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Antonia Gadwel, diretora global de Sustentabilidade e Parcerias do Google
Antonia Gadwel, diretora global de Sustentabilidade e Parcerias do Google (Foto: Viviane Kulczynski)

Google aperta o passo rumo ao net zero 2030: o que isso significa para a mineração?

Demanda por IA segue exponencial; eficiência energética redireciona foco para minerais críticos na eletrificação

Por Viviane Kulczynski *, 3 min de leitura

Publicado em 14/11/2025

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A corrida pela descarbonização ganhou um novo ritmo. O Google reafirmou seu compromisso ambicioso de atingir net zero até 2030 e detalhou na COP30, em Belém, a estratégia que o move: a abordagem 24×7 de energia livre de carbono, que vai muito além de contratar eletricidade limpa. É uma reconfiguração sistêmica que terá impacto direto nos mercados de energia e, por consequência, na forma como a mineração se posiciona globalmente.

Segundo Antonia Gadwel, diretora global de Sustentabilidade e Parcerias do Google, o objetivo não é apenas reduzir emissões, mas estruturar novas rotas tecnológicas que funcionem como “primeiras de seu tipo” — aqueles projetos que abrem caminho para escala e reduzem barreiras de custo. O Google já tem acordos estruturados: 500 MW de offtake (contratos antecipados de compra e venda de energia) com pequenos reatores modulares (SMRs) até 2035 e parcerias em geotermia, com foco em Nevada (EUA).

A estratégia revela algo crucial: corporações de grande escala não estão esperando pelo mercado. Estão criando mercados. E isso redefine as regras do jogo para fornecedores de energia — e de matérias-primas.

Eficiência como o verdadeiro motor

Enquanto a indústria debate quanto a Inteligência Artificial (IA) consumirá de energia, o Google oferece um dado que muda o jogo: em cinco anos, a empresa alcançou cinco vezes mais capacidade de computação por unidade de energia em seus data centers. Em um ano, o consumo energético de um modelo de IA para consultas de texto foi reduzido em 33%.

Datacenter Google com infraestrutura avançada localizado em área cercada por energia renovável e paisagens verdes, evidenciando tecnologia de ponta.
Data center do Google (Foto: Aerovista Luchtfotografie / Shutterstock)

A mensagem é simples: tecnologia mais eficiente reduz demanda. E embora o peso relativo da IA no sistema elétrico ainda seja pequeno em comparação com climatização e eletrificação industrial, a tendência é de otimização contínua.

O que a mineração vê daqui

O Google não escolheu a descarbonização apenas porque é ético. Escolheu porque operações eficientes em carbono geram vantagem competitiva. Se essa lógica se generalizar, a demanda por minérios de alta qualidade que permitem menor intensidade de carbono nos processos produtivos só tende a crescer.

Para o setor de mineração, isso traz uma reflexão: com a demanda por energia para IA moderada por eficiência, o crescimento no setor elétrico virá principalmente de outros vetores — e aí entram o cobre e o níquel, elementos centrais para a eletrificação global.

O portfólio tecnológico como resposta

Gadwel é enfática: “Precisamos desbloquear capacidade de rede, repensar regulação, licenciamento e investir em um portfólio tecnológico para toda a economia”. Não é solar e eólica apenas. É solar, eólica, via pequenos reatores modulares (SMRs), geotermia — um mix que prova não haver solução única.

Isso importa para a mineração porque demanda estruturada de energia de longa duração — como a que o Google oferece com seus acordos de offtake — cria as condições para investimentos em infraestrutura energética em geografias estratégicas. E infraestrutura energética limpa é o que permite que operações de mineração de alto desempenho funcionem dentro de um modelo descarbonizado.

Parcerias como alavanca sistêmica

Mais revelador ainda é como o Google estrutura suas parcerias. O “order book framework” para SMRs, por exemplo, oferece previsibilidade de demanda até 2035 — uma janela que permite a fornecedores captar recursos, escalar produção e reduzir custos. É engenharia financeira a serviço da transição.

O Google também atua em advocacy e pensamento de longo prazo, trabalhando com instituições como a Agência Internacional de Energia (IEA) para embasar decisões com modelagem robusta. “Nenhum modelo é perfeito. Precisamos trabalhar com cenários e reavaliar continuamente, dado o ritmo das mudanças tecnológicas”, reconhece Gadwel.

Isso sinaliza à indústria mineral: as corporações que liderarão a transição são aquelas que combinam investimento de capital com influência política e pensamento estratégico de longo prazo.

A transição energética não é mais uma agenda distante. É um redesenho imediato das cadeias de valor. E mineradoras que entendem isso como oportunidade, e não como constrangimento, já estão na frente nesta corrida.

