Arte do presidente interino do IBRAM, Pablo Cesário
Pablo Cesário, presidente interino do IBRAM (Divulgação/ Arte)

“Mineração é mais solução do que problema para a transição energética”

Presidente interino do IBRAM detalha prioridades da gestão, incluindo minerais críticos, combate ao garimpo ilegal e fortalecimento do diálogo institucional

Por Nelson Valêncio, 5 min de leitura

Publicado em 22/04/2026

Baixar PDF Copiar link
  • A mineração brasileira é essencial para a transição energética global, especialmente na produção de minerais críticos como lítio, cobre e níquel necessários para tecnologias limpas.
  • O Brasil possui vantagens competitivas em minerais estratégicos como fosfato, potássio e enxofre, além de baixas emissões de carbono comparado a concorrentes globais como Austrália e Canadá.
  • O setor enfrenta desafios de licença social, combate ao garimpo ilegal e necessidade de diversificação econômica nas regiões mineradoras para garantir desenvolvimento sustentável e inclusivo.
Resumo revisado pela redação.

À frente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) desde janeiro de 2026, após a morte de Raul Jungmann, Pablo Cesário foi escolhido pelo Conselho da instituição como diretor de Relações Governamentais e presidente Interino, com o desafio de reposicionar o setor no contexto da transição energética. Entre as prioridades para sua gestão, ele destacou a formulação de uma política para minerais críticos estratégicos; o combate à infiltração do crime organizado no garimpo ilegal; e a busca pela “licença social” para a mineração. Cesário também fala da importância de estreitar o diálogo com o Congresso Nacional e sobre os esforços para ampliação da pesquisa geológica e da atração de novos financiamentos no setor.

Como você avalia o legado de Raul Jungmann à frente do Ibram?

Raul Jungmann, ex-ministro e diretor-presidente do Ibram
Raul Jungmann, ex-ministro e diretor-presidente do Ibram (Foto: Divulgação / Ibram)

Raul Jungmann foi uma inflexão no setor. Não tenho nenhuma pretensão de substituí-lo, porque não se substitui pessoas como ele, que reunia duas coisas cada vez mais raras: uma capacidade de diálogo real com todos os espectros políticos e, ao mesmo tempo, uma visão de Brasil. Uma das razões pelas quais aceitei vir para o Ibram como diretor de Relações Institucionais, cargo que acumulo com a presidência interina, era a possibilidade de trabalhar com Jungmann e evoluir com ele, mas sua morte infelizmente precipitou o movimento.

Quais são as as principais frentes de atuação do Ibram neste momento?

O Conselho estabeleceu algumas prioridades, sendo a principal delas a criação de uma política de minerais críticos estratégicos, para posicionar o Brasil e a mineração brasileira dentro de uma nova ordem de fragmentação de cadeias globais e transição energética. Outro desafio é determinar como podemos combater a infiltração do crime organizado na mineração, especificamente no garimpo ilegal, que tem sido usado para a lavagem de dinheiro. A terceira prioridade é como a mineração terá a licença social para operar, passando para uma nova forma de conversar com as partes interessadas, de modo que o setor seja bem-vindo e promova o desenvolvimento local.

Como deve ser o diálogo com o Congresso e outras esferas de poder?

O Congresso é a voz da sociedade brasileira e ele delega, às vezes, a regulação, que é mais técnica, para as agências reguladoras, então não há um conflito, mas sim uma divisão de trabalho. O que o Ibram tem feito é se aproximar cada vez mais do parlamento, seja por meio das lideranças parlamentares, seja educando e levando esses parlamentares para conhecer a mineração no campo, lá na linha de frente. O parlamento é claramente uma prioridade e precisamos preparar os congressistas para tomar as melhores decisões, o que significa principalmente fornecer informação adequada.  

Que tipo de ação o setor pode adotar para enfrentar a criminalidade?

O Ibram fechou acordos de cooperação com a Polícia Federal, com o Ministério da Justiça e com o Conselho Nacional do Ministério Público. Estamos dentro do plano de ação dessas entidades para colaborar com informação e monitoramento técnico. Além disso, existem debates no Congresso sobre novas ferramentas de monitoramento por satélite. Um deles é um projeto de lei específico, de autoria do deputado Júlio Lopes, para criar novas ferramentas de combate à infiltração do crime organizado, envolvendo também a Agência Nacional de Mineração (ANM) e a Receita Federal.

