A recuperação de áreas mineradas, a conservação dos recursos hídricos, o controle de processos erosivos e a restauração da biodiversidade estão entre os desafios ambientais diretamente relacionados à atividade mineral. Nesse contexto, as soluções baseadas na natureza (SbN) ganham espaço como uma abordagem capaz de utilizar processos e funções dos próprios ecossistemas para enfrentar esses problemas, combinando recuperação ambiental, gestão territorial e adaptação às mudanças climáticas.
O conceito é definido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) como estratégias que utilizam processos, estruturas e funções naturais para enfrentar desafios ambientais, sociais e climáticos. Entre as aplicações estão ações de restauração, manejo de águas, conservação da biodiversidade e adaptação climática.
Na mineração, a conexão é particularmente direta. A atividade modifica o uso do solo e pode demandar intervenções sobre áreas de vegetação, recursos hídricos e paisagens. Por isso, técnicas que recuperam funções ecológicas, favorecem a regeneração da vegetação, estabilizam solos ou contribuem para a proteção de bacias hidrográficas podem ser incorporadas às estratégias de recuperação ambiental das operações.
Natureza como parte da recuperação de áreas mineradas
Um dos campos mais evidentes para aplicação das soluções baseadas na natureza está na recuperação de áreas impactadas pela mineração. Em vez de considerar apenas a recomposição física do terreno, a restauração ecológica busca recuperar funções do ecossistema, considerando características do solo, espécies nativas, regeneração natural, biodiversidade e dinâmica hídrica.
Um exemplo está em Poços de Caldas (MG), onde a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), desenvolve uma pesquisa para avaliar a eficácia da restauração florestal em uma área anteriormente minerada. O estudo, iniciado em 2025, analisa indicadores como regeneração natural, banco de sementes do solo, qualidade do solo e desenvolvimento de araucárias, espécie característica da região e ameaçada de extinção.
A escolha desses indicadores mostra uma característica importante das SbN aplicadas à mineração: o objetivo é também avaliar se os processos ecológicos necessários para a recuperação estão efetivamente ocorrendo.
Essa abordagem também pode contribuir para a estabilidade do terreno. A recomposição da cobertura vegetal e a recuperação das características físicas do solo ajudam a reduzir a exposição à erosão e o transporte de sedimentos, dois fatores diretamente relacionados à conservação de cursos d’água e à qualidade ambiental das áreas no entorno das operações.
Em Minas Gerais, essa conexão ganhou respaldo institucional com a Lei nº 25.715, de janeiro de 2026, que instituiu a Política Estadual de Recuperação de Áreas Degradadas ou Alteradas. A legislação inclui as soluções baseadas na natureza entre as estratégias de recuperação e estabelece, entre seus objetivos, a estabilização e prevenção de processos erosivos e a redução do assoreamento de recursos hídricos causado pelo carreamento de sedimentos.
Água é uma das principais frentes

A gestão hídrica é outro campo em que a relação entre mineração e soluções baseadas na natureza pode ser observada de maneira direta.
A vegetação, o solo e os sistemas naturais de drenagem desempenham funções importantes na infiltração, retenção e circulação da água. A recuperação dessas funções pode contribuir para a proteção de nascentes, cursos d’água e áreas de recarga, além de reduzir processos erosivos e o carreamento de sedimentos.
A própria agenda do setor mineral vem incorporando metas relacionadas à natureza e à água. O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) estabeleceu como compromisso para 2030 reduzir em 10% o uso específico de água nova por tonelada de ROM. A linha de base de 2023 considerada pelo instituto foi de 171,1 milhões de metros cúbicos de água nova para 561,6 milhões de toneladas de ROM, equivalente a 0,305 m³ por tonelada; a meta é chegar a 0,237 m³ por tonelada.
No mesmo conjunto de compromissos, o IBRAM estabeleceu uma meta de ampliar em 10% o ganho líquido em biodiversidade até 2030, considerando a relação entre áreas protegidas e áreas impactadas pelas operações minerárias.
