Pepitas de ouro bruto em mãos, com partículas brilhantes e irregulares, exibindo textura natural do metal precioso
Foto: Gov.br / Sudeco

Mineração de ouro: tecnologias e desafios do setor

Reservas brasileiras ainda têm potencial de exploração, abrindo espaço para investimentos e novas pesquisas geológicas

Por Redação, 6 min de leitura

Publicado em 20/05/2026

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Poucos recursos minerais carregam tanto valor histórico, econômico e simbólico quanto o ouro. De símbolo de riqueza ao longo dos séculos a ativo de proteção em cenários de instabilidade global, o metal segue no centro de disputas geopolíticas e decisões financeiras.

No Brasil, o setor passa por mudanças em três frentes: avanços tecnológicos, ambientais e novas demandas do mercado. Esse movimento já se reflete na alocação de recursos. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) registrou investimento de R$ 595,7 milhões em programas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) somente em 2023.

O ouro como recurso mineral é visto há séculos como sinônimo de segurança em tempos de incerteza econômica. Bancos centrais e investidores recorrem a ele para proteger patrimônios. Segundo dados do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), o país figura entre os maiores produtores globais, com destaque para estados como Pará, Minas Gerais e Goiás. As reservas brasileiras ainda têm margem para exploração, abrindo espaço para investimentos e novas pesquisas.

Atualmente, o setor mineral responde por cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Segundo o Ibram, em 2024 as exportações de ouro cresceram 13,5% em valor, somando US$ 3,96 bilhões, mas caíram 20,4% em volume, para 61,9 toneladas.O movimento revela a valorização no mercado internacional, impulsionada por incertezas econômicas e tensões geopolíticas. Segundo dados do World Gold Council, levantados pela revista Exame, o Brasil aparecia no mesmo ano como o 12º país com maiores reservas de ouro, totalizando aproximadamente 329 mil toneladas. Esse volume reforça o potencial do país como player estratégico no fornecimento do metal nos próximos anos.

A tecnologia na extração de ouro

Escavadeira carregando materiais em uma área de mineração de ouro, com caminhão carregado pronto para transportar o material extraído.
Imagem gerada digitalmente

Se no passado o setor era marcado por operações manuais e com alto risco, hoje a tecnologia abre caminhos para uma atividade mais precisa e rentável. Ferramentas como drones, sensores remotos e softwares de monitoramento em tempo real permitem maior precisão na identificação de jazidas e no controle das operações. Além de reduzir desperdícios, essas soluções também aumentam a segurança dos trabalhadores.

A automação de processos e o uso de inteligência artificial já são realidade em algumas operações, capazes de prever falhas em equipamentos, otimizar a logística interna e acelerar a tomada de decisões. Na prática, isso reduz custos, mitiga riscos operacionais e melhora a eficiência. O objetivo é transformar a produção de ouro em um processo mais competitivo e com menor impacto.

A visão computacional também se tornou uma aliada da mineração, especialmente no monitoramento do trabalho, gerando dados em tempo real que apoiam a tomada de decisão e elevam os padrões de controle nas atividades.

Outras tecnologias entram em cena ao longo de toda a cadeia de mineração. O blockchain, por exemplo, tem sido utilizado no rastreamento do ouro desde a origem. A tecnologia permite garantir transparência e auxilia no combate ao mercado ilícito.

Leia também: Blockchain e cadeia de suprimentos: tecnologia mira na mineração

Em entrevista ao Valor, Mark Williamson, chefe global de parcerias e propostas de câmbio e commodities do HSBC, declarou que o sistema torna o processo “mais rápido e menos complicado”, uma vez que seus clientes podem rastrear mais facilmente o ouro que possuem. Segundo ele, cada barra conta com um número de série que a torna única. Williamson declarou ainda que o HSBC planeja expandir seu sistema de blockchain para incluir outros metais preciosos.

Ainda segundo a reportagem, em 2024, pelo menos 698 mil barras de ouro estavam armazenadas em cofres na área da Grande Londres, avaliadas em US$ 525 bilhões, segundo a London Bullion Market Association.

Desafios: impacto ambiental e garimpo ilegal

Agentes da Polícia Federal, do Ibama e militares em fiscalização em área de garimpo ilegal, com tendas, equipamentos e maquinário em meio a solo avermelhado e vegetação ao fundo.
Foto: Gov.br / Polícia Federal

Apesar dos avanços, empresas que trabalham com o minério de ouro enfrentam o desafio constante de reduzir o impacto ambiental. O uso de recursos hídricos, o risco de contaminação de rios e a pressão sobre áreas de preservação tornam urgente a adoção de práticas mais responsáveis.

