Entre os grandes projetos de mineração em andamento no país está o da Brazil Iron, para produção de HBI (Hot Briquetted Iron), no interior da Bahia. Orçado em US$ 5,7 bilhões, ele tem potencial de gerar mais de 55 mil empregos. A intenção é produzir um ferro de alta pureza, necessário para a descarbonização da indústria do aço.
O HBI vem sendo chamado de “ferro verde”, em razão de seu processo de produção, que “é verde para trás e para frente”, como definiu Emerson Souza, CEO da Brazil Iron. “Para trás porque elimina totalmente qualquer emissão de gases de efeito estufa, operando com energia renovável em toda a cadeia. Para frente em função do resultado que gera com o produto final”, completou.

Ao produzir aço livre de carbono, portanto, a mineração e a siderurgia ajudam setores produtivos como as montadoras de automóveis e a construção civil no processo de descarbonização. “E queremos posicionar o Brasil e a Bahia no cenário de descarbonização global”, disse Souza.
A planta da Brazil Iron está em implantação entre Piatã, Jussiape e Abaíra, na Bahia, e será abastecida de energia 100% renovável. Com isso, deve funcionar sem a emissão de gases de efeito estufa. Nesse caso, diversos pontos do processo produtivo foram pensados taticamente, como o transporte interno, que será feito por correias transportadoras elétricas em vez de caminhões.
O cronograma prevê início da produção em 2030. Três unidades industriais e um terminal ferroviário compõem o projeto e, só a terceira planta, que faz a transformação final do minério em ferro verde, demandará mais de US$ 1 bilhão em investimentos. “[Demanda existe e a prova disso é que] Duas empresas já adquiriram dez anos de produção antes mesmo do início da operação”, disse Souza.
A relevância ambiental do projeto se apoia no dado de que mais de 8% das emissões de CO₂ vêm da indústria do aço. A alternativa tecnológica para reduzir essas emissões é substituir os fornos a carvão por fornos de arco elétrico, mas, pelo que se conhece até o momento, apenas 3% do ferro disponível no mundo tem qualidade para esse tipo de produção, segundo o executivo da Iron. “E a Bahia é abençoada por ter em grande quantidade esse minério”, completou.
Não é só o solo, é o baiano
Para o presidente da Companhia Baiana de Produção Mineral (CBPM), Henrique Carballal, o estado da Bahia vem ganhando destaque – e vai avançar mais – no cenário de mineração verde não exclusivamente pelo solo, rico em diversos minerais: “Não é o solo, é o povo”, disse. Carballal defende que o efeito multiplicador da mineração deve ser medido pelo impacto social e econômico gerado e, “mais importante que qualquer riqueza que tenhamos, é o que ela [mineração] representa para as pessoas. O desafio é conectar o potencial mineral com o desenvolvimento regional”.

Entre outros avanços, ele destacou que, a partir do ano que vem, a Bahia se tornará autossuficiente na produção de fertilizantes fosfatados, deixando de depender de importações. “Com isso, o estado passará a produzir 30% do que o Norte e o Nordeste consomem desse tipo de fertilizante”, disse. Ele se refere a grandes projetos de mineração de fertilizantes no estado, como os da Mosaic e da Galvani.
A Bahia também é destaque na produção de silício, base dos painéis de energia solar, pois a Homerun Resources anunciou a instalação da primeira fábrica de vidro solar verticalizada do Brasil, o que também deve reduzir a dependência de importação. “Estamos em uma das maiores jazidas de sílica do mundo”, explicou Brian Leeners, CEO da Homerun.

O executivo lembrou que 88% dos gases de efeito estufa emitidos na última década vieram da queima de combustíveis fósseis e a energia renovável é o substituto natural para isso. “O Brasil está bem posicionado para se beneficiar do movimento global. Mas tudo que trata de material crítico é crítico”, advertiu.
Por isso, a estratégia da Homerun, segundo Leeners, não é vender o minério como matéria-prima, mas sim “produzir sílica para alimentar a nossa própria linha de produção, pois [além de fortalecer o mercado interno] vender o insumo seria fortalecer os competidores”.
Cobre e níquel no foco da Vale
Na Vale Base Metals, subsidiária da Vale que concentra as operações de metais fundamentais para a transição energética, como níquel, cobre e cobalto, a meta é expandir projetos e fortalecer a produção por meio de excelência operacional. Recentemente, a companhia reestruturou sua gestão para descentralizar decisões e dar mais autonomia às operações locais, o que já traz resultados, como detalhou Alfredo Santana, COO da companhia.

É o caso de Onça Puma, no Pará, que ampliou em 60% a produção desde setembro deste ano, chegando à capacidade de 40 mil toneladas anuais de níquel. Em cobre, as minas de Sossego e Salobo também aumentam a produção, que, hoje, já supera 350 mil toneladas e deve chegar a 420 mil até 2030. “Até 2035, a Vale Base Metals alcançará a produção de 700 mil t/a no Brasil, colocando o país em outro patamar [no mercado global de cobre]”.
O Brasil dos minerais críticos e da falta de capacitação
Com 90% das reservas conhecidas de nióbio, a segunda maior reserva de terras raras do mundo, além do ferro de alto teor, do cobre, do níquel e outros minerais, o Brasil tem apenas 27% do seu território mapeado para mineração e isso, para Henrique Carballal, demonstra só uma parte do potencial de exploração: “Ainda temos todo o território marítimo. Precisamos falar mais sobre mineração marinha”, disse, comparando que, assim como desacreditaram do pré-sal e hoje temos um mercado consolidado, a mineração pode ganhar grandes projetos no oceano.
Mas, para transformar potencial em resultado, será preciso avançar na regulação e nos processos de licenciamento. “A onda de investimentos externos está aí”, observou Carballa. “O desafio não é falta de capital, mas sim acelerar sem perder o rigor ambiental. Capital existe, e de maneira abundante.”
Emerson Souza, da Brazil Iron, completou que o avanço da mineração verde exigirá mais do que recursos financeiros e os recursos existem: “O problema não é falta de vontade de fazer, é falta de braço. A quantidade de técnicos necessários é enorme, e o estado tem dificuldade em sustentar essa formação”, disse. Para ele, a solução passa por parcerias entre o governo, universidades e setor privado.
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