As duas frentes ajudam a explicar por que as SbN podem ter relevância estratégica para o setor. Recuperar ecossistemas, proteger áreas de vegetação e preservar funções hidrológicas são ações integrativas na operação que podem englobar programas de gestão ambiental, recuperação de áreas e planejamento territorial.
Do solo à biodiversidade
A aplicação das soluções baseadas na natureza também pode envolver tecnologias de recuperação de solos. Um exemplo de pesquisa brasileira avalia o uso de tecnossolos produzidos a partir de rejeitos de minério de ferro e resíduos da construção civil para estabelecer vegetação em áreas degradadas.
O estudo, realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo, investigou diferentes composições de tecnossolos e verificou o desenvolvimento de gramíneas tropicais nos substratos. Os resultados indicaram produção de biomassa superior à observada no solo de controle em algumas das formulações testadas, apontando o potencial desses materiais para apoiar processos de recuperação de áreas degradadas.
A pesquisa ainda está no campo experimental (apesar de já premiada) e não significa que uma solução possa ser aplicada indistintamente em qualquer área minerada. O resultado, porém, demonstra como a integração entre engenharia, ciência do solo e processos biológicos pode abrir novas possibilidades para a recuperação ambiental.
Uma combinação particularmente relevante para a mineração porque os projetos de recuperação, em sua maioria, precisam considerar condições específicas de cada área. Características geológicas, composição do solo, regime de chuvas, disponibilidade hídrica, espécies nativas e histórico de ocupação são alguns dos fatores que determinam quais técnicas podem ser utilizadas.
Soluções baseadas na natureza entram no planejamento da mineração
A aplicação das SbN também começa a ganhar espaço em uma perspectiva mais ampla de planejamento ambiental. Nesse modelo, a recuperação pode ser planejada ao longo do ciclo de vida da operação.
A lógica está alinhada à evolução da própria agenda de biodiversidade do setor mineral. Entre os compromissos apresentados pelo IBRAM estão, além das metas para água e natureza positiva, ações de adaptação às mudanças climáticas em territórios onde há atividade mineral. O instituto estabeleceu como meta fomentar a elaboração de 30 planos municipais de adaptação até 2030.
Trata-se de um movimento que aproxima a gestão ambiental da mineração de uma agenda territorial mais ampla. Uma área restaurada pode contribuir para a conectividade entre fragmentos de vegetação, a proteção de recursos hídricos e a resiliência de comunidades localizadas no entorno da operação.
O próprio governo federal vem estruturando instrumentos para ampliar o uso das soluções baseadas na natureza. Em setembro de 2026, o MMA abriu consulta pública para uma proposta de Estratégia Nacional de Soluções Baseadas na Natureza para Áreas Urbanas, com horizonte até 2035. O documento prevê diretrizes relacionadas à adaptação climática, redução de riscos, biodiversidade e segurança hídrica.
Embora a estratégia seja voltada a áreas urbanas e periurbanas, o avanço institucional do conceito ajuda a consolidar uma abordagem que pode dialogar com outros setores intensivos em território e recursos naturais.
Uma abordagem que combina engenharia e processos ecológicos

Na mineração, as soluções baseadas na natureza não substituem automaticamente estruturas convencionais de engenharia ou sistemas de controle ambiental. Sua aplicação depende das características de cada empreendimento, dos riscos envolvidos, dos requisitos legais e dos objetivos de recuperação.
A principal contribuição está na possibilidade de combinar infraestrutura, conhecimento técnico e processos ecológicos. Recuperação de vegetação, estabilização de solos, restauração de áreas de preservação, proteção de bacias hidrográficas e recuperação da biodiversidade podem integrar estratégias desenhadas para responder a diferentes desafios de uma mesma operação.
Para um setor que estabeleceu metas de redução do uso de água nova e de aumento do ganho líquido de biodiversidade, a evolução dessas técnicas também cria oportunidades para transformar indicadores ambientais em parâmetros de planejamento e monitoramento.