Pablo Cesário, presidente interino do Ibram
Pablo Cesário, presidente interino do Ibram (Foto: Divulgação/ Ibram)

O Plano Nacional de Mineração (PNM 2050) destaca a importância dos minerais críticos e estratégicos ligados à transição energética e à segurança alimentar. Como o país pode avançar nessa área?

Os minerais críticos representam a base de uma nova revolução industrial focada em como a sociedade produz energia, fomenta a circularidade e busca a sustentabilidade. A urgência global por esses minerais é vista como uma oportunidade que a natureza nos dá para que a sociedade entenda a real importância da mineração. É uma janela para demonstrar como o setor gera riqueza e está intrinsecamente ligado ao dia a dia das pessoas, ajudando a garantir a “licença social” que a mineração almeja. O tema envolve diretamente a geopolítica e a segurança nacional. Além de fundamentais para a transição energética, os minerais estratégicos são vitais para a segurança alimentar. Nesse sentido, o Brasil tem a chance de desenvolver internamente minerais em que hoje apresenta risco de escassez, como enxofre, fosfato e potássio, que são essenciais para a cadeia de fertilizantes e ureia. Estamos muito animados, pois o presidente da Câmara Federal disse que pretende votar a nova lei da política nacional de mineração na primeira quinzena de abril.

Como o setor pode se posicionar para ampliar sua licença social e aceitação nas comunidades?

A mineração é um setor que gera prosperidade e ela tem que gerar prosperidade para todo mundo: comunidades, trabalhadores, construtores, nossos empreendedores. A mineração foi capaz de enriquecer alguns dos países mais ricos do mundo como Austrália e Canadá. Para entregar todo o seu potencial, porém, ela precisa estar amparada por instituições, segurança, sustentabilidade e inclusão produtiva. Precisamos trabalhar a diversificação de atividades econômicas para garantir que novas atividades sejam desenvolvidas e a mineração não se torne a única atividade local.

O setor tem crescido na geração de empregos, mas como atrair os profissionais mais jovens?  

Precisamos apresentar para os jovens a mineração como um setor altamente intensivo em tecnologia e investimentos, que paga excelente remuneração e permite construir uma carreira na vida. A mineração que as pessoas têm na cabeça ainda é daquelas áreas difíceis, de trabalho difícil, e essa não é mais a realidade da mineração industrial. Estive recentemente no Canadá e conversei com uma pessoa que estava na quarta geração de mineradores, mostrando um senso de orgulho enorme do trabalho. Esse é o senso de pertencimento e comunidade que a gente precisa criar aqui.

O PNM 2050 também destaca a necessidade de diversificação do setor. Como você avalia esse movimento?

É claro que o minério de ferro será sempre um talento do qual não há nenhuma razão para nos envergonharmos. Temos empresas muito qualificadas para extraí-lo e competir globalmente, mas há razões também para perseguir novos projetos que estão em todas as regiões com uma diversidade de produtos cada vez maior. Veja a oferta mineradora da Bahia, que é de uma diversidade impressionante, ou as novas produções de ouro e alumínio em outras regiões. Goiás é outro exemplo de polo minerador. A diversidade é muito bem-vinda. Também chamo a atenção para a responsabilidade social do setor, ao defender que as empresas precisam trabalhar a diversificação das atividades econômicas nas regiões onde operam. Ele deve ajudar a garantir o desenvolvimento de novas vocações e atividades paralelas, promovendo inclusão produtiva para que haja prosperidade contínua para toda a população.

Como encarar os desafios da pesquisa geológica e do financiamento para o setor?

O primeiro desafio é o de pesquisa mineral. A gente vai ter que fazer uma discussão mais profunda de como modernizamos e ampliamos a capacidade de atendimento do Serviço Geológico Brasileiro, com maior participação de investidores privados. Estamos, inclusive, terminando a contratação de um estudo sobre alternativas institucionais. A outra coisa é o financiamento. O mercado brasileiro é sofisticado, mas ainda não compreendeu as características de risco e o tempo de desenvolvimento da mineração. O Ministério da Fazenda analisa alterações tributárias que copiam lições do Canadá e Austrália. Há também um renovado interesse de instituições financeiras brasileiras e de fundos canadenses em procurar novos projetos no Brasil.

A mineração é fundamental para a transição energética, mas ela também precisa se descarbonizar. Isso é um desafio?

Sem dúvida. O Ibram vai contratar uma consultoria para a revisão da emissão de gases de efeito estufa do setor e estamos tratando do entendimento da taxonomia de sustentabilidade do Ministério da Fazenda para incentivar atividades sustentáveis. A mineração brasileira tem um baixíssimo perfil de emissões, se comparado às competidoras globais, e é hoje a maior investidora em conservação florestal do país. Nesse sentido, a mineração é mais solução do que problema para a transição energética. 

Dúvidas mais comuns

Minerais críticos representam a base de uma nova revolução industrial focada em como a sociedade produz energia, promove a circularidade e busca a sustentabilidade. Eles são fundamentais não apenas para a transição energética, mas também para a segurança alimentar, sendo essenciais para cadeias de fertilizantes e ureia. O Brasil tem a oportunidade de desenvolver internamente minerais em que apresenta risco de escassez, como enxofre, fosfato e potássio.

O Brasil deve formular uma política específica para minerais críticos estratégicos, posicionando a mineração brasileira dentro de uma nova ordem de fragmentação de cadeias globais. Isso envolve ampliar a pesquisa geológica, modernizar o Serviço Geológico Brasileiro com maior participação de investidores privados, e atrair novos financiamentos. O país tem vantagens competitivas significativas e oportunidades para desenvolver projetos diversificados em diferentes regiões.

A mineração é mais solução do que problema para a transição energética. O setor brasileiro possui um baixíssimo perfil de emissões comparado aos competidores globais e é atualmente o maior investidor em conservação florestal do país. Além disso, a mineração fornece os minerais essenciais necessários para tecnologias de energia renovável e sustentabilidade.

O Ibram fechou acordos de cooperação com a Polícia Federal, Ministério da Justiça e Conselho Nacional do Ministério Público, participando de planos de ação para colaborar com informação e monitoramento técnico. Existem também debates no Congresso sobre novas ferramentas de monitoramento por satélite, incluindo um projeto de lei do deputado Júlio Lopes que envolve a Agência Nacional de Mineração e a Receita Federal.

Licença social refere-se à aceitação e bem-vinda do setor de mineração pelas comunidades locais e sociedade em geral. Para conquistá-la, a mineração deve gerar prosperidade para todos: comunidades, trabalhadores e empreendedores. Isso envolve estar amparada por instituições sólidas, segurança, sustentabilidade e inclusão produtiva, além de diversificar as atividades econômicas locais para evitar dependência exclusiva da mineração.

É necessário apresentar a mineração como um setor altamente intensivo em tecnologia e investimentos que oferece excelente remuneração e oportunidades de carreira. A percepção pública ainda associa mineração a trabalho difícil e áreas remotas, mas a mineração industrial moderna é completamente diferente. O setor deve criar um senso de pertencimento e comunidade, similar ao que existe em países como Canadá, onde há gerações de mineradores orgulhosos de sua profissão.

Embora o minério de ferro seja um talento brasileiro inquestionável, a diversificação permite explorar novos projetos em diferentes regiões com produtos variados. Estados como Bahia, Goiás e outras regiões apresentam ofertas mineradoras diversas, incluindo ouro e alumínio. A diversificação também é responsabilidade social das empresas, que devem trabalhar para desenvolver novas vocações econômicas e atividades paralelas, garantindo prosperidade contínua para toda a população local.

O mercado brasileiro, apesar de sofisticado, ainda não compreende totalmente as características de risco e o tempo de desenvolvimento da mineração. É necessário modernizar e ampliar a capacidade do Serviço Geológico Brasileiro com maior participação de investidores privados. O Ministério da Fazenda analisa alterações tributárias baseadas em lições do Canadá e Austrália, enquanto há renovado interesse de instituições financeiras brasileiras e fundos canadenses em novos projetos no Brasil.