O garimpo ilegal amplia esse problema. A utilização de mercúrio em rios da Amazônia, por exemplo, gera efeitos devastadores para comunidades locais e ecossistemas inteiros. Nesse contexto, cresce a pressão da sociedade e de investidores por práticas sustentáveis, exigindo políticas mais rígidas e empresas comprometidas com a recuperação ambiental.

Foi nesse contexto que surgiu o termo “nova mineração” para indicar o uso de práticas que reduzem os impactos ao meio ambiente. Algumas empresas no Brasil já adotam essas práticas. A Vale, por exemplo, mantém um amplo programa de responsabilidade social e ambiental.

A empresa tem parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em um programa que ajuda a proteger cerca de 800 mil hectares de florestas no Mosaico de Carajás, área que equivale a cinco vezes a cidade de São Paulo. Os investimentos voluntários superaram R$ 200 milhões e envolveram iniciativas como o programa Genômica da Biodiversidade Brasileira, parceria do Instituto Tecnológico Vale (ITV) com o ICMBio, cujo foco é o sequenciamento genômico de espécies da fauna e da flora amazônica. A Vale também fomenta a bioeconomia da Amazônia, apoiando cadeias produtivas extrativistas e contribuindo para a geração de renda de famílias que vivem na região, além de patrocinar iniciativas de qualificação e estruturação do órgão ambiental.

Segundo dados do Sistema de Comercialização e Apoio à Gestão Mineral (Sicom), do Ministério de Minas e Energia, até 2024, cerca de 20% do ouro produzido no Brasil teve sua origem questionada quanto à legalidade. Essas questões chamaram a atenção de órgãos como o Ministério Público Federal (MPF) e agências ambientais, pressionando o setor a adotar práticas mais éticas e transparentes. Em março deste ano, o STF decidiu, por unanimidade, que no comércio de ouro cabe ao vendedor comprovar a origem do minério, encerrando a presunção de boa-fé, conforme mostrou reportagem da CNN Brasil.

Algumas empresas têm investido em sistemas de monitoramento remoto, auditorias e em iniciativas para mitigar impactos ambientais, como reflorestamento e reciclagem de materiais.

Panorama econômico

O preço do ouro no mercado internacional ultrapassou os US$ 2.650 por onça em 2024, consolidando o metal como uma forma segura de investimento em tempos de incertezas econômicas e geopolíticas.

Programas governamentais como o Plano Nacional de Mineração garantem incentivos à pesquisa e exploração de jazidas de ouro, ampliando o potencial do país como player estratégico nessa área.

No Brasil, o setor de mineração caminha para um futuro marcado pela inovação tecnológica, buscando melhorar a eficiência dos processos de extração e minimizar os danos ambientais. A evolução da mineração de ouro no país dependerá do equilíbrio entre crescimento econômico, inovação tecnológica e responsabilidade ambiental.

As perspectivas são promissoras: o mercado projeta um avanço na exploração de ouro nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde jazidas ainda pouco exploradas têm potencial para elevar a produção nacional.

PNUMA e o avanço do ouro sem mercúrio

Coordenadores em reunião com mesa de autoridades durante apresentação do Plano de Ação Nacional para Extração de Ouro sem Mercúrio, com faixa ao fundo e participantes ao microfone.
Foto: Gov.br / Ministério de Minas e Energia / Tauan Alencar

Ainda é comum o uso de substâncias tóxicas, como o mercúrio, durante os processos de extração do ouro no Brasil. Para enfrentar esse problema, o país conta com parcerias internacionais, como a do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), no Projeto Ouro sem Mercúrio.

O programa busca reduzir e, em alguns casos, eliminar totalmente o uso de mercúrio na mineração artesanal e em pequena escala (Mape), uma das principais fontes de contaminação ambiental no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa prática, amplamente utilizada por garimpeiros em todo o mundo, é apontada pela OMS como uma das maiores fontes de poluição mercurial, que afeta ecossistemas inteiros e causa graves impactos à saúde humana.

Segundo o Pnuma, o Brasil, na posição de um dos maiores produtores globais de ouro, desempenha um papel fundamental na adesão a iniciativas sustentáveis, em parte com o suporte técnico e financeiro do programa. O projeto Ouro sem Mercúrio, realizado em colaboração com governos estaduais e instituições locais, concentra-se principalmente em minimizar o impacto ambiental em áreas de garimpo artesanal, comuns na Amazônia.

A mineração artesanal ainda representa uma parcela da produção de ouro no país, mas muitas vezes ocorre sem regulamentação, ampliando os impactos negativos sobre rios, florestas e comunidades indígenas. Por meio dessa parceria, o Pnuma promove capacitações, alternativas tecnológicas e métodos que eliminam o mercúrio, além de fortalecer as políticas públicas no setor.