- O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras (21 milhões de toneladas), mas ainda exporta esses minerais como commodities brutas, sem dominar o beneficiamento e a transformação industrial necessários para agregar valor.
- A China controla 48% das reservas e 70% da produção global, usando esse domínio como instrumento geopolítico, enquanto EUA e UE financiam cadeias autônomas de fornecimento para reduzir dependência.
- O Projeto MagBras e investimentos bilionários do BNDES, Finep e MME buscam estruturar a cadeia completa brasileira de ímãs permanentes, transformando terras raras em insumos críticos para mobilidade elétrica e energia limpa.
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos metálicos essenciais para tecnologias avançadas, como turbinas eólicas, veículos elétricos e equipamentos eletrônicos. Embora sejam abundantes na natureza, são difíceis de extrair e processar economicamente. No cenário global, esses elementos ganharam status estratégico, e o Brasil, que possui a segunda maior reserva mundial, ainda enfrenta barreiras para transformar esse potencial em liderança.
A China concentra 48% das reservas e 70% da produção mundial e domina todas as etapas do processo, do beneficiamento à fabricação de ímãs de alto desempenho, por exemplo. Esses ímãs são essenciais na transição energética, com motores e turbinas de alta eficiência; miniaturização de sistemas eletromecânicos, para aplicações como robótica; além de dispositivos de armazenamento e outros produtos de computação.
Além do papel central em tecnologias limpas, as terras raras são vitais para setores de defesa, aeroespacial, médico e eletrônico. No Brasil, reservas abundantes e únicas, incluindo elementos pesados como o disprósio — escasso fora da China e essencial para ímãs resistentes a altas temperaturas — colocam o país em posição estratégica.
As terras raras são formadas pelo grupo dos lantanídeos, mais o escândio e o ítrio. Esses elementos costumam ser classificados em dois grandes grupos: leves – do lantânio ao samário (lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio e samário) – e pesados, que vão do európio ao lutécio, além do ítrio. Os elementos pesados são utilizados na fabricação de ímãs de alto desempenho, sendo os mais valorizados do mercado. Entre os 17 elementos, apenas um não é encontrado na natureza: o promécio, obtido por meio de engenharia nuclear e usado principalmente em baterias nucleares e fontes portáteis de raios-X.
Disponibilidade de recursos e domínio das tecnologias

Segundo relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a China possui cerca de 44 milhões de toneladas de reservas, o que a torna a maior detentora desses recursos, com 48%. A mina de Bayan Obo, no norte do país, supera de forma expressiva outros depósitos globais. Desde a década de 1980, Pequim investe em uma estratégia de avanço na cadeia produtiva, incluindo patentes sobre processos de refino, que dificultam a entrada de concorrentes.
A União Europeia depende de 80% a 100% da China para os elementos mais leves e 100% para os mais pesados. Nos Estados Unidos, entre 70% e 80% das importações de compostos e metais de terras raras vieram da China nos últimos anos. Essa dependência levou à criação de reservas estratégicas e à aprovação de legislações como a Lei de Matérias-Primas Críticas da UE, que estabelece metas para ampliar a produção interna e financiar projetos considerados estratégicos.
Nos EUA, o Departamento de Defesa financia desde 2020 empresas nacionais para montar uma cadeia de fornecimento autônoma até 2027. Em alguns casos, o recurso já foi usado como instrumento de pressão: em 2019, Pequim ameaçou suspender vendas de terras raras para os EUA em meio à guerra comercial, o que gerou pânico em setores como a indústria automotiva americana.
Aplicações, impacto ambiental e desafios
Em entrevista ao podcast “O Assunto”, o professor Fernando José Gomes Landgraf, da Escola Politécnica da USP, destacou que as terras raras são fundamentais para turbinas eólicas, baterias e motores de carros elétricos, cabos de transmissão de energia, foguetes, equipamentos médicos, sistemas de defesa e eletrônicos avançados, entre outros. O disprósio merece atenção especial, pois garante que ímãs mantenham seu desempenho em altas temperaturas — requisito mandatório para veículos elétricos de última geração.
Do ponto de vista ambiental, a extração desses minerais envolve processos complexos e potencialmente poluentes, exigindo gestão rigorosa de rejeitos e mitigação de impactos. O desafio tecnológico, segundo Landgraf, está no domínio do beneficiamento e na transformação industrial, áreas nas quais o Brasil ainda é limitado, exportando parte de suas terras raras como commodities brutas.
Estratégias do Brasil
O país detém cerca de 21 milhões de toneladas em reservas — aproximadamente 23% do total global estimado pelo USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos) no início de 2025 — e condições favoráveis para se tornar líder na produção de insumos críticos para a transição energética.
Entre as iniciativas em andamento, destaca-se o Projeto MagBras (Demonstrador Industrial do Ciclo Completo de Produção Brasileira de Ímãs Permanentes de Terras Raras), liderado pelo Senai, para criar uma cadeia completa de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro, do beneficiamento à reciclagem. O objetivo é estruturar a cadeia produtiva nacional para fabricar ímãs essenciais para setores como mobilidade elétrica e energia limpa. O projeto conta com um investimento total de R$ 73 milhões e reúne 28 empresas (incluindo 12 mineradoras), sete instituições de ciência e tecnologia (ICTs) e três fundações.
Outro exemplo são novas linhas de financiamento e chamadas públicas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e Ministério de Minas e Energia (MME), com valores bilionários, voltadas para pesquisas minerais e implantação de plantas industriais.
Mais medidas incluem a emissão de debêntures incentivadas para projetos ligados à transformação de minerais estratégicos, sustentada por um decreto de 2023, e estudos do Serviço Geológico Brasileiro para mapear novas áreas e viabilizar a extração a partir de rejeitos de mineração.
Geopolítica das terras raras
A importância geopolítica das terras raras já foi ressaltada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que afirmou que o interesse dos Estados Unidos nos minerais brasileiros estaria ligado a um plano para reduzir a dependência da China.
Empresas de outros países, contudo, também exploram o potencial brasileiro. A australiana Enova Mining, por exemplo, anunciou resultados promissores em seu Projeto East Salinas, em Minas Gerais, com ensaios de fragmentos de rocha apresentando alto teor de terras raras, chegando a 2,17% de óxidos de terras raras totais (TREO).
Essas amostras também revelaram altas proporções de óxido de neodímio-praseodímio e concentrações significativas de óxidos de terras raras pesados (HREO), indicando um potencial sistema mineralizado extenso e de alto valor.
Entre as mineradoras em estágios avançados, a canadense Aclara Resources, listada na bolsa de Toronto, planeja investir US$ 599 milhões em Goiás e busca contratos com montadoras como Ford, GM e Stellantis.
As australianas Meteoric Resources e Viridis Mining and Minerals também são destaque. A primeira estima o custo de seu projeto em Poços de Caldas (MG) em US$ 440 milhões, um valor cinco vezes menor que o de um projeto similar em rocha dura. Já a Viridis Mining and Minerals planeja, além da mineração, reciclar ímãs.
Entre as companhias brasileiras, o grupo Cabo Verde Mineração possui 57 direitos minerários, que somam mais de 91 mil hectares para extração de terras raras em fase de pesquisa. As investigações recentes identificaram alvos regionais que abrangem 36,1 mil hectares em três municípios: Muzambinho/MG (14,6 mil ha), Campestre/MG (12 mil ha) e Caconde/SP (9,5 mil ha), conforme noticiou a Revista Mineração.
Em Caconde, bem na divisa de São Paulo com Minas Gerais, o potencial preliminar é de 100 milhões de toneladas de argila iônica. Mas a mineradora também tem operações de minério de ferro na Mina Catumbi, localizada no limite entre Muzambinho e Cabo Verde/MG, local onde a continuidade dos trabalhos dedicados às terras raras pode detalhar de três a quatro novos alvos de extração. Nesse cenário, o potencial passaria de 500 milhões de toneladas de argilas enriquecidas com ETRs.