Quatro pessoas estão sentadas em um palco com microfones durante um painel de discussão em uma conferência, com uma tela grande exibindo informações sobre os palestrantes e detalhes do evento atrás delas. A conversa gira em torno da gestão de pilhas de rejeitos, destacando soluções inovadoras e melhores práticas no manejo dessas pilhas de resíduos no setor.
Da esquerda para a direita: Lauro Ângelo Dias de Amorim, Alina Bendersky Furman, Eliezer Gonçalves Junior e Paula Azevedo de Castro (Foto: IBRAM via Flickr)

Pilhas de rejeitos pedem regras próprias, mas podem aproveitar lições das barragens

Segurança é prioridade e deve caminhar junta à transparência das informações com a população e a coordenação entre os diferentes agentes reguladores, defendem juristas

Por Mariana Sgarioni, 3 min de leitura

Publicado em 16/09/2026

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A legislação para pilhas de rejeitos precisa considerar as características próprias dessas estruturas, e não simplesmente reproduzir as regras aplicadas às barragens. Esse foi um dos principais pontos discutidos no painel “Legislação sobre Disposição de Rejeitos e Regulamentações Correlatas”, que reuniu juristas, representantes da indústria da mineração e da Agência Nacional de Mineração (ANM).

Para os participantes, a experiência acumulada com a regulamentação de barragens pode contribuir para o aperfeiçoamento das normas aplicáveis às pilhas, mas cada estrutura deve ser analisada de acordo com seus riscos e particularidades.

Lauro Ângelo Dias de Amorim, diretor de Licenciamento Ambiental e Assuntos Regulatórios da Vale, colocou a segurança como ponto de partida para a discussão. Segundo ele, também é necessário construir normas eficientes e coordenadas, evitando que diferentes exigências produzam caminhos conflitantes.

Experiência internacional

A experiência chilena foi apresentada como uma referência para a discussão. Alina Bendersky Furman, sócia da Bofill Mir Abogados, baseada em Santiago (Chile), destacou que, no país, a regulamentação considera o tipo de rejeito e os riscos associados a cada estrutura.

No fechamento de minas, os empreendimentos chilenos precisam apresentar previamente um plano de fechamento das minas logo no início do pedido de concessão, com medidas destinadas a garantir a estabilidade física e química do local. A previsão antecipada também permite estabelecer uma garantia financeira e definir os custos relacionados ao encerramento das atividades.

Alina ponderou que a experiência do Chile não deve ser simplesmente reproduzida em outros países.

Alina Bendersky Furman

O Brasil deve considerar a particularidade de cada jurisdição, sei que em alguns casos dá para copiar e colar regulamentações, mas na mineração isso não dá certo”

Alina Bendersky Furman

Ela citou ainda a intensa atividade sísmica do Chile como um fator que contribuiu para a consolidação de regras específicas no país. Para o Brasil, segundo a advogada, é necessário considerar os tipos de eventos climáticos e os riscos existentes no próprio território.

Pilhas exigem olhar específico

A necessidade de diferenciar as estruturas também foi destacada por Eliezer Gonçalves Junior, gerente de Riscos Geotécnicos em Barragens da ANM. Segundo ele, o trabalho desenvolvido desde 2012 consolidou normas relacionadas às barragens e, agora, a atenção se volta às pilhas de rejeitos.

Um homem de terno fala ao microfone enquanto está sentado no palco durante um painel de discussão sobre pilhas de rejeitos, com o público e duas mesinhas laterais à vista.
Eliezer Gonçalves Junior (Foto: IBRAM via Flickr)

O objetivo, segundo Eliezer, é acompanhar a segurança efetiva sem criar barreiras desnecessárias, avaliando também de que forma os documentos e informações exigidos podem contribuir efetivamente para esse controle.

Coordenação entre os órgãos

Paula Azevedo de Castro, sócia da Cescon, Barrieu, Flesch & Barreto Advogados, lembrou que o Brasil já possui legislação sobre pilhas desde 2001 e que o momento atual representa uma atualização desse arcabouço a partir do aprendizado obtido com as barragens.

Para ela, a segurança depende menos da divisão de competências do que da capacidade dos diferentes órgãos de atuarem de forma integrada. Se a mineração é uma atividade de interesse nacional, afirmou, a harmonia entre os órgãos responsáveis deve fazer parte desse processo.

Paula Azevedo de Castro

Se cada agente trouxer sua expertise para a mesa, podemos construir uma legislação consolidada.”

Paula Azevedo de Castro

Comunicação com a sociedade

A relação com as comunidades também apareceu como parte do debate sobre segurança. Questionado sobre como ajudar a sociedade a compreender que os riscos estão sendo controlados, Eliezer reconheceu que a comunicação técnica nem sempre alcança quem está fora do setor.

Segundo ele, especialmente entre pessoas afetadas por acidentes com barragens, a percepção de risco é marcada pela experiência vivida e por um contexto social que pode aumentar a insegurança. Por isso, é necessário tornar mais compreensível a informação sobre as medidas adotadas para garantir a segurança.

Paula também defendeu maior compartilhamento de informações. Segundo ela, o risco precisa ser discutido para ser compreendido e desmistificado. A advogada destacou ainda a necessidade de ampliar a comunicação sobre mineração, inclusive nas escolas, para aproximar a sociedade da realidade das atividades do setor.

Para Lauro Amorim, essa aproximação precisa partir do reconhecimento de que as empresas atuam em territórios onde vivem comunidades que devem ser ouvidas e consideradas no processo.

Um homem de terno está sentado segurando um microfone, usando óculos e fones de ouvido. Ele parece estar falando em um evento ou painel de discussão, possivelmente abordando temas como pilhas de rejeitos. Um cordão com um crachá está pendurado em seu pescoço. O fundo está pouco iluminado.
Lauro Ângelo Dias de Amorim (Foto: IBRAM via Flickr)
"Precisamos reconhecer que estamos em comunidades que nos hospedam temporariamente. E é importante compreendermos suas dúvidas. Estamos em uma jornada, por isso temos que ter conversas francas e diretas. Esta aproximação vai trazer resultados. Queremos ser desejados pelas comunidades e não apenas tolerados." — Lauro Ângelo Dias de Amorim