Participantes no palco do Mining Innovation Summit 2026
Da esquerda para a direita: Rafael Bittar, Lourival Sant'Anna, Ana Sanches e Marcos Troyjo (Foto: Porto Filmes/ Mining Hub)

Demanda por minerais cresce, mas geoeconomia exige inovação na gestão estratégica

Mining Innovation Summit discute perspectiva de expansão do consumo global de minérios e reforça protagonismo do setor na geopolítica 

Por Vanderlei Campos, 5 min de leitura

Publicado em 03/06/2026

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A expectativa de aumento consistente da demanda global por minerais coloca o setor em posição de destaque na economia mundial. Ao mesmo tempo, a crescente complexidade geopolítica, a pressão por sustentabilidade, as exigências regulatórias e a necessidade de investimentos de longo prazo impõem desafios inéditos para a expansão da oferta. Esse cenário foi discutido ontem (02 de junho) no Mining Innovation Summit 2026, em Belo Horizonte, com participação da presidente da Anglo American no Brasil, Ana Sanches, do vice-presidente executivo técnico da Vale, Rafael Bittar, e do economista e diplomata Marcos Troyjo. O analista internacional da CNN Brasil, Lourival Sant’Anna, mediu o debate.

Na avaliação dos participantes, o mundo entra em um ciclo de crescimento da demanda por minerais, impulsionado por infraestrutura, transição energética, inteligência artificial, data centers, defesa e manufatura avançada. Transformar essa oportunidade em investimentos concretos, contudo, exige inovação não apenas tecnológica, mas também na forma de planejar negócios, gerir riscos e construir ambientes mais favoráveis ao capital.

“Minerais saem debaixo da terra e entram na geoeconomia”

Na abertura do debate, Lourival Sant’Anna destacou a mudança de posição da mineração no cenário internacional. “Os minérios estão saindo de baixo da terra e entrando no centro das discussões geopolíticas e geoeconômicas. Voltamos a olhar a tabela periódica para entender o que são esses produtos que, junto aos chips avançados, estão no centro da grande disputa geopolítica e geoeconômica”, observou.

Um homem de terno fala em um microfone no palco de um evento. Atrás dele, luzes coloridas iluminam as palavras 2026 MIN... INN... summit em uma tela grande, destacando os principais temas de geoeconomia e inovação.
Lourival Sant’Anna, analista internacional da CNN Brasil (Foto: Mining Hub via Flickr)

Segundo o jornalista, a crescente competição entre Estados Unidos e China por acesso a minerais críticos elevou o papel de países detentores de recursos naturais, entre eles o Brasil. Para ele, a mineração brasileira ocupa uma posição singular nesse contexto. “Esse setor tem essa grande oportunidade e essa grande responsabilidade nas mãos. Mas é claro que não pode fazer isso sozinho. É preciso um projeto de país, com a compreensão da sociedade brasileira e de como deve ser a nossa inserção nessa nova ordem econômica”, disse.

Da hiperglobalização às disputas geopolíticas

Marcos Troyjo argumentou que a mineração passou a operar em um ambiente radicalmente diferente daquele observado nas primeiras décadas do século XXI. Segundo ele, o setor deixou para trás a lógica da hiperglobalização e passou a atuar em um cenário fortemente influenciado pela geopolítica. “Hoje, a operação de mineração claramente se deslocou de um cenário de hiperglobalização, e estamos num modus operandi intensivo em geopolítica”, definiu.

Marcos Troyjo, economista e diplomata
Marcos Troyjo, economista e diplomata (Foto: Mining Hub via Flickr)

O economista destacou que as tensões entre Estados Unidos e China transformaram os minerais críticos em instrumentos estratégicos de poder econômico. Na sua avaliação, a restrição chinesa à exportação de determinados minerais demonstrou a vulnerabilidade das cadeias globais e acelerou a busca por novas fontes de suprimento.

