bg
Painel de discussão na ExpoBrasil 2025 com Henrique Carballal, Alfredo Santana, Brian Leeners e Emerson das Neves Souza
Da esquerda para a direita: Henrique Carballal, Alfredo Santana, Brian Leeners, Emerson das Neves Souza (Foto: Vale)

“Tudo que diz respeito a mineral crítico é crítico”

A frase é de Brian Leeners, da Homerun Resources, e sintetiza o espaço que o Brasil e, em especial, a Bahia podem ocupar

Por Rodrigo Conceição Santos, 5 min de leitura

Publicado em 31/10/2025

Baixar PDF Copiar link

Entre os grandes projetos de mineração em andamento no país está o da Brazil Iron, para produção de HBI (Hot Briquetted Iron), no interior da Bahia. Orçado em US$ 5,7 bilhões, ele tem potencial de gerar mais de 55 mil empregos. A intenção é produzir um ferro de alta pureza, necessário para a descarbonização da indústria do aço. 

O HBI vem sendo chamado de “ferro verde”, em razão de seu processo de produção, que “é verde para trás e para frente”, como definiu Emerson Souza, CEO da Brazil Iron. “Para trás porque elimina totalmente qualquer emissão de gases de efeito estufa, operando com energia renovável em toda a cadeia. Para frente em função do resultado que gera com o produto final”, completou. 

Emerson das Neves Souza em traje formal com cabelo e barba grisalhos, usando fone de ouvido, participando de evento ou debate, com fundo azul e detalhes coloridos.
Emerson das Neves Souza, Vice-Presidente de Relações Institucionais na Brazil Iron Limited (Foto: Vale)

Ao produzir aço livre de carbono, portanto, a mineração e a siderurgia ajudam setores produtivos como as montadoras de automóveis e a construção civil no processo de descarbonização. “E queremos posicionar o Brasil e a Bahia no cenário de descarbonização global”, disse Souza.

A planta da Brazil Iron está em implantação entre Piatã, Jussiape e Abaíra, na Bahia, e será abastecida de energia 100% renovável. Com isso, deve funcionar sem a emissão de gases de efeito estufa. Nesse caso, diversos pontos do processo produtivo foram pensados taticamente, como o transporte interno, que será feito por correias transportadoras elétricas em vez de caminhões. 

O cronograma prevê início da produção em 2030. Três unidades industriais e um terminal ferroviário compõem o projeto e, só a terceira planta, que faz a transformação final do minério em ferro verde, demandará mais de US$ 1 bilhão em investimentos. “[Demanda existe e a prova disso é que] Duas empresas já adquiriram dez anos de produção antes mesmo do início da operação”, disse Souza. 

A relevância ambiental do projeto se apoia no dado de que mais de 8% das emissões de CO₂ vêm da indústria do aço. A alternativa tecnológica para reduzir essas emissões é substituir os fornos a carvão por fornos de arco elétrico, mas, pelo que se conhece até o momento, apenas 3% do ferro disponível no mundo tem qualidade para esse tipo de produção, segundo o executivo da Iron. “E a Bahia é abençoada por ter em grande quantidade esse minério”, completou.

Não é só o solo, é o baiano

Para o presidente da Companhia Baiana de Produção Mineral (CBPM), Henrique Carballal, o estado da Bahia vem ganhando destaque – e vai avançar mais – no cenário de mineração verde não exclusivamente pelo solo, rico em diversos minerais: “Não é o solo, é o povo”, disse. Carballal defende que o efeito multiplicador da mineração deve ser medido pelo impacto social e econômico gerado e, “mais importante que qualquer riqueza que tenhamos, é o que ela [mineração] representa para as pessoas. O desafio é conectar o potencial mineral com o desenvolvimento regional”.

