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Marcelo Behar, enviado especial à COP30 para bioeconomia
Marcelo Behar (Divulgação/ Arte)

“Mineração pode ser um gigante na recuperação de áreas degradadas”, diz Marcelo Behar

O enviado especial à COP30 para bioeconomia explica como o setor de mineração pode ser um parceiro estratégico na conservação, logística e recuperação de áreas degradadas

Por Cinthia Saito * e Viviane Kulczynski *, 4 min de leitura

Publicado em 12/09/2025

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  • A bioeconomia amazônica estrutura-se em quatro pilares: conservação florestal com remuneração, agricultura regenerativa, sociobioeconomia indígena e ribeirinha, e biotecnologia de base natural para economia circular.
  • Mineradoras podem impulsionar a bioeconomia através de projetos locais, infraestrutura logística existente como ferrovias para escoar produtos como açaí, e recuperação de áreas degradadas em larga escala.
  • O setor de mineração pode transformar-se em gigante da restauração ambiental, gerando simultaneamente riqueza mineral e recomposição de milhões de hectares degradados no Brasil.
Resumo revisado pela redação.

A bioeconomia é um conceito-chave para conciliar desenvolvimento e conservação, especialmente na Amazônia. Para entender como dar corpo e escala a essa ideia, o Radar Mineração conversou com Marcelo Behar, convidado para compor o grupo de enviados especiais à COP30 pelo presidente do encontro, embaixador André Corrêa do Lago. Behar detalha os quatro pilares da bioeconomia e aponta como setores de grande impacto, como o de mineração, podem coexistir e impulsionar uma nova economia baseada na floresta em pé.

Como enviado especial à COP30, sua tarefa é dar escala à bioeconomia. De forma prática, quais são os principais negócios de floresta com potencial para atrair capital e se tornar um pilar econômico para a região amazônica até 2030?

Mão segurando uma muda de planta em um recipiente de vidro, simbolizando a recuperação de áreas degradadas por meio da bioeconomia, com microscópio ao fundo.
Foto: Budimir Jevtic/ Shutterstock

Excelente pergunta. Vemos a bioeconomia em quatro grandes blocos. O primeiro é responder à grande dúvida que o mundo tem sobre o Brasil: como vamos conservar nossas florestas de forma não predatória. Para isso, estão surgindo mecanismos como fundos governamentais que remuneram a floresta em pé, investimentos privados em projetos de base de natureza e a conexão com o mercado global de carbono.

Afinal, nada retira carbono da atmosfera mais rápido que a natureza.

O segundo bloco é a conexão entre bioeconomia e agricultura regenerativa. No Brasil, o grande responsável pelas emissões é o uso da terra. Agora, é hora de o agro mudar de sinal e passar a ser um coletor de carbono, com foco na recuperação de áreas degradadas e na integração lavoura-pecuária-floresta.

E os outros dois blocos?

O terceiro é a sociobioeconomia, uma contribuição original do Brasil. Ela envolve não apenas os povos indígenas, mas também ribeirinhos, quilombolas e todos que vivem da e na floresta. Precisamos encontrar novas possibilidades de uso de elementos da biodiversidade — como açaí, buriti, cumaru — para gastronomia, fármacos e cosméticos, industrializando no local e agregando valor ao que as comunidades produzem.

Por fim, o quarto bloco é o da biotecnologia. Temos muitas soluções de base de natureza que substituem os não-renováveis e são o futuro da economia circular. Fiquei muito feliz em saber, por exemplo, de projetos no setor de mineração para que os gigantescos caminhões que coletam minério usem biocombustíveis. É um dos muitos bons caminhos de renovação.

Muitos tendem a achar que a presença de povos originários impede o desenvolvimento. Sua visão parece integrar produção e conservação.

Exatamente. É a visão da transição justa. É preciso integrar todo mundo.

Falando em como tornar a floresta em pé mais lucrativa que o desmatamento, que tipo de regras ou incentivos são necessários para virar esse jogo?

Amazônia mostra floresta preservada, rios e uma abordagem sustentável para promover bioeconomia e evitar o desmatamento na região.
Foto: By Drone Videos/ Shutterstock

Primeiro, é preciso uma mudança quase filosófica de perceber que a floresta em si tem um valor econômico gigantesco, pois provê recursos essenciais, como os rios aéreos que irrigam a agricultura brasileira. Segundo, é preciso tratar a floresta como uma classe de ativo, trazê-la para o mundo das finanças.

Em uma era de valores imateriais como as criptomoedas, ter um ativo tangível, real e mensurável como uma floresta pode ser um lastro muito mais significativo.

Iniciativas como os créditos de biodiversidade, que já avançam em países como Colômbia e EUA, apontam nessa direção. Nossa legislação ambiental precisa evoluir para permitir que as finanças contribuam para a regeneração.

Menos impostos, crédito mais fácil e acesso a mercados ajudariam?

