- A bioeconomia amazônica estrutura-se em quatro pilares: conservação florestal com remuneração, agricultura regenerativa, sociobioeconomia indígena e ribeirinha, e biotecnologia de base natural para economia circular.
- Mineradoras podem impulsionar a bioeconomia através de projetos locais, infraestrutura logística existente como ferrovias para escoar produtos como açaí, e recuperação de áreas degradadas em larga escala.
- O setor de mineração pode transformar-se em gigante da restauração ambiental, gerando simultaneamente riqueza mineral e recomposição de milhões de hectares degradados no Brasil.
A bioeconomia é um conceito-chave para conciliar desenvolvimento e conservação, especialmente na Amazônia. Para entender como dar corpo e escala a essa ideia, o Radar Mineração conversou com Marcelo Behar, convidado para compor o grupo de enviados especiais à COP30 pelo presidente do encontro, embaixador André Corrêa do Lago. Behar detalha os quatro pilares da bioeconomia e aponta como setores de grande impacto, como o de mineração, podem coexistir e impulsionar uma nova economia baseada na floresta em pé.
Como enviado especial à COP30, sua tarefa é dar escala à bioeconomia. De forma prática, quais são os principais negócios de floresta com potencial para atrair capital e se tornar um pilar econômico para a região amazônica até 2030?

Excelente pergunta. Vemos a bioeconomia em quatro grandes blocos. O primeiro é responder à grande dúvida que o mundo tem sobre o Brasil: como vamos conservar nossas florestas de forma não predatória. Para isso, estão surgindo mecanismos como fundos governamentais que remuneram a floresta em pé, investimentos privados em projetos de base de natureza e a conexão com o mercado global de carbono.
Afinal, nada retira carbono da atmosfera mais rápido que a natureza.
O segundo bloco é a conexão entre bioeconomia e agricultura regenerativa. No Brasil, o grande responsável pelas emissões é o uso da terra. Agora, é hora de o agro mudar de sinal e passar a ser um coletor de carbono, com foco na recuperação de áreas degradadas e na integração lavoura-pecuária-floresta.
E os outros dois blocos?
O terceiro é a sociobioeconomia, uma contribuição original do Brasil. Ela envolve não apenas os povos indígenas, mas também ribeirinhos, quilombolas e todos que vivem da e na floresta. Precisamos encontrar novas possibilidades de uso de elementos da biodiversidade — como açaí, buriti, cumaru — para gastronomia, fármacos e cosméticos, industrializando no local e agregando valor ao que as comunidades produzem.
Por fim, o quarto bloco é o da biotecnologia. Temos muitas soluções de base de natureza que substituem os não-renováveis e são o futuro da economia circular. Fiquei muito feliz em saber, por exemplo, de projetos no setor de mineração para que os gigantescos caminhões que coletam minério usem biocombustíveis. É um dos muitos bons caminhos de renovação.
Muitos tendem a achar que a presença de povos originários impede o desenvolvimento. Sua visão parece integrar produção e conservação.
Exatamente. É a visão da transição justa. É preciso integrar todo mundo.
Falando em como tornar a floresta em pé mais lucrativa que o desmatamento, que tipo de regras ou incentivos são necessários para virar esse jogo?

Primeiro, é preciso uma mudança quase filosófica de perceber que a floresta em si tem um valor econômico gigantesco, pois provê recursos essenciais, como os rios aéreos que irrigam a agricultura brasileira. Segundo, é preciso tratar a floresta como uma classe de ativo, trazê-la para o mundo das finanças.
Em uma era de valores imateriais como as criptomoedas, ter um ativo tangível, real e mensurável como uma floresta pode ser um lastro muito mais significativo.
Iniciativas como os créditos de biodiversidade, que já avançam em países como Colômbia e EUA, apontam nessa direção. Nossa legislação ambiental precisa evoluir para permitir que as finanças contribuam para a regeneração.
Menos impostos, crédito mais fácil e acesso a mercados ajudariam?
Sim, são várias frentes. No tema tributário, precisamos dar maior ênfase ao que é renovável e de base de natureza. No tema de incentivos, o mundo já quer premiar iniciativas de longo prazo que reduzem emissões e desigualdades. O desafio é girar a economia global produzindo o que precisamos, mas de formas diferentes e com outros incentivos.
Muitos veem a mineração e a economia da floresta como antagônicas. Como elas podem ser parceiras e de que forma prática uma grande mineradora pode usar sua estrutura e recursos para impulsionar a bioeconomia?
Vejo três grandes esferas de atuação. Primeiro, no nível local. A bioeconomia acontece em um espaço específico. Grandes mineradoras têm um impacto significativo nas comunidades e podem desenvolver, e até intensificar, projetos locais que fomentem essa nova economia. A segunda dimensão é a logística.
O setor de mineração opera gigantes logísticos, conectores do Brasil. Se conseguirmos usar a infraestrutura já existente, como as grandes ferrovias que cortam o país, para o avanço da bioeconomia, o ganho de escala será enorme.
Pode nos dar um exemplo prático?
Claro. Hoje, 92% do açaí produzido no Pará fica no estado. Para ampliar a exportação, precisamos de logística em escala. Usar a infraestrutura ferroviária do setor, que é mais previsível e barata que o transporte rodoviário ou fluvial, permitiria escoar essa produção, e de outras culturas em sistemas agroflorestais, com mais qualidade e constância. É uma forma de conciliar os dois mundos.
E qual seria a terceira esfera?
A terceira é a maior de todas. Como o setor de mineração opera em grandes extensões e já recupera áreas degradadas para sua própria atividade, eu acredito que o setor possa se tornar um gigante da recuperação, não só para si, mas para terceiros e para os grandes projetos de restauração que o Brasil precisa.
Nosso país tem milhões de hectares em áreas degradadas que precisam ser recompostas. É quase uma nova unidade de negócio ambiental para o setor, que ao mesmo tempo em que gera riqueza mineral, gera também a recomposição de vastas áreas. Isso deixaria o Brasil muito orgulhoso.
* Especial para o Radar Mineração