Henrique Carballal usando fone de ouvido e blazer escuro, falando ao microfone em evento de língua inglesa, com tela ao fundo mostrando canais de tradução.
Henrique Carballal, Presidente da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) (Foto: Vale)

Entre outros avanços, ele destacou que, a partir do ano que vem, a Bahia se tornará autossuficiente na produção de fertilizantes fosfatados, deixando de depender de importações. “Com isso, o estado passará a produzir 30% do que o Norte e o Nordeste consomem desse tipo de fertilizante”, disse. Ele se refere a grandes projetos de mineração de fertilizantes no estado, como os da Mosaic e da Galvani.

A Bahia também é destaque na produção de silício, base dos painéis de energia solar, pois a Homerun Resources anunciou a instalação da primeira fábrica de vidro solar verticalizada do Brasil, o que também deve reduzir a dependência de importação. “Estamos em uma das maiores jazidas de sílica do mundo”, explicou Brian Leeners, CEO da Homerun. 

Brian Leeners em evento profissional usando fone de ouvido, sentado em cadeira com fundo azul de painel de conferência, com bandeira do Canadá ao lado.
Brian Leeners, CEO – Homerun Resources Inc (Foto: Vale)

O executivo lembrou que 88% dos gases de efeito estufa emitidos na última década vieram da queima de combustíveis fósseis e a energia renovável é o substituto natural para isso. “O Brasil está bem posicionado para se beneficiar do movimento global. Mas tudo que trata de material crítico é crítico”, advertiu.

Por isso, a estratégia da Homerun, segundo Leeners, não é vender o minério como matéria-prima, mas sim “produzir sílica para alimentar a nossa própria linha de produção, pois [além de fortalecer o mercado interno] vender o insumo seria fortalecer os competidores”.

Cobre e níquel no foco da Vale

Na Vale Base Metals, subsidiária da Vale que concentra as operações de metais fundamentais para a transição energética, como níquel, cobre e cobalto, a meta é expandir projetos e fortalecer a produção por meio de excelência operacional. Recentemente, a companhia reestruturou sua gestão para descentralizar decisões e dar mais autonomia às operações locais, o que já traz resultados, como detalhou Alfredo Santana, COO da companhia.

Alfredo Santana, empresário, sorrindo, participando de evento com fundo azul, usando terno e ouvindo fones de ouvido.
Alfredo Santana, COO (Chief Operating Officer), Vale Metais Básicos (Foto: Vale)

É o caso de Onça Puma, no Pará, que ampliou em 60% a produção desde setembro deste ano, chegando à capacidade de 40 mil toneladas anuais de níquel. Em cobre, as minas de Sossego e Salobo também aumentam a produção, que, hoje, já supera 350 mil toneladas e deve chegar a 420 mil até 2030. “Até 2035, a Vale Base Metals alcançará a produção de 700 mil t/a no Brasil, colocando o país em outro patamar [no mercado global de cobre]”.

O Brasil dos minerais críticos e da falta de capacitação

Com 90% das reservas conhecidas de nióbio, a segunda maior reserva de terras raras do mundo, além do ferro de alto teor, do cobre, do níquel e outros minerais, o Brasil tem apenas 27% do seu território mapeado para mineração e isso, para Henrique Carballal, demonstra só uma parte do potencial de exploração: “Ainda temos todo o território marítimo. Precisamos falar mais sobre mineração marinha”, disse, comparando que, assim como desacreditaram do pré-sal e hoje temos um mercado consolidado, a mineração pode ganhar grandes projetos no oceano.

Mas, para transformar potencial em resultado, será preciso avançar na regulação e nos processos de licenciamento. “A onda de investimentos externos está aí”, observou Carballa. “O desafio não é falta de capital, mas sim acelerar sem perder o rigor ambiental. Capital existe, e de maneira abundante.”

Emerson Souza, da Brazil Iron, completou que o avanço da mineração verde exigirá mais do que recursos financeiros e os recursos existem: “O problema não é falta de vontade de fazer, é falta de braço. A quantidade de técnicos necessários é enorme, e o estado tem dificuldade em sustentar essa formação”, disse. Para ele, a solução passa por parcerias entre o governo, universidades e setor privado.

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.