A presença de minerais críticos e de energia renovável favorece o Brasil na adoção da estratégia de powershoring, modelo de atração de investimentos de indústrias de alta intensidade energética. Essa é uma das conclusões do relatório Minerais críticos e estratégicos no Brasil: passaporte para o futuro, publicação do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), em parceria com o Instituto Brasileiro da Mineração (Ibram).
Além das duas condições citadas acima, o powershoring também demanda infraestruturas portuárias, zonas industriais e disponibilidade de água doce, entre outros fatores críticos, na avaliação dos especialistas.
Potencial do nióbio para powershoring
Um dos exemplos citados no relatório envolve o nióbio, do qual o Brasil detém mais de 95% das reservas mundiais. Em 2024, a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) inaugurou a maior fábrica mundial de ânodos com base nesse mineral, apontando o que pode ser um modelo para outros minerais críticos.
De acordo com o Cetem, a CBMM lidera mais de 40 projetos focados em soluções para baterias, envolvendo dezenas de milhões de reais exclusivamente para a inovação neste setor e com potencial de impulsionar a transição energética.
Tecnologicamente, o nióbio possui aplicações de alto impacto para veículos elétricos, atuando principalmente como um substituto do grafite em baterias de íon-lítio, com o diferencial de permitir a recarga super-rápida e maior segurança ao eliminar os riscos de explosão do equipamento.
A cadeia do nióbio tem ainda um exemplo prático de inovação, que foi o lançamento, em 2024, dos testes com ônibus elétrico (e-bus) de recarga super-rápida, desenvolvido por meio de uma parceria entre CBMM, Toshiba e Volkswagen.
As iniciativas citadas ilustram como o país pode superar a posição de exportador de recursos primários e assumir a liderança no fornecimento de tecnologias sustentáveis, gerando emprego, renda e garantindo a resiliência das cadeias globais na nova economia verde.
Para os especialistas, isso pode ser feito com o investimento no refino e na transformação química dos minerais (midstream) e na fabricação de tecnologias finais (downstream), como baterias de íons de lítio, eletrolisadores, semicondutores e painéis solares.
O relatório aponta ainda que, se o país promover essa industrialização sustentável, combinada com a recuperação de materiais via economia circular, poderá transitar para a posição de um dos grandes “vencedores” geoeconômicos da transição verde. Outro benefício é geopolítico, uma vez que o processamento global de minerais essenciais para tecnologias limpas atualmente está fortemente concentrado na China.
Minerais críticos ou estratégicos?
Além do potencial de powershoring, outro destaque do relatório é o estabelecimento da diferenciação entre minerais críticos e estratégicos. Para os especialistas do Cetem, a diferença principal reside na disponibilidade das reservas e nos riscos associados ao fornecimento para a economia.
Embora ambos sejam fundamentais para tecnologias de descarbonização e transição energética, os dois grupos são avaliados sob perspectivas distintas:
Minerais críticos
São aqueles definidos pela importância no âmbito global e pelo risco de quebra de suprimento. Para o Brasil, os minerais são classificados como críticos quando não possuem reservas nacionais significativas para suprir a demanda, quando geram alta dependência de importação em diferentes estágios da cadeia de valor e quando apresentam risco de escassez global ou quebra na cadeia de fornecimento.
Exemplos no Brasil são o potássio e o fosfato, ambos com alto grau de criticidade, visto que o país depende fortemente de importações para garantir o suprimento de fertilizantes à base desses minerais para produção agrícola e segurança alimentar.
Minerais estratégicos
São aqueles vinculados à dinâmica de oferta e demanda nacionais, apresentando grande potencial econômico, tecnológico e comercial para o país.
Eles se destacam por possuírem reservas nacionais abundantes e grande potencial de produção interna, além de alta demanda para exportação, seja na forma bruta ou seja na beneficiada.
Outra característica desse grupo é a forte importância econômica interna para a fabricação de produtos de alta tecnologia e para o adensamento da cadeia produtiva local.
Entre os exemplos do Brasil destacam-se o já citado nióbio, além do alumínio, da grafita, do ferro e dos elementos de terras raras. O nióbio e a grafita atingiram alto grau de maturidade no país graças a investimentos de longo prazo em pesquisa e desenvolvimento, permitindo a produção de bens de maior valor agregado.
