O Fórum LIDE Mineração reuniu, nesta sexta-feira (28), empresários, especialistas e autoridades na Casa LIDE, em São Paulo, para debater gargalos, soluções e o futuro da indústria mineral brasileira. O painel de abertura tratou do “Protagonismo do Brasil em minerais críticos e estratégicos: oportunidades e desafios”.
O debate reuniu Gustavo Pimenta (CEO da Vale), Pablo Cesário (presidente do Instituto Brasileiro de Mineração – IBRAM), a ex-senadora e ex-ministra Kátia Abreu (conselheira da Sigma Lithium) e Bruno Meyer (head do LIDE Conteúdo), sob a moderação de Helga Franco (diretora de Relações Institucionais Federal da Vale).
Diagnóstico da oferta e do mapeamento geológico
Construindo uma ponte com as discussões iniciadas na Exposibram no início da semana, Gustavo Pimenta alertou para o gargalo estrutural enfrentado pela mineração mundial diante de megatendências globais, como a inteligência artificial e a transição energética:
Não temos problema de demanda, a demanda é infinita. O nosso grande problema é a oferta: a dificuldade de atender e trazer esses minerais para o mercado. Tudo o que a gente decidir fazer hoje só fica pronto daqui a 15 anos, se a gente conseguir acelerar
Gustavo Pimenta, CEO da Vale
Pimenta destacou que o Brasil vem ficando para trás em relação a concorrentes diretos, como a Austrália. Atualmente, a mineração representa apenas 4% do PIB nacional e meros 28% do território brasileiro contam com mapeamento geológico conhecido.
Completando o diagnóstico, Pablo Cesário ressaltou que o setor precisa assumir um papel de maior protagonismo social, além de buscar o fortalecimento do financiamento público-privado para a pesquisa mineral. Ao fazer um balanço da Exposibram 2026, encerrada na véspera, o presidente do IBRAM destacou o momento de virada da indústria:
“Pela primeira vez, os participantes do setor estavam se olhando no espelho. O IBRAM fez o palco, mas quem fez a feira foi o setor. Parece que o setor levantou a cabeça; falta esticar o corpo para reconhecer o papel que ele próprio tem na sociedade”, pontuou.

Cesário defendeu ainda o avanço de incentivos fiscais e o lançamento de novos editais de apoio por meio de entidades como Finep e Embrapii: “Para cada mil anomalias que a gente encontra, só uma vai dar resultado. Precisamos reconhecer que os gastos em pesquisa fazem parte do projeto e têm que ter tratamento tributário adequado”, defendeu.
Agromineração, segurança jurídica e regulamentação
A sinergia entre o agronegócio e a mineração também esteve no centro dos debates. A ex-ministra Kátia Abreu defendeu a urgência de simplificar o licenciamento ambiental e desburocratizar o setor sem amarras ideológicas:
Todo mundo acha minério lindo — ‘nossa, o Brasil é riquíssimo em minério’ —, mas esquece que tem de minerar, que tem de tirar o produto do chão. E potencial não é PIB: potencial é potencial, PIB é PIB. Para virar PIB, tem de tirar do chão.
Kátia Abreu, conselheira da Sigma Lithium
A conselheira da Sigma Lithium criticou a falta de parâmetros regulatórios claros e a excessiva burocracia para a atuação em áreas específicas, como territórios quilombolas e terras indígenas. Como alternativa, citou o modelo canadense, no qual as comunidades originárias participam como sócias dos empreendimentos minerários:
“Queremos que os indígenas e quilombolas brasileiros usufruam dessa riqueza gerada, em vez de serem mantidos isolados e sem assistência. Falta normatizar e regulamentar com clareza para que as empresas continuem trabalhando e gerando renda”, completou.

Tecnologia, automação e formação profissional
A interação com a plateia trouxe ao palco questionamentos sobre produtividade e modernização das operações no campo. Os participantes abordaram a construção de uma agenda conjunta entre mineradoras, governo e empresas de tecnologia voltada ao uso de automação, inteligência artificial e rastreabilidade na agregação de valor aos minerais críticos.
Em resposta, Gustavo Pimenta apresentou iniciativas recentes de inovação da Vale — como a operação 100% autônoma na mina de Brucutu e projetos de reprocessamento de rejeitos em pilhas históricas, a exemplo de Capanema. O executivo ressaltou que o avanço tecnológico anda de mãos dadas com a capacitação técnica:
“A tecnologia é fundamental para reduzir a pegada ambiental, aumentar a segurança e a eficiência. Mas hoje enfrentamos uma dor real: capacitação de engenharia. Precisamos desmistificar a indústria para a nova geração, mostrando que ela é altamente tecnológica e essencial para o mundo”, observou.
As quatro agendas prioritárias para o país
Para consolidar essa visão de futuro, a Vale apresentou no evento um estudo desenvolvido em parceria com a consultoria Accenture Brasil, elencando quatro eixos estratégicos para destravar o potencial mineral do país:
- Licenciamento célere e rigoroso: Modernização de normas antigas (como o Decreto de Cavidades) e aceleração da digitalização de processos.
- Cadeia mineral integrada (downstream): Incentivo ao processamento local e viabilização de insumos fundamentais — como gás natural a preços competitivos — para viabilizar a produção do “aço verde”.
- Ambiente de negócios e estabilidade fiscal: Garantia de previsibilidade tributária para projetos com ciclo de investimento de longo prazo (30 a 40 anos) e fortalecimento da Agência Nacional de Mineração (ANM).
- Valor compartilhado: Implementação de modelos inclusivos com retorno direto às comunidades locais, manutenção da floresta em pé e valorização da reputação do setor.
De acordo com o estudo, a efetivação dessas quatro agendas nos próximos dez anos projeta dobrar a arrecadação de royalties e contribuições do setor mineral de R$ 74 bilhões para R$ 130 bilhões, além de impulsionar a criação de 2 milhões de novos empregos na cadeia produtiva expandida do Brasil.