O lítio consolida-se como um dos minerais mais estratégicos para a transição energética global. Em 2025, esse mercado movimentou US$ 437 milhões, e deve alcançar US$ 658 milhões até 2034, segundo levantamento da Fortune Business Insights. A demanda é impulsionada principalmente pela produção de baterias para veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.
No Brasil, o setor vive uma expansão consistente. Em 2023, o país produziu 15.193 toneladas de óxido de lítio, ocupando a quinta posição mundial. As reservas brasileiras somam cerca de 590 mil toneladas, concentradas principalmente no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. O estado já figura entre os principais polos de faturamento com o mineral, e os investimentos previstos até 2030 somam R$ 15 bilhões. Além das baterias, o lítio é utilizado em cerâmica, ligas metálicas, lubrificantes e medicamentos, o que amplia sua relevância industrial e científica.
Corrida global do lítio
A transição energética tem levado a geopolítica do lítio à ebulição. A concentração da produção em poucos países aumenta os riscos de choques de oferta. Segundo dados da IEA, a China, na quarta colocação, responderá por 28% da produção de lítio, seguida pela Austrália (26%) e pelo Chile (12%). Mas há uma diferença importante: na etapa de refino, a China manterá a dianteira em 2030, com 62% do total, enquanto o Chile terá 13% e a Argentina, 11%.
No Brasil, o lítio é encontrado em depósitos de rochas ígneas conhecidas como pegmatitos, diferentemente das salmouras evaporíticas, onde ocorre na forma de sais dissolvidos. Nos pegmatitos, o lítio está incorporado na estrutura cristalina de determinados minerais e, a partir deles, é processado e concentrado para a produção de compostos químicos como hidróxido de lítio (LiOH) e carbonato de lítio (Li₂CO₃).
O Brasil é considerado um player emergente no mercado de lítio. O país possui reservas localizadas principalmente nos estados de Minas Gerais (Vale do Jequitinhonha) e Bahia. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), os recursos e reservas brasileiras podem alcançar cerca de 1 milhão de toneladas. Projeções do Banco Mundial indicam que a demanda global por lítio pode crescer quase 1.000% até 2050.
Demanda global e preços

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda geral por lítio triplicou ao longo da última década, pressionando os preços em diferentes momentos. Em 2023, o carbonato de lítio ultrapassou a marca de US$ 75 mil por tonelada no mercado chinês, antes de sofrer queda devido à oscilação da produção automotiva. Meses depois, os preços recuaram com o ajuste entre oferta e demanda, refletindo a volatilidade do mercado.
Diante desse cenário, grandes montadoras como Tesla, BYD e Volkswagen anunciam contratos e investimentos bilionários para garantir o fornecimento de lítio. No Brasil, o setor também atrai investimentos: a Sigma Lithium, por exemplo, investiu mais de US$ 160 milhões em projetos de extração, consolidando o país como ponto estratégico para o desenvolvimento da cadeia mundial de lítio.
Desafios e impactos da mineração de lítio
A extração de lítio envolve desafios sociais e ambientais. Um dos principais pontos de atenção é o elevado consumo de água. Em regiões secas, como o Salar de Atacama, no Chile, são usados cerca de 500 mil galões de água (cerca de 1,8 milhão de litros) para cada tonelada de lítio produzida. Em uma região onde a precipitação anual é inferior a 15 milímetros, essa atividade pressiona severamente os recursos hídricos, afetando comunidades e ecossistemas locais.
Do ponto de vista social, comunidades tradicionais em regiões ricas em lítio frequentemente enfrentam impactos socioeconômicos, especialmente nos países andinos e também no Vale do Jequitinhonha.
Nesse cenário, diversas empresas do setor trabalham com aspectos ESG ampliados, incluindo processos de reutilização de água. No Brasil, projetos já incorporam o uso de energia renovável nas operações, reduzindo a pegada ambiental da atividade.
Políticas públicas e regulação
Governos ao redor do mundo têm incentivado a exploração sustentável de lítio, além de estratégias para reciclagem. No Brasil, iniciativas previstas no Plano Nacional de Mineração 2050 buscam fortalecer a governança do setor, com o objetivo de consolidar o país como fornecedor estratégico do metal para aplicações tecnológicas e ambientais.
A pesquisa avança para baterias de estado sólido e tecnologias de reciclagem, que tendem a transformar o setor. Empresas brasileiras já estudam métodos para maximizar esse reaproveitamento, reduzindo a dependência da extração primária.
Para o diretor da Agência Nacional de Mineração (ANM), Caio Trivellato, “o lítio já é parte do presente da transição energética. Nosso papel como agência reguladora é garantir segurança jurídica, previsibilidade e apoio técnico aos municípios e investidores, fomentando um modelo de mineração que gere desenvolvimento e legado positivo”, disse Trivellato durante evento em Minas Gerais.
O coordenador de Economia Mineral da ANM, João Vasconcelos, acredita no papel do Brasil para o abastecimento global de minerais estratégicos. “A demanda por lítio e outros minerais críticos deve se multiplicar nos próximos anos. O Brasil tem reservas expressivas e capacidade regulatória para ser protagonista, mas isso exige integração entre planejamento, política pública e infraestrutura. Nossa missão é prover inteligência técnica e institucional para esse avanço”, apontou Vasconcelos.
O Vale do Lítio no Brasil
O Brasil desponta como um hub promissor para a produção de lítio graças às extensas reservas localizadas no chamado Vale do Lítio, que abrange municípios no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. A região concentra algumas das principais jazidas em pegmatitos do país, com alto potencial de exploração e beneficiamento do mineral.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, o Vale do Lítio brasileiro possui a vantagem de operar com esse tipo de depósito, que apresenta menor impacto ambiental em comparação às salmouras utilizadas em outros países como Chile e Argentina, por exemplo. Esse diferencial torna o Brasil uma alternativa estratégica no contexto geopolítico global, especialmente em um momento de busca por cadeias de suprimento mais seguras e diversificadas.
Com novas regulamentações previstas no Plano Nacional de Mineração 2050 e o incentivo a investimentos internacionais, o Brasil tem potencial para consolidar sua posição como fornecedor de minerais críticos e ampliar sua contribuição para a transição energética global.