Minério utilizado na fabricação de baterias e armazenamento de energia
Foto: Steve Morfi / Shutterstock

Lítio: mineral crítico que movimenta a geopolítica da transição energética

Brasil avança com reservas no Vale do Jequitinhonha, mas, assim como outros países, precisa endereçar questões sociais e ambientais

Por Redação, 4 min de leitura

Publicado em 10/12/2025

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  • O lítio é mineral estratégico para a transição energética global, com mercado projetado crescer de US$ 22,36 bilhões em 2023 para US$ 55,52 bilhões até 2032, impulsionado pela demanda de baterias para veículos elétricos.
  • Brasil ocupa quinta posição mundial em produção de lítio com 15.193 toneladas em 2023 e reservas de 590 mil toneladas concentradas no Vale do Jequitinhonha, atraindo investimentos de US$ 15 bilhões até 2030.
  • A mineração de lítio enfrenta desafios ambientais e sociais, especialmente consumo de água em regiões áridas, enquanto regulamentações como o Plano Nacional de Mineração 2050 buscam consolidar exploração sustentável e reciclagem de baterias no Brasil.
Resumo revisado pela redação.

O lítio, conhecido como “ouro branco do século XXI”, é um dos minerais mais estratégicos para a transição energética global. Em 2023, o mercado mundial foi avaliado em cerca de US$ 22,36 bilhões, com projeções de crescimento acelerado para US$ 55,52 bilhões até 2032, a uma taxa anual de 18,9%. A demanda é impulsionada principalmente pela produção de baterias para veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia, com expectativa de que o consumo global atinja 3,06 milhões de toneladas até 2030.

No Brasil, o setor também vive uma expansão expressiva. Em 2023, o país produziu 15.193 toneladas de óxido de lítio, ocupando a quinta posição mundial. As reservas brasileiras somam cerca de 590 mil toneladas, concentradas principalmente no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. O estado se tornou o terceiro maior em faturamento com o mineral, e os investimentos previstos até 2030 somam R$ 15 bilhões. Além das baterias, o lítio é utilizado em cerâmica, ligas metálicas, lubrificantes e medicamentos, o que amplia seu valor para a indústria e a pesquisa. 

Corrida global do lítio

A transição energética tem levado a geopolítica do lítio à ebulição. De acordo com o Serviço Geológico do Brasil, países como China, Estados Unidos e Austrália lideram a corrida pelo controle de reservas, produção e tecnologia relacionadas ao mineral. Por outro lado, a concentração de produção em poucos players aumenta os riscos de choques de oferta que, por enquanto, tem Austrália (51%) e Chile (29%) na liderança da produção global, enquanto outros países correm para se posicionar no mercado.

No Brasil, o lítio é encontrado em depósitos de rochas ígneas conhecidas como pegmatitos, diferente das salmouras evaporíticas onde aparece na forma de sais. Nos pegmatitos, o lítio está incorporado na estrutura cristalina de determinados minerais e, a partir deles, é processado e concentrado para a produção de compostos químicos como hidróxido de lítio (LiOH) e carbonato de lítio (Li2CO3).

O Brasil vem sendo considerado um player emergente no mercado de lítio. O país possui reservas localizadas principalmente nos estados de Minas Gerais (Vale do Jequitinhonha) e Bahia. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), os recursos e reservas brasileiras alcançaram um total de 1 milhão de toneladas. Em previsões, o Banco Mundial declarou que a demanda global pelo lítio pode aumentar quase 1.000% até o ano de 2050.

Demanda global e preços

Produção de lítio para fabricação de baterias de alta tecnologia com alta eficiência e precisão.
Foto: IM Imagery / Shutterstock

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda geral por lítio já vem aumentando e teria triplicado na última década. Isto desestabilizou os preços do minério em vários momentos. Em 2023, por exemplo, o carbonato de lítio ultrapassou a marca de US$ 75 mil por tonelada no mercado chinês, antes de sofrer uma leve queda devido à oscilação da produção automotiva. Em setembro deste ano, o mineral estava cotado a US$ 8,3 por tonelada, após queda de 18,5% no acumulado do ano. Os dados são da Shanghai Metal Market (SMM) e, com a contínua adoção de veículos elétricos no mundo, a expectativa é que o preço tenha novas altas nos próximos anos.

Diante desse cenário, grandes montadoras como Tesla, BYD e Volkswagen anunciaram novos contratos e investimentos bilionários para garantir o fornecimento de lítio. No Brasil, o setor também tem atraído fundos: a Sigma Lithium, por exemplo, investiu mais de US$ 160 milhões em projetos de extração, consolidando o país como um ponto estratégico para o desenvolvimento da cadeia mundial de lítio.

Desafios e impactos da mineração de lítio

A extração de lítio envolve desafios sociais e ambientais. Uma delas está relacionada ao consumo de água. Em regiões secas, como o Salar de Atacama, no Chile, são usados cerca de 500 mil galões de água (cerca de 1,8 milhão de litros) para cada tonelada de lítio produzida. Isto, em uma região onde a precipitação anual é inferior a 15 milímetros por ano, a mineração de lítio esgota, praticamente, os recursos hídricos dos quais dependem as comunidades e espécies locais.

Ainda na questão social, as comunidades tradicionais que habitam regiões ricas em lítio enfrentam, frequentemente, restrições socioeconômicas, especialmente nos países andinos e também no Vale do Jequitinhonha.

Nesse cenário, muitas empresas trabalham com aspectos ESG ampliados, incluindo processos de reutilização de água. No Brasil, alguns projetos já operam com energia renovável também. 

