. Caso o resíduo estivesse fora da faixa ideal de umidade e teor de sólidos, a correção só era feita depois que uma quantidade significativa de material já havia sido produzida fora da especificação. “Esse material não permitia fazer o lançamento e compactação de forma definitiva. Precisávamos refazer o trabalho”, explica Braga.

A solução foi criar um sistema capaz de interpretar continuamente dados dos próprios sensores já existentes nos filtros e alterar automaticamente os tempos de prensagem, lavagem e secagem, conforme o comportamento do resíduo em tempo real. “O que era fixo ficou dinâmico”, resume Braga. 

Segundo ele, os filtros já eram sensorizados e o passo seguinte foi integrar esses sensores em um controlador lógico programável: um sistema de controle automático que ajusta os tempos de acordo com os parâmetros do material.

O resultado foi um salto expressivo no índice de conformidade. “Antigamente, de 100 amostras, 83 estavam dentro da faixa necessária. Quando conseguimos trazer a receita dinâmica, chegamos a 96. Esse foi o ganho inicial”, diz.

Segundo o executivo, a próxima etapa é aprofundar o uso de aprendizado de máquina para reduzir ainda mais as variações operacionais. Além dos ganhos já obtidos, o desdobramento é aproveitar a riqueza de dados e ferramentas de machine learning para refinar as otimizações de parâmetros.

Braga destacou que o diferencial do projeto foi justamente obter ganhos de eficiência e sustentabilidade sem mudanças radicais na infraestrutura industrial. “O pulo do gato foi a automação da receita”, resume. “Não mexemos no ativo em si. A grande mudança foi transformar uma operação fixa em dinâmica”, esclarece.

A iniciativa foi destacada no programa Conecta, plataforma interna de melhoria contínua da Hydro Alunorte que estimula equipes operacionais a desenvolver soluções para ganhos de produtividade e eficiência. O projeto foi reconhecido internamente entre as operações globais de bauxita e alumínio do grupo. “Fomos provocados o tempo todo a pensar de forma diferente. Hoje, um dos principais caminhos é explorar as oportunidades com IA, machine learning e automação baseada em dados. Não poderemos mais operar de forma reativa”, avalia o engenheiro.

Da “lama vermelha” a insumos para moradia e segurança alimentar

Historicamente conhecido como “lama vermelha”, o resíduo do refino de alumina começa a ganhar uma nova leitura industrial dentro da estratégia da mineradora. A coloração avermelhada vem da elevada presença de óxido de ferro no material, mas agora há um projeto para aproveitar esse material, segundo Braga.

Outro desafio está relacionado à alcalinidade elevada do material, consequência do uso de soda cáustica no processo Bayer. Essa característica sempre foi tratada como um dos principais entraves ambientais associados ao resíduo da alumina. Agora, a companhia busca transformar esse aspecto em uma vantagem para novas aplicações.

Uma das possibilidades é usar o material como corretivo de solo. Esse estudo é desenvolvido em parceria com a Embrapa e o Senai, com a lógica de utilizar a alcalinidade do resíduo para compensar a acidez característica de parte dos solos brasileiros. “Vamos pegar o defeito do resíduo e transformar em virtude”, define Braga.

Além das aplicações agrícolas, a “lama vermelha” começou a ganhar uso industrial e em escala comercial na indústria cimenteira do Pará. Em Paragominas, o resíduo sem soda é empregado na produção de blocos de concreto, substituindo parcialmente o cimento tradicional. Nesse caso, apenas o que sobra do processamento básico da bauxita é usado, atualmente, e o objetivo futuro é usar também os resíduos do processamento de alumina. “O grande ganho é que descobrimos que esse resíduo estabiliza o forno da cimenteira e, com isso, o processo deles se torna mais estável”, conta Braga.

Segundo o especialista, entre oito e dez carretas por dia seguem da Hydro Alunorte para uma fábrica em Capanema, também no Pará, onde o material é utilizado para estabilização térmica dos fornos de cimento.

Ferro verde e novas cadeias industriais

Uma iniciativa da Hydro Alunorte com a Wave Aluminium deu origem à construção de uma planta para produção de “ferro verde”, por meio de resíduos do refino de alumina. O projeto recebeu financiamento de R$ 221 milhões do BNDES para implantação em Barcarena, e deve entrar em operação em setembro de 2026.

A unidade será instalada dentro da refinaria da Alunorte e terá capacidade inicial para processar 50 mil toneladas de resíduos de bauxita por ano. O objetivo é recuperar minerais de valor comercial, especialmente ferro e silicatos utilizados pela indústria cimenteira, a partir de uma tecnologia baseada em micro-ondas desenvolvida e patenteada pela Wave Aluminium.

Segundo a Hydro, a tecnologia já demonstrou resultados positivos em escala laboratorial e poderá transformar o resíduo de bauxita em um recurso industrial. O projeto também se conecta à meta da companhia de ampliar o reaproveitamento dos resíduos até 2030 e eliminar a necessidade de novos depósitos permanentes até 2050.