Ao mesmo tempo, Troyjo identifica fundamentos estruturais que sustentam o crescimento da demanda por commodities minerais nas próximas décadas. Duas dinâmicas macroeconômicas e geopolíticas, segundo o economista, devem continuar impulsionando esse movimento: a crescente influência das economias emergentes na formação da demanda global e a expansão da infraestrutura física e digital em diversas regiões do mundo.

Na sua avaliação, a ascensão de países como Índia, Brasil e outros emergentes deve provocar um ciclo duradouro de investimentos em infraestrutura, mobilidade e consumo.

Qualidade do minério de ferro ganha peso com descarbonização

Para Rafael Bittar, da Vale, a transformação em curso abre oportunidades tanto para minerais críticos quanto para commodities tradicionais da mineração. “Fala-se pouco do minério de ferro em toda essa dinâmica que está ocorrendo no mundo, mas foi bom o Marcos ter comentado que os países emergentes vão consumir muito minério de ferro também”, mencionou.

Um homem de terno azul e cordão lavanda senta-se em um palco segurando um microfone, com uma expressão séria enquanto discute geoeconomia. O texto está parcialmente visível em um fundo desfocado.
Rafael Bittar, vice-presidente executivo técnico da Vale (Foto: Mining Hub via Flickr)

Segundo o executivo da Vale, o minério de ferro de alta qualidade produzido no Brasil tende a ganhar relevância adicional em função dos compromissos globais de descarbonização. “Com a descarbonização — que é algo sem volta, embora possa ocorrer em velocidades diferentes em diversas regiões do mundo, mas não vai deixar de acontecer —, vai se abrir uma janela também para uma seletividade maior de minério de ferro de alta qualidade”, avaliou.

Bittar lembrou também o potencial de expansão do cobre e do níquel, segmentos nos quais a Vale trabalha em projetos para ampliar significativamente a produção desses minerais no país. “Acreditamos que a Índia vai ser um grande consumidor, a China continua muito robusta no consumo de minério de ferro, e outros mercados, como México e Estados Unidos, com infraestrutura, também podem ser consumidores. E cobre é um minério que já está no nosso portfólio e temos grandes perspectivas”, informou.

O executivo lembrou que o longo prazo característico da mineração exige capacidade de antecipação. “Temos que estar atentos a tudo e ter uma boa capacidade de previsibilidade, porque, talvez, o mais importante da mineração é o tempo entre uma descoberta e colocar um projeto de pé. Estamos falando em sete ou oito anos”, destacou.

Inovação na gestão estratégica

Na avaliação de Ana Sanches, da Anglo American, a crescente complexidade do ambiente global exige mudanças profundas na forma como as empresas planejam seus negócios. Segundo a executiva, o cenário atual demanda uma visão mais integrada dos fatores internos e externos que afetam a atividade mineral.

Uma mulher fala em um microfone no palco de uma conferência sobre geoeconomia, com quatro homens sentados atrás dela. Uma tela grande exibe fotos, nomes e títulos dos palestrantes em um pano de fundo roxo.
Ana Sanches, presidente da Anglo American no Brasil (Foto: Mining Hub via Flickr)

“Não basta termos bons operadores e bons ativos. Precisamos cada vez mais de um olhar holístico, uma visão mais integrada de tudo o que está acontecendo dentro e fora da empresa, com um olhar muito mais preventivo”, definiu.

Para ela, a inovação deixou de ser apenas uma ferramenta de otimização operacional e passou a integrar diretamente os processos de tomada de decisão. “Não temos como tomar decisões sem uma análise profunda e robusta, integrada a riscos e trazendo também, dentro desse olhar, as oportunidades. Acho que aí entra de forma muito forte o tema da inovação”, disse.

A executiva destacou a mudança na própria percepção sobre o setor de mineração, dada a sua relação com diversos temas de relevância generalizada neste momento. “Há pouco tempo, soberania era a disputa de território. Soberania hoje em dia é tecnologia, é energia, é defesa, é indústria. Em todos esses temas têm mineração”, exemplificou.

Segundo ela, o setor está deixando de ser problema e para ser uma grande oportunidade de solução. “Quando se fala em soberania, transição energética, inovação tecnológica e infraestrutura, estamos em todos esses pilares”, argumentou.