Políticas públicas e regulação

Governos ao redor do mundo têm incentivado a exploração sustentável de lítio, além de estratégias para reciclagem. No Brasil, novas regulamentações dentro do Plano Nacional de Mineração 2050, por exemplo, estão sendo implementadas com o intuito de consolidar o país como líder no fornecimento do metal para aplicações tecnológicas e ambientais.

A pesquisa avança para baterias de estado sólido e tecnologias de reciclagem, que tendem a revolucionar o setor. 

Empresas brasileiras já estudam métodos para maximizar o reaproveitamento de baterias, reduzindo a necessidade de extração de novos minerais.

Para Caio Trivellato, diretor da Agência Nacional de Mineração (ANM), “o lítio não é apenas um minério do futuro — ele já é parte do presente da transição energética”. “Nosso papel como agência reguladora é garantir segurança jurídica, previsibilidade e apoio técnico aos municípios e investidores, fomentando um modelo de mineração que gere desenvolvimento e legado positivo”, disse recentemente durante um evento em Minas Gerais.

João Vasconcelos, coordenador de Economia Mineral da ANM, por sua vez, acredita no papel do Brasil para o abastecimento global de minerais estratégicos. “A demanda por lítio e outros minerais críticos deve se multiplicar nos próximos anos. O Brasil tem reservas expressivas e capacidade regulatória para ser protagonista, mas isso exige integração entre planejamento, política pública e infraestrutura. Nossa missão é prover inteligência técnica e institucional para esse avanço”, apontou Vasconcelos.

O Vale do Lítio no Brasil

O Brasil vem despontando como um hub promissor para a produção de lítio graças às extensas reservas localizadas no chamado Vale do Lítio, que abrange municípios no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Nesta região, concentram-se algumas das maiores jazidas de lítio em pegmatitos do país, destacando-se por suas perspectivas estratégicas de exploração e beneficiamento do mineral.

Segundo o Ministério de Minas e Energia, o Vale do Lítio brasileiro possui a vantagem de operar com depósitos de pegmatitos, que têm menor impacto ambiental em comparação às salmouras utilizadas em outros países. Esse diferencial torna o Brasil uma alternativa estratégica no contexto geopolítico global, especialmente em um momento de busca por cadeias de suprimento mais seguras e diversificadas.
Com novas regulamentações previstas no Plano Nacional de Mineração 2050 e o incentivo a investimentos internacionais, portanto, o Brasil pode consolidar sua posição como fornecedor de minerais críticos e contribuir ainda mais para a transição energética global.

Dúvidas mais comuns

O lítio é um mineral estratégico essencial para a transição energética global, sendo fundamental na produção de baterias para veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia. É chamado de 'ouro branco do século XXI' porque representa um recurso crítico e altamente valioso para o desenvolvimento de tecnologias limpas e sustentáveis, com o mercado mundial avaliado em US$ 22,36 bilhões em 2023 e projeção de crescimento para US$ 55,52 bilhões até 2032.

O Brasil ocupa a quinta posição mundial na produção de lítio, tendo produzido 15.193 toneladas de óxido de lítio em 2023. O país possui reservas de aproximadamente 590 mil toneladas, concentradas principalmente no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e é considerado um player emergente estratégico no mercado global, com investimentos previstos de R$ 15 bilhões até 2030.

As principais reservas de lítio brasileiro estão concentradas no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, região que se tornou o terceiro maior estado em faturamento com o mineral. O Brasil também possui reservas em depósitos de rochas ígneas conhecidas como pegmatitos, que têm menor impacto ambiental comparado às salmouras utilizadas em outros países, tornando o Brasil uma alternativa estratégica na geopolítica global.

Além das baterias para veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia, o lítio é utilizado em cerâmica, ligas metálicas, lubrificantes e medicamentos. Esses usos adicionais ampliam significativamente o valor do mineral para a indústria e a pesquisa, tornando-o um recurso versátil e crítico para múltiplos setores.

Um dos principais desafios é o consumo intensivo de água. Em regiões secas como o Salar de Atacama, no Chile, são necessários cerca de 500 mil galões de água (1,8 milhão de litros) para cada tonelada de lítio produzido, esgotando recursos hídricos em áreas com precipitação anual inferior a 15 milímetros. Além disso, as comunidades tradicionais enfrentam restrições socioeconômicas, embora empresas brasileiras estejam implementando processos de reutilização de água e energia renovável para mitigar esses impactos.

O Brasil opera com depósitos de pegmatitos, que têm menor impacto ambiental em comparação às salmouras utilizadas em outros países. Além disso, alguns projetos brasileiros já operam com energia renovável e implementam processos de reutilização de água, consolidando o país como uma alternativa estratégica mais sustentável no contexto geopolítico global.

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda por lítio triplicou na última década e continua crescendo. O Banco Mundial projeta que a demanda global pode aumentar quase 1.000% até 2050, com expectativa de que o consumo global atinja 3,06 milhões de toneladas até 2030, impulsionado principalmente pela adoção contínua de veículos elétricos em todo o mundo.

O Plano Nacional de Mineração 2050 implementa novas regulamentações com o objetivo de consolidar o Brasil como líder no fornecimento de lítio para aplicações tecnológicas e ambientais. O plano busca garantir segurança jurídica, previsibilidade e apoio técnico aos municípios e investidores, fomentando um modelo de mineração que gere desenvolvimento e legado positivo, enquanto o país avança em pesquisas sobre baterias de estado sólido e tecnologias de reciclagem.