- A mineração brasileira é essencial para a transição energética global, especialmente na produção de minerais críticos como lítio, cobre e níquel necessários para tecnologias limpas.
- O Brasil possui vantagens competitivas em minerais estratégicos como fosfato, potássio e enxofre, além de baixas emissões de carbono comparado a concorrentes globais como Austrália e Canadá.
- O setor enfrenta desafios de licença social, combate ao garimpo ilegal e necessidade de diversificação econômica nas regiões mineradoras para garantir desenvolvimento sustentável e inclusivo.
À frente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) desde janeiro de 2026, após a morte de Raul Jungmann, Pablo Cesário foi escolhido pelo Conselho da instituição como diretor de Relações Governamentais e presidente Interino, com o desafio de reposicionar o setor no contexto da transição energética. Entre as prioridades para sua gestão, ele destacou a formulação de uma política para minerais críticos estratégicos; o combate à infiltração do crime organizado no garimpo ilegal; e a busca pela “licença social” para a mineração. Cesário também fala da importância de estreitar o diálogo com o Congresso Nacional e sobre os esforços para ampliação da pesquisa geológica e da atração de novos financiamentos no setor.
Como você avalia o legado de Raul Jungmann à frente do Ibram?

Raul Jungmann foi uma inflexão no setor. Não tenho nenhuma pretensão de substituí-lo, porque não se substitui pessoas como ele, que reunia duas coisas cada vez mais raras: uma capacidade de diálogo real com todos os espectros políticos e, ao mesmo tempo, uma visão de Brasil. Uma das razões pelas quais aceitei vir para o Ibram como diretor de Relações Institucionais, cargo que acumulo com a presidência interina, era a possibilidade de trabalhar com Jungmann e evoluir com ele, mas sua morte infelizmente precipitou o movimento.
Quais são as as principais frentes de atuação do Ibram neste momento?
O Conselho estabeleceu algumas prioridades, sendo a principal delas a criação de uma política de minerais críticos estratégicos, para posicionar o Brasil e a mineração brasileira dentro de uma nova ordem de fragmentação de cadeias globais e transição energética. Outro desafio é determinar como podemos combater a infiltração do crime organizado na mineração, especificamente no garimpo ilegal, que tem sido usado para a lavagem de dinheiro. A terceira prioridade é como a mineração terá a licença social para operar, passando para uma nova forma de conversar com as partes interessadas, de modo que o setor seja bem-vindo e promova o desenvolvimento local.
Como deve ser o diálogo com o Congresso e outras esferas de poder?
O Congresso é a voz da sociedade brasileira e ele delega, às vezes, a regulação, que é mais técnica, para as agências reguladoras, então não há um conflito, mas sim uma divisão de trabalho. O que o Ibram tem feito é se aproximar cada vez mais do parlamento, seja por meio das lideranças parlamentares, seja educando e levando esses parlamentares para conhecer a mineração no campo, lá na linha de frente. O parlamento é claramente uma prioridade e precisamos preparar os congressistas para tomar as melhores decisões, o que significa principalmente fornecer informação adequada.
Que tipo de ação o setor pode adotar para enfrentar a criminalidade?
O Ibram fechou acordos de cooperação com a Polícia Federal, com o Ministério da Justiça e com o Conselho Nacional do Ministério Público. Estamos dentro do plano de ação dessas entidades para colaborar com informação e monitoramento técnico. Além disso, existem debates no Congresso sobre novas ferramentas de monitoramento por satélite. Um deles é um projeto de lei específico, de autoria do deputado Júlio Lopes, para criar novas ferramentas de combate à infiltração do crime organizado, envolvendo também a Agência Nacional de Mineração (ANM) e a Receita Federal.

O Plano Nacional de Mineração (PNM 2050) destaca a importância dos minerais críticos e estratégicos ligados à transição energética e à segurança alimentar. Como o país pode avançar nessa área?