** Enviada especial à COP30 | Especial para o Radar Mineração

Glossário da Mineração

Geotermia

Trata-se do aproveitamento do calor interno do planeta para geração de energia ou para aplicações térmicas diretas. No setor mineral, o conceito é relevante para estudos geológicos, mapeamento de gradientes geotérmicos, análises de estabilidade térmica de rochas e avaliação de potencial energético em regiões com atividade vulcânica ou hidrotermal. A geotermia também pode apoiar operações ao fornecer fontes de aquecimento ou refrigeração com menor impacto ambiental.

Offtake

Contrato de compra futura de um produto mineral firmado entre o produtor e o comprador, geralmente antes da fase de operação completa do projeto. Esse tipo de acordo garante demanda mínima, reduz risco comercial e facilita a obtenção de financiamento para novos empreendimentos.

Transição energética

Mudança global de fontes de energia fósseis para renováveis e limpas, visando a reduzir emissões de carbono e combater mudanças climáticas. Aumenta significativamente a demanda por minerais críticos como lítio, cobalto, cobre e terras raras, essenciais para painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos, tornando a mineração estratégica neste processo.

COP

Conferência das Partes (COP) é o encontro anual dos países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), realizada desde 1995. Principal fórum global onde são negociados acordos, metas e mecanismos globais de combate às mudanças climáticas. Eventos marcantes incluem a COP3 (Protocolo de Kyoto, 1997), COP21 (Acordo de Paris, 2015) e COP26 (Glasgow, 2021), que definiram as bases para descarbonização da economia global.

Dúvidas mais comuns

O compromisso net zero do Google significa equilibrar as emissões de gases de efeito estufa, garantindo que qualquer emissão seja compensada ou removida da atmosfera. A estratégia vai além de contratar eletricidade limpa, implementando uma abordagem 24x7 de energia livre de carbono que redefine como a empresa estrutura suas operações energéticas, incluindo acordos com pequenos reatores modulares (SMRs) e parcerias em geotermia.

A abordagem 24x7 de energia livre de carbono é uma reconfiguração sistêmica que vai muito além de contratar eletricidade limpa. Ela envolve um portfólio tecnológico diversificado que inclui solar, eólica, pequenos reatores modulares (SMRs) e geotermia, garantindo que as operações funcionem com energia descarbonizada em tempo integral, não apenas em períodos de pico de geração renovável.

O Google demonstrou que em cinco anos alcançou cinco vezes mais capacidade de computação por unidade de energia em seus data centers, e em um ano reduziu o consumo energético de um modelo de IA para consultas de texto em 33%. Essa eficiência tecnológica contínua modera a demanda por energia para IA, redirecionando o crescimento do setor elétrico para outros vetores como eletrificação global.

O compromisso net zero do Google amplia significativamente a demanda por cobre e níquel, elementos centrais para a eletrificação global e infraestrutura energética limpa. Com a demanda por energia para IA moderada por eficiência, o crescimento no setor elétrico virá principalmente de outros vetores, aumentando a necessidade de minérios de alta qualidade que permitam menor intensidade de carbono nos processos produtivos.

O Google utiliza um 'order book framework' para SMRs que oferece previsibilidade de demanda até 2035, permitindo que fornecedores captem recursos, escalem produção e reduzam custos. Além disso, a empresa atua em advocacy e pensamento estratégico de longo prazo, trabalhando com instituições como a Agência Internacional de Energia (IEA) para embasar decisões com modelagem robusta e influência política.

Corporações de grande escala como o Google não estão esperando pelo mercado, estão criando mercados e redefinindo as regras do jogo para fornecedores de energia e matérias-primas. Mineradoras que entendem a transição energética como oportunidade, combinando investimento de capital com influência política e pensamento estratégico de longo prazo, já estão na frente da corrida pela descarbonização.

Infraestrutura energética limpa estruturada é essencial para que operações de mineração de alto desempenho funcionem dentro de um modelo descarbonizado. Demanda estruturada de energia de longa duração, como a que o Google oferece com seus acordos de offtake, cria as condições para investimentos em infraestrutura energética em geografias estratégicas, viabilizando mineração com menor intensidade de carbono.

O Google reconhece que não há solução única para descarbonização, utilizando um portfólio tecnológico diversificado que inclui energia solar, eólica, pequenos reatores modulares (SMRs) e geotermia. Essa abordagem de mix energético prova a necessidade de desbloquear capacidade de rede, repensar regulação e licenciamento, e investir em múltiplas tecnologias para toda a economia.