A forte correção nos preços do ouro nos mercados internacionais acendeu o sinal de alerta entre investidores, mineradoras e analistas do setor mineral. Nos últimos dias, o metal precioso acumulou perdas expressivas e voltou a se aproximar da marca de US$ 4 mil por onça-troy, resultado da pressão por uma combinação de fatores macroeconômicos que alterou o humor dos mercados globais. O valor atual é cerca de 25% menor do que o recorde registrado em janeiro deste ano, quando o metal atingiu US$ 5,5 mil por onça-troy.
Somente nesta semana, o ouro registrou queda superior a 2%, enquanto a prata despencou quase 6% em uma das piores sessões do ano para os metais preciosos. Na Comex, divisão de metais da New York Mercantile Exchange (Nymex), o contrato do ouro para agosto encerrou o pregão cotado a US$ 4.149,4 por onça-troy, recuo de 1,27%. Já a prata fechou a US$ 61,80 por onça-troy, com queda de 5,8%.
O movimento interrompe uma sequência de valorização que vinha sustentando expectativas de novas máximas históricas para o ouro em 2026. A principal mudança de cenário ocorreu após a mais recente reunião do Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano. O tom mais duro adotado pela instituição aumentou as apostas de que os juros permanecerão elevados nos Estados Unidos diante da persistência da inflação na maior economia do mundo.
Para o ouro, esse cenário representa um desafio relevante. Como o metal não oferece rendimento, ele tende a perder competitividade quando títulos públicos e outros ativos passam a remunerar mais os investidores.
Além disso, a valorização recente do dólar ampliou a pressão sobre os metais preciosos. O índice DXY, que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de divisas fortes, atingiu os níveis mais altos em um ano, tornando o ouro mais caro para compradores internacionais.
Outro fator que contribuiu para a correção foi a forte realização de lucros nas ações de tecnologia e inteligência artificial. A queda desses ativos desencadeou uma busca por liquidez em diversos mercados, levando investidores a vender posições tanto em ouro quanto em prata para recompor caixa e reduzir riscos. O resultado foi uma onda de vendas que atingiu simultaneamente bolsas, commodities e metais preciosos.
Para o setor de mineração, a revisão das expectativas merece atenção. Embora os preços atuais ainda permaneçam em patamares historicamente elevados, uma acomodação mais prolongada pode impactar decisões de investimento, planejamento de expansão e estratégias de proteção das empresas produtoras.
Ajuste de curto prazo
Apesar da forte correção, especialistas veem o movimento atual como uma acomodação natural após um ciclo de valorização excepcional.
Em entrevista ao Radar Mineração, Rui Cabral, sócio de Riscos e Finanças da EY, afirma que a queda recente está diretamente ligada à nova precificação das expectativas para a política monetária norte-americana.

“A queda recente do ouro tem relação com o ajuste da expectativa de juros nos Estados Unidos. Com a perspectiva de taxas mais altas por mais tempo, aumenta o custo de oportunidade de carregar o ouro, que é um ativo que não gera juros, o que naturalmente pressiona o seu preço”, explica.
Segundo Cabral, a valorização do dólar, a migração de parte dos recursos para ativos de risco e a necessidade de liquidez para novas operações de mercado também ajudam a explicar o recuo das cotações.
“É bom lembrar que o ouro vinha de uma valorização bem forte recentemente. Mesmo com a correção que estamos falando agora, ele é um ativo que acumula cerca de 20% de alta nos últimos 12 meses e, quando olhamos um horizonte de cinco anos, a valorização chega a aproximadamente 125%, o que é bastante relevante”, destaca.
Na avaliação do especialista, ainda não há sinais de uma mudança estrutural na trajetória do metal.
“Estamos vendo um ajuste de curto prazo, guiado por juros, liquidez e realização de ganhos, e não necessariamente uma perda de relevância estrutural do ouro. A demanda segue consistente e o metal continua sendo uma proteção importante em cenários de instabilidade econômica, inflação, volatilidade financeira ou tensões geopolíticas”, completa.
Para os próximos dias, o mercado acompanhará com atenção os indicadores de inflação dos Estados Unidos, especialmente o índice de gastos com consumo pessoal (PCE), considerado uma das principais referências do Fed. O resultado poderá definir se a recente queda do ouro representa apenas uma correção temporária ou o início de uma fase mais prolongada de acomodação dos preços.