- A mineração de ouro no Brasil evolui com investimentos em tecnologia, inteligência artificial e blockchain, enquanto o setor registrou crescimento de 13,5% nas exportações em 2024, totalizando US$ 3,96 bilhões.
- O garimpo ilegal e o uso de mercúrio na extração artesanal contaminam ecossistemas amazônicos, levando o STF a exigir comprovação de origem legal do ouro e pressionar empresas por práticas sustentáveis.
- Programas como o Projeto Ouro sem Mercúrio do Pnuma e iniciativas de "nova mineração" buscam reduzir impactos ambientais, enquanto o Brasil consolida sua posição como 12º maior detentor de reservas globais de ouro.
Poucos recursos minerais carregam tanto valor histórico, econômico e simbólico quanto o ouro. Do garimpo artesanal à mineração em larga escala, o metal precioso tem sido motor de riqueza, disputas e, mais recentemente, de inovação. No Brasil, o setor passa por mudanças em três frentes: avanços tecnológicos, ambientais e novas demandas do mercado do ouro. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) registrou investimento de R$ 595,7 milhões em programas de pesquisa e desenvolvimento (P&D), somente em 2023.
O ouro como recurso mineral é visto há séculos como sinônimo de segurança em tempos de incerteza econômica. Não à toa, bancos centrais e investidores recorrem a ele para proteger patrimônios. Segundo dados do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), o país figura entre os maiores produtores globais, com destaque para a mineração de ouro em estados como Pará, Minas Gerais e Goiás.
As reservas de ouro brasileiras ainda têm potencial de exploração, abrindo espaço para investimentos e novas pesquisas geológicas. Ao mesmo tempo, o momento revela um cenário competitivo que exige eficiência, inovação e um olhar atento às questões socioambientais.
Atualmente, o setor mineral responde por cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Segundo o Ibram, em 2024 as exportações de ouro cresceram 13,5% em valor, somando US$ 3,96 bilhões, mas caíram 20,4% em volume, para 61,9 toneladas. Segundo dados do World Gold Council, levantados pela revista Exame, o Brasil aparecia no mesmo ano como o 12º país com maiores reservas de ouro, totalizando aproximadamente 329 mil toneladas.
A tecnologia na extração de ouro

Se no passado o setor era marcado por operações manuais e com alto risco, hoje a tecnologia na mineração de ouro abre caminhos para uma atividade mais precisa e rentável. Drones, sensores e softwares de monitoramento em tempo real permitem mapear jazidas com maior assertividade. Além de reduzir desperdícios, o uso da tecnologia no minério de ouro aumenta também a segurança dos trabalhadores.
A automação de processos e o uso de inteligência artificial já são realidade em algumas mineradoras, capazes de prever falhas em equipamentos, otimizar a logística interna e acelerar a tomada de decisões. O objetivo é transformar a produção de ouro em um processo mais competitivo e sustentável.
A visão computacional também se tornou uma aliada da mineração, especialmente no processo de monitoramento do trabalho com a finalidade de fornecer atualizações em tempo real. As informações obtidas pelo sistema ajudam a melhorar a produtividade e agregam fatores de segurança aos locais de trabalho.
Outras tecnologias também entram em cena ao longo de toda a cadeia de mineração. O blockchain, por exemplo, tem sido visto como aliado no rastreamento do ouro desde a origem. Um processo que garante a transparência e auxilia no combate ao mercado ilícito.
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Em entrevista ao Valor, Mark Williamson, chefe global de parcerias e propostas de câmbio e commodities do HSBC, declarou que o sistema torna o processo “mais rápido e menos complicado”, uma vez que seus clientes podem rastrear mais facilmente o ouro que possuem. Segundo ele, cada barra conta com um número de série que a torna única. Além disso, ele declarou que o HSBC planeja expandir seu sistema de blockchain para incluir outros metais preciosos.
Ainda segundo a reportagem, em 2024, pelo menos 698 mil barras de ouro estavam armazenadas em cofres na área da Grande Londres, avaliadas em US$ 525 bilhões, segundo a London Bullion Market Association.
Desafios: impacto ambiental e garimpo ilegal
Apesar dos avanços, empresas que trabalham com o minério de ouro têm como desafio constante reduzir o impacto ambiental do garimpo. O uso de recursos hídricos, o risco de contaminação de rios e a pressão sobre áreas de preservação tornam urgente a adoção de práticas mais responsáveis.
Além disso, o garimpo de ouro ilegal, amplia esse problema, uma vez que a utilização de mercúrio em rios da Amazônia, por exemplo, gera efeitos devastadores para comunidades locais e ecossistemas inteiros. Nesse contexto, cresce a pressão da sociedade e de investidores por sustentabilidade na mineração, exigindo políticas mais rígidas e empresas comprometidas com a recuperação ambiental.
Foi neste contexto que surgiu o termo “nova mineração” para indicar o uso de práticas que reduzem os impactos ao meio ambiente. Essas práticas já vêm sendo utilizadas por algumas empresas no Brasil. A Vale, por exemplo, tem um vasto programa de responsabilidade social e ambiental.
A empresa tem parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em um programa que ajuda a proteger cerca de 800 mil hectares de florestas no Mosaico de Carajás (área que equivale a cinco vezes a cidade de São Paulo). Nesse caso, os investimentos voluntários superaram R$ 200 milhões e envolveram iniciativas como o programa Genômica da Biodiversidade Brasileira, parceria do Instituto Tecnológico Vale (ITV) com o ICMbio e cujo foco é o sequenciamento genômico de espécies da fauna e da flora amazônica. A Vale também fomenta a bioeconomia da Amazônia, apoiando cadeias produtivas extrativistas e contribuindo para a geração de renda de famílias que vivem na região, além de patrocinar iniciativas de qualificação e estruturação do órgão ambiental da região.
Segundo dados do Sistema de Comercialização e Apoio à Gestão Mineral (Sicom), do Ministério de Minas e Energia, até 2024, cerca de 20% do ouro produzido no Brasil teve sua origem questionada quanto à legalidade. Essas questões chamaram a atenção de órgãos como o Ministério Público Federal (MPF) e agências ambientais, pressionando o setor a adotar práticas mais éticas e transparentes. Em março deste ano, o STF decidiu, por unanimidade, que no comércio de ouro cabe ao vendedor comprovar a origem do minério, encerrando a presunção de boa-fé, conforme mostrou reportagem da CNN Brasil.
Além disso, algumas empresas têm investido em sistemas de monitoramento remoto, auditorias e em iniciativas para mitigar impactos ambientais, como reflorestamento e reciclagem de materiais.
Panorama econômico
O preço do ouro no mercado internacional ultrapassou os US$ 2.650 por onça em 2024, consolidando o metal como uma forma segura de investimento em tempos de incertezas econômicas e geopolíticas.
Além disso, programas governamentais como o Plano Nacional de Mineração garantem incentivos à pesquisa e exploração de jazidas de ouro, ampliando o potencial do país como player estratégico nessa área.
No Brasil, o setor de mineração caminha para um futuro marcado pela inovação tecnológica, buscando melhorar a eficiência dos processos de extração e minimizar os danos ambientais. Com isso, as perspectivas são promissoras: o mercado projeta um avanço na exploração de ouro nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde jazidas ainda pouco exploradas têm potencial para elevar a produção nacional.
PNUMA e o avanço do ouro sem mercúrio
Ainda é comum o uso de substâncias tóxicas, como o mercúrio, durante os processos de extração do ouro no Brasil. Para enfrentar esse problema, o país vem contando com parcerias internacionais, como a do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), