Locomotiva a diesel na Estrada de Ferro Vitória a Minas usando etanol, promovendo a descarbonização do transporte na mineração e mostrando inovação sustentável
Locomotiva da Wabtec na Estrada de Ferro Vitória a Minas (Foto: Cristiano Oliveira/ Vale)

Otimização do transporte alavanca competitividade e descarbonização na mineração

Parcerias com fornecedores de navios e trens trazem alternativas de combustíveis mais eficientes e sustentáveis

Por Redação, 3 min de leitura

Publicado em 04/03/2026

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Dois novos contratos da Vale, anunciados no final de 2025, convergem a estratégias de eficiência operacional e sustentabilidade nos transportes terrestre e marítimo. A mineradora assinou contratos de afretamento de longo prazo com a chinesa Shandong Shipping Corporation para a construção de dez navios Guaibamax de segunda geração que terão motores biocombustíveis e serão montados em estaleiros chineses definidos pelo armador, com entrega prevista a partir de 2027. As novas embarcações reúnem tecnologias que geram economia de até 15% se comparados aos da primeira geração, que operam desde 2019.

A companhia também firmou um acordo pioneiro com a Wabtec para testar o uso de etanol em locomotivas da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM).

O transporte é um fator decisivo tanto para a competitividade comercial quanto para a pegada ambiental da mineração. No caso do minério de ferro, a geografia impõe uma desvantagem ao Brasil. Enquanto a menor distância entre a Austrália e a China é de cerca de 6,2 mil quilômetros, o trajeto entre o Porto de Tubarão, no Espírito Santo, e o porto chinês de Ningbo-Zhoushan chega a 17,8 mil quilômetros. Ao longo dos anos, a empresa buscou compensar esse fator por meio de ganhos de escala, eficiência logística e desenvolvimento tecnológico.

Segundo o Guia de Eficiência Energética do Ibram, embora a cominuição concentre o maior consumo de eletricidade, o transporte responde por cerca de 50% do consumo total de energia do conjunto de operações na mineração  e é o principal emissor direto de gases de efeito estufa. Isso ocorre porque a movimentação de minério depende majoritariamente de motores a diesel, classificados no guia como consumidores intensivos de energia. Cada litro de diesel queimado, segundo o documento, equivale à emissão de aproximadamente 2,7 kg de CO₂.

Parcerias como estratégia de desenvolvimento tecnológico

A Vale e a Petrobras, por meio da Petrobras Singapore, fecharam parceria comercial para o abastecimento de um navio afretado pela mineradora com Very Low Sulfur (VLS) B24, combustível marítimo com 24 % de biodiesel de segunda geração
A Vale e a Petrobras, por meio da Petrobras Singapore, fecharam parceria comercial para o abastecimento de um navio afretado pela mineradora com Very Low Sulfur (VLS) B24, combustível marítimo com 24 % de biodiesel de segunda geração (Foto: Divulgação/ Petrobras)

Diante desse cenário, a Vale tem adotado uma estratégia recorrente de desenvolver soluções em parceria com fornecedores. O objetivo é reduzir riscos, acelerar a curva de aprendizado e adaptar inovações às condições específicas de suas operações, que envolvem grandes volumes, longas distâncias e ativos críticos como ferrovias e frota marítima.

Esse modelo já foi aplicado em gerações anteriores de navios e agora se estende também ao transporte ferroviário. Ao participar do desenvolvimento tecnológico, a companhia busca ganhos estruturais de eficiência que se refletem tanto no custo “all in” do produto quanto nas metas de descarbonização de longo prazo.

Nova geração de navios mais sustentáveis

Os novos navios encomendados pela Vale terão motores bicombustíveis, aptos a operar com bunker (combustível de navegação) ou metanol, e já sairão preparados para futuras adaptações ao uso de gás natural liquefeito (GNL) e amônia, dentro de uma estratégia multicombustível. A Vale também avalia o uso de etanol na navegação. O projeto incorpora ainda tecnologias como velas rotativas, pinturas especiais para redução de atrito no casco e inversores de frequência em sistemas auxiliares e de geração de energia que ajustam a potência do maquinário conforme a necessidade operacional.

Com capacidade para 325 mil toneladas e dimensões menores que os Valemax – que transportam até 400 mil toneladas -, os Guaibamax oferecem maior flexibilidade operacional, podendo operar em portos onde os maiores navios não atracam. Hoje, a frota a serviço da Vale soma cerca de 170 embarcações, responsáveis por mais de mil embarques anuais e pelo transporte de aproximadamente 320 milhões de toneladas de minério.

Etanol na tração ferroviária

No modal ferroviário, a Vale firmou com a Wabtec um acordo inédito para o desenvolvimento de um motor flex, capaz de operar com diesel e uma mistura de diesel e etanol. Os testes iniciais serão realizados em laboratório até 2027, com foco em desempenho, redução de emissões e viabilidade de uso futuro na EFVM. A malha ferroviária da Vale  responde pelo maior consumo de combustíveis e representa 14% das emissões de carbono da companhia, segundo dados de 2024.

A iniciativa faz parte de um conjunto mais amplo de parcerias entre as duas empresas. Em março, a Vale anunciou a compra de 50 locomotivas preparadas para operar com até 25% de biodiesel, percentual que ainda pode ser ampliado em testes futuros. O uso do etanol, combustível renovável amplamente disponível no Brasil, é visto como um passo adicional na busca por alternativas ao diesel fóssil. Em 2025, as ferrovias sob concessão da Vale no Brasil, EFC e EFVM, atingiram o melhor nível de eficiência energética em 10 anos. O consumo total de diesel ficou 11 milhões de litros abaixo do previsto , o que evitou a emissão de 28 mil toneladas de CO₂.