Em um discurso contundente nesta terça-feira, 23 de junho, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, abriu a London Climate Action Week com um alerta sobre a interdependência entre a crise climática e a segurança energética. O evento, que acontece anualmente, reúne governos, empresas, investidores, academia, organizações da sociedade civil e comunidades de diversas partes do mundo para acelerar a ação climática e fortalecer a cooperação internacional e multissetorial.
Sob o calor recorde que atinge a capital britânica, Guterres não poupou palavras: “Londres não está apenas chamando: ela está cozinhando”, afirmou, comparando os pontos de ruptura do planeta a objetos no espelho de um carro, que estão “muito mais próximos do que parecem”.
Mineração justa
Para o setor global de mineração, o pronunciamento trouxe uma diretriz clara e inédita sobre o papel dos minerais críticos na transição energética. Guterres enfatizou que a revolução das energias renováveis é inevitável, mas que ela não pode ser construída sobre modelos exploratórios do passado.
“Chega de extração sem desenvolvimento”, declarou.
A fala ocorre em um momento em que governos e investidores buscam garantir o acesso a minerais considerados estratégicos para a transição e segurança energéticas globais. A própria ONU reconhece que países em desenvolvimento concentram parte significativa dessas reservas, mas continuam recebendo uma parcela reduzida dos investimentos associados à transição.
Guterres defendeu que países ricos em recursos, como os do continente africano, que detêm 30% dos minerais críticos do mundo e 60% dos melhores recursos solares, não podem continuar sendo apenas exportadores de matéria-prima. “Uma transição justa significa que os países e comunidades em cujas terras estão os minerais críticos do futuro da energia limpa devem partilhar plenamente os seus benefícios”, declarou.
O gargalo dos combustíveis fósseis
Ao defender uma mudança estrutural no modelo energético, Guterres também chamou atenção para os riscos econômicos de permanecer dependente dos combustíveis fósseis.
Segundo ele, a recente instabilidade geopolítica no Oriente Médio provocou “a mãe de todos os choques energéticos”, reforçando a vulnerabilidade das economias ligadas ao petróleo e ao gás.
Para o setor mineral, a mensagem é dupla. De um lado, a ONU sinaliza que a demanda por minerais críticos continuará crescendo à medida que a eletrificação avança. De outro, deixa claro que o mercado exigirá padrões mais elevados de rastreabilidade, responsabilidade social e gestão ambiental.
O secretário-geral da ONU destacou ainda que a energia renovável já se tornou a fonte mais barata e escalável para expansão da oferta elétrica em grande parte do mundo. Segundo ele, mais de 90% da nova capacidade renovável instalada globalmente já apresenta custos inferiores às alternativas fósseis.
Essa mudança tende a fortalecer a posição estratégica da mineração nas próximas décadas. A diferença é que, desta vez, o debate não se limita ao fornecimento de recursos minerais. A discussão passa a incluir quem captura valor ao longo da cadeia, como os benefícios são distribuídos, e de que forma a atividade contribui para o desenvolvimento dos territórios onde ocorre.
“A energia limpa não pode ser construída sobre práticas sujas”, concluiu, reforçando que a mineração de minerais críticos será o motor dessa nova era, desde que pautada pela justiça e pela prosperidade compartilhada.