Sim, são várias frentes. No tema tributário, precisamos dar maior ênfase ao que é renovável e de base de natureza. No tema de incentivos, o mundo já quer premiar iniciativas de longo prazo que reduzem emissões e desigualdades. O desafio é girar a economia global produzindo o que precisamos, mas de formas diferentes e com outros incentivos.

Muitos veem a mineração e a economia da floresta como antagônicas. Como elas podem ser parceiras e de que forma prática uma grande mineradora pode usar sua estrutura e recursos para impulsionar a bioeconomia?

Vejo três grandes esferas de atuação. Primeiro, no nível local. A bioeconomia acontece em um espaço específico. Grandes mineradoras têm um impacto significativo nas comunidades e podem desenvolver, e até intensificar, projetos locais que fomentem essa nova economia. A segunda dimensão é a logística.

O setor de mineração opera gigantes logísticos, conectores do Brasil. Se conseguirmos usar a infraestrutura já existente, como as grandes ferrovias que cortam o país, para o avanço da bioeconomia, o ganho de escala será enorme.

Pode nos dar um exemplo prático?

Claro. Hoje, 92% do açaí produzido no Pará fica no estado. Para ampliar a exportação, precisamos de logística em escala. Usar a infraestrutura ferroviária do setor, que é mais previsível e barata que o transporte rodoviário ou fluvial, permitiria escoar essa produção, e de outras culturas em sistemas agroflorestais, com mais qualidade e constância. É uma forma de conciliar os dois mundos.

E qual seria a terceira esfera?

A terceira é a maior de todas. Como o setor de mineração opera em grandes extensões e já recupera áreas degradadas para sua própria atividade, eu acredito que o setor possa se tornar um gigante da recuperação, não só para si, mas para terceiros e para os grandes projetos de restauração que o Brasil precisa.

Nosso país tem milhões de hectares em áreas degradadas que precisam ser recompostas. É quase uma nova unidade de negócio ambiental para o setor, que ao mesmo tempo em que gera riqueza mineral, gera também a recomposição de vastas áreas. Isso deixaria o Brasil muito orgulhoso.

Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

A bioeconomia é um modelo econômico que utiliza a biodiversidade e recursos naturais aliados à tecnologia para criar produtos e serviços sustentáveis, mantendo a floresta em pé. Na Amazônia, ela representa uma estratégia para conciliar desenvolvimento econômico com conservação ambiental, gerando riqueza a partir da floresta sem necessidade de desmatamento predatório.

Os quatro pilares são: (1) Conservação da floresta através de fundos governamentais, investimentos privados em projetos de natureza e mercado de carbono; (2) Agricultura regenerativa que transforma o agro em coletor de carbono, recuperando áreas degradadas; (3) Sociobioeconomia, que envolve povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas, industrializando produtos como açaí, buriti e cumaru; (4) Biotecnologia, desenvolvendo soluções de base natural que substituem produtos não-renováveis.

A mineração pode atuar em três esferas: no nível local, desenvolvendo projetos que fomentam a bioeconomia nas comunidades; na logística, utilizando sua infraestrutura ferroviária para escoar produtos da bioeconomia com mais qualidade e constância; e na recuperação de áreas degradadas, transformando-se em um gigante da restauração ambiental, gerando riqueza mineral enquanto recompõe vastas extensões de terra.

A floresta em pé deve ser tratada como uma classe de ativo financeiro, assim como as criptomoedas. Ela possui valor econômico gigantesco ao prover recursos essenciais como os rios aéreos que irrigam a agricultura brasileira. Iniciativas como créditos de biodiversidade já avançam em países como Colômbia e EUA, demonstrando que a floresta pode ser um lastro tangível, real e mensurável para as finanças globais.

É necessária uma mudança filosófica de percepção sobre o valor econômico da floresta, além de medidas práticas como: evolução da legislação ambiental para permitir que as finanças contribuam para regeneração; maior ênfase tributária no que é renovável e de base natural; incentivos para iniciativas de longo prazo que reduzem emissões e desigualdades; e acesso facilitado a crédito e mercados globais.

A sociobioeconomia é uma contribuição original do Brasil que envolve não apenas povos indígenas, mas também ribeirinhos, quilombolas e todos que vivem da e na floresta. Ela busca encontrar novas possibilidades de uso de elementos da biodiversidade para gastronomia, fármacos e cosméticos, industrializando no local e agregando valor ao que as comunidades produzem, promovendo inclusão econômica e preservação cultural.

As ferrovias do setor de mineração podem ser utilizadas para escoar produtos da bioeconomia, como açaí e outras culturas em sistemas agroflorestais, com mais qualidade, constância e previsibilidade que o transporte rodoviário ou fluvial. Atualmente, 92% do açaí produzido no Pará fica no estado; usar essa infraestrutura permitiria ampliar exportações e gerar escala para toda a bioeconomia amazônica.

A transição justa é a visão de integrar produção econômica com conservação ambiental, incluindo todos os atores envolvidos, especialmente povos originários. Ela rejeita a ideia de que a presença de povos indígenas impede o desenvolvimento, demonstrando que é possível conciliar geração de riqueza com preservação ambiental e respeito aos direitos das comunidades tradicionais.