“Estou animado para colocar a planta de processamento de resíduos de bauxita em operação na Alunorte, reduzindo ainda mais a pegada ambiental de nossas operações”, diz o vice-presidente executivo da Hydro Bauxite & Alumina, John Thuestad.

A expectativa é que a tecnologia permita separar diferentes minerais presentes no resíduo e convertê-los em materiais comercialmente viáveis. 

Em outra frente, a operação também poderá gerar um coproduto descrito como “ferro metálico de baixo carbono”, destinado à siderurgia.

O CEO da Wave Aluminium, Gustavo Emina, classificou os resultados iniciais como uma possível mudança estrutural para o setor: “Os resultados preliminares são altamente promissores e indicam um cenário revolucionário para a indústria mundial do alumínio na conversão de resíduos em produtos”, afirmou.

Ao Radar Mineração, Leonardo Braga destacou que aproximadamente 30% da composição do resíduo corresponde a ferro, e que a extração só se tornou viável devido às características físicas obtidas após o processamento. “Só foi possível fazer essa extração por conta do perfil do resíduo gerado pelo filtro prensa”, concluiu.

Dúvidas mais comuns

A Receita Dinâmica é um sistema de automação que transforma a operação de filtros prensa de um processo fixo em um processo adaptativo. O sistema interpreta continuamente dados de sensores já existentes nos equipamentos e ajusta automaticamente os tempos de prensagem, lavagem e secagem conforme o comportamento do resíduo em tempo real. Isso elevou o índice de conformidade do resíduo processado de 83% para 96%, reduzindo retrabalho, custos operacionais e a necessidade de expansão de depósitos.

A Hydro Alunorte evita o termo 'rejeito' porque sua estratégia considera o material como potencial matéria-prima para novos processos industriais. Enquanto rejeito é material que não serve para mais nada, resíduo é aquele com expectativa de utilização em alguma aplicação. Essa mudança de mindset foi fundamental para transformar os 4,5 milhões de toneladas anuais de resíduos gerados no processo Bayer em insumos valiosos para construção, siderurgia e agricultura.

Os filtros prensa retiram grande parte da umidade do resíduo, transformando-o em material empilhável. Através da compactação e remoção de espaços vazios, a Alunorte consegue colocar o mesmo volume em uma área quatro vezes menor. O processo envolve 12 etapas de prensagem, lavagem e secagem, entregando o resíduo na umidade ideal para compactação nos depósitos, similar à areia úmida ideal para construir castelos de areia.

Os resíduos de alumina têm múltiplas aplicações industriais. Na agricultura, a Alunorte desenvolve estudos com Embrapa e Senai para usar o material como corretivo de solo, aproveitando sua alcalinidade para compensar a acidez de solos brasileiros. Na indústria cimenteira, o resíduo é empregado na produção de blocos de concreto e estabilização térmica de fornos. Além disso, um projeto com a Wave Aluminium visa extrair ferro e silicatos do resíduo para uso industrial, com uma planta prevista para setembro de 2026.

Durante o processamento nos filtros prensa, o resíduo passa por sucessivos ciclos de compressão mecânica, lavagem para recuperação de soda cáustica e secagem com ar comprimido. A soda recuperada retorna ao processo industrial, reduzindo o consumo de matéria-prima importada. Isso é particularmente importante para a Alunorte, que é um dos maiores consumidores de soda da América Latina.

A Hydro Alunorte tem a ambição de não precisar mais de grandes depósitos até 2050, buscando dar um destino sustentável para os resíduos gerados no filtro prensa. A empresa busca ampliar o reaproveitamento dos resíduos até 2030 e eliminar a necessidade de novos depósitos permanentes até 2050. Essa estratégia combina dados, machine learning e automação em tempo real para transformar resíduos em insumos industriais viáveis.

'Ferro verde' é um produto obtido através de resíduos do refino de alumina usando uma tecnologia baseada em micro-ondas desenvolvida pela Wave Aluminium. Uma planta para sua produção está sendo construída em Barcarena com financiamento de R$ 221 milhões do BNDES e deve entrar em operação em setembro de 2026. A unidade terá capacidade inicial para processar 50 mil toneladas de resíduos de bauxita por ano, recuperando minerais de valor comercial como ferro e silicatos para a indústria cimenteira e siderurgia.

A Receita Dinâmica obteve ganhos significativos de eficiência e sustentabilidade sem mudanças radicais na infraestrutura industrial. Em vez de grandes intervenções mecânicas ou substituição de equipamentos, a refinaria integrou dados já capturados pelos filtros prensa a sistemas de controle automático. Esse diferencial permitiu transformar uma operação fixa em dinâmica, elevando a conformidade do resíduo de 83% para 96% e reduzindo custos operacionais sem investimentos estruturais pesados.