- O Google reafirmou compromisso de net zero até 2030 com estratégia 24x7 de energia livre de carbono, estruturando acordos de longo prazo como 500 MW com pequenos reatores modulares até 2035.
- A empresa alcançou cinco vezes mais capacidade computacional por unidade de energia em data centers e reduziu consumo de IA em 33% em um ano, demonstrando que eficiência tecnológica modera demanda energética.
- A demanda por cobre e níquel crescerá como vetores principais de eletrificação global, enquanto parcerias estruturadas do Google com previsibilidade até 2035 criam condições para investimentos em infraestrutura energética limpa nas operações de mineração.
A corrida pela descarbonização ganhou um novo ritmo. O Google reafirmou seu compromisso ambicioso de atingir net zero até 2030 e detalhou na COP30, em Belém, a estratégia que o move: a abordagem 24×7 de energia livre de carbono, que vai muito além de contratar eletricidade limpa. É uma reconfiguração sistêmica que terá impacto direto nos mercados de energia e, por consequência, na forma como a mineração se posiciona globalmente.
Segundo Antonia Gadwel, diretora global de Sustentabilidade e Parcerias do Google, o objetivo não é apenas reduzir emissões, mas estruturar novas rotas tecnológicas que funcionem como “primeiras de seu tipo” — aqueles projetos que abrem caminho para escala e reduzem barreiras de custo. O Google já tem acordos estruturados: 500 MW de offtake (contratos antecipados de compra e venda de energia) com pequenos reatores modulares (SMRs) até 2035 e parcerias em geotermia, com foco em Nevada (EUA).
A estratégia revela algo crucial: corporações de grande escala não estão esperando pelo mercado. Estão criando mercados. E isso redefine as regras do jogo para fornecedores de energia — e de matérias-primas.
Eficiência como o verdadeiro motor
Enquanto a indústria debate quanto a Inteligência Artificial (IA) consumirá de energia, o Google oferece um dado que muda o jogo: em cinco anos, a empresa alcançou cinco vezes mais capacidade de computação por unidade de energia em seus data centers. Em um ano, o consumo energético de um modelo de IA para consultas de texto foi reduzido em 33%.

A mensagem é simples: tecnologia mais eficiente reduz demanda. E embora o peso relativo da IA no sistema elétrico ainda seja pequeno em comparação com climatização e eletrificação industrial, a tendência é de otimização contínua.
O que a mineração vê daqui
O Google não escolheu a descarbonização apenas porque é ético. Escolheu porque operações eficientes em carbono geram vantagem competitiva. Se essa lógica se generalizar, a demanda por minérios de alta qualidade que permitem menor intensidade de carbono nos processos produtivos só tende a crescer.
Para o setor de mineração, isso traz uma reflexão: com a demanda por energia para IA moderada por eficiência, o crescimento no setor elétrico virá principalmente de outros vetores — e aí entram o cobre e o níquel, elementos centrais para a eletrificação global.
O portfólio tecnológico como resposta
Gadwel é enfática: “Precisamos desbloquear capacidade de rede, repensar regulação, licenciamento e investir em um portfólio tecnológico para toda a economia”. Não é solar e eólica apenas. É solar, eólica, via pequenos reatores modulares (SMRs), geotermia — um mix que prova não haver solução única.
Isso importa para a mineração porque demanda estruturada de energia de longa duração — como a que o Google oferece com seus acordos de offtake — cria as condições para investimentos em infraestrutura energética em geografias estratégicas. E infraestrutura energética limpa é o que permite que operações de mineração de alto desempenho funcionem dentro de um modelo descarbonizado.
Parcerias como alavanca sistêmica
Mais revelador ainda é como o Google estrutura suas parcerias. O “order book framework” para SMRs, por exemplo, oferece previsibilidade de demanda até 2035 — uma janela que permite a fornecedores captar recursos, escalar produção e reduzir custos. É engenharia financeira a serviço da transição.
O Google também atua em advocacy e pensamento de longo prazo, trabalhando com instituições como a Agência Internacional de Energia (IEA) para embasar decisões com modelagem robusta. “Nenhum modelo é perfeito. Precisamos trabalhar com cenários e reavaliar continuamente, dado o ritmo das mudanças tecnológicas”, reconhece Gadwel.
Isso sinaliza à indústria mineral: as corporações que liderarão a transição são aquelas que combinam investimento de capital com influência política e pensamento estratégico de longo prazo.
A transição energética não é mais uma agenda distante. É um redesenho imediato das cadeias de valor. E mineradoras que entendem isso como oportunidade, e não como constrangimento, já estão na frente nesta corrida.
** Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração
Glossário da Mineração
Geotermia
Trata-se do aproveitamento do calor interno do planeta para geração de energia ou para aplicações térmicas diretas. No setor mineral, o conceito é relevante para estudos geológicos, mapeamento de gradientes geotérmicos, análises de estabilidade térmica de rochas e avaliação de potencial energético em regiões com atividade vulcânica ou hidrotermal. A geotermia também pode apoiar operações ao fornecer fontes de aquecimento ou refrigeração com menor impacto ambiental.
Offtake
Contrato de compra futura de um produto mineral firmado entre o produtor e o comprador, geralmente antes da fase de operação completa do projeto. Esse tipo de acordo garante demanda mínima, reduz risco comercial e facilita a obtenção de financiamento para novos empreendimentos.
Transição energética
Mudança global de fontes de energia fósseis para renováveis e limpas, visando a reduzir emissões de carbono e combater mudanças climáticas. Aumenta significativamente a demanda por minerais críticos como lítio, cobalto, cobre e terras raras, essenciais para painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos, tornando a mineração estratégica neste processo.
COP
Conferência das Partes (COP) é o encontro anual dos países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), realizada desde 1995. Principal fórum global onde são negociados acordos, metas e mecanismos globais de combate às mudanças climáticas. Eventos marcantes incluem a COP3 (Protocolo de Kyoto, 1997), COP21 (Acordo de Paris, 2015) e COP26 (Glasgow, 2021), que definiram as bases para descarbonização da economia global.