Os minerais críticos representam a base de uma nova revolução industrial focada em como a sociedade produz energia, fomenta a circularidade e busca a sustentabilidade. A urgência global por esses minerais é vista como uma oportunidade que a natureza nos dá para que a sociedade entenda a real importância da mineração. É uma janela para demonstrar como o setor gera riqueza e está intrinsecamente ligado ao dia a dia das pessoas, ajudando a garantir a “licença social” que a mineração almeja. O tema envolve diretamente a geopolítica e a segurança nacional. Além de fundamentais para a transição energética, os minerais estratégicos são vitais para a segurança alimentar. Nesse sentido, o Brasil tem a chance de desenvolver internamente minerais em que hoje apresenta risco de escassez, como enxofre, fosfato e potássio, que são essenciais para a cadeia de fertilizantes e ureia. Estamos muito animados, pois o presidente da Câmara Federal disse que pretende votar a nova lei da política nacional de mineração na primeira quinzena de abril.
Como o setor pode se posicionar para ampliar sua licença social e aceitação nas comunidades?
A mineração é um setor que gera prosperidade e ela tem que gerar prosperidade para todo mundo: comunidades, trabalhadores, construtores, nossos empreendedores. A mineração foi capaz de enriquecer alguns dos países mais ricos do mundo como Austrália e Canadá. Para entregar todo o seu potencial, porém, ela precisa estar amparada por instituições, segurança, sustentabilidade e inclusão produtiva. Precisamos trabalhar a diversificação de atividades econômicas para garantir que novas atividades sejam desenvolvidas e a mineração não se torne a única atividade local.
O setor tem crescido na geração de empregos, mas como atrair os profissionais mais jovens?
Precisamos apresentar para os jovens a mineração como um setor altamente intensivo em tecnologia e investimentos, que paga excelente remuneração e permite construir uma carreira na vida. A mineração que as pessoas têm na cabeça ainda é daquelas áreas difíceis, de trabalho difícil, e essa não é mais a realidade da mineração industrial. Estive recentemente no Canadá e conversei com uma pessoa que estava na quarta geração de mineradores, mostrando um senso de orgulho enorme do trabalho. Esse é o senso de pertencimento e comunidade que a gente precisa criar aqui.
O PNM 2050 também destaca a necessidade de diversificação do setor. Como você avalia esse movimento?
É claro que o minério de ferro será sempre um talento do qual não há nenhuma razão para nos envergonharmos. Temos empresas muito qualificadas para extraí-lo e competir globalmente, mas há razões também para perseguir novos projetos que estão em todas as regiões com uma diversidade de produtos cada vez maior. Veja a oferta mineradora da Bahia, que é de uma diversidade impressionante, ou as novas produções de ouro e alumínio em outras regiões. Goiás é outro exemplo de polo minerador. A diversidade é muito bem-vinda. Também chamo a atenção para a responsabilidade social do setor, ao defender que as empresas precisam trabalhar a diversificação das atividades econômicas nas regiões onde operam. Ele deve ajudar a garantir o desenvolvimento de novas vocações e atividades paralelas, promovendo inclusão produtiva para que haja prosperidade contínua para toda a população.
Como encarar os desafios da pesquisa geológica e do financiamento para o setor?
O primeiro desafio é o de pesquisa mineral. A gente vai ter que fazer uma discussão mais profunda de como modernizamos e ampliamos a capacidade de atendimento do Serviço Geológico Brasileiro, com maior participação de investidores privados. Estamos, inclusive, terminando a contratação de um estudo sobre alternativas institucionais. A outra coisa é o financiamento. O mercado brasileiro é sofisticado, mas ainda não compreendeu as características de risco e o tempo de desenvolvimento da mineração. O Ministério da Fazenda analisa alterações tributárias que copiam lições do Canadá e Austrália. Há também um renovado interesse de instituições financeiras brasileiras e de fundos canadenses em procurar novos projetos no Brasil.
A mineração é fundamental para a transição energética, mas ela também precisa se descarbonizar. Isso é um desafio?
Sem dúvida. O Ibram vai contratar uma consultoria para a revisão da emissão de gases de efeito estufa do setor e estamos tratando do entendimento da taxonomia de sustentabilidade do Ministério da Fazenda para incentivar atividades sustentáveis. A mineração brasileira tem um baixíssimo perfil de emissões, se comparado às competidoras globais, e é hoje a maior investidora em conservação florestal do país. Nesse sentido, a mineração é mais solução do que problema para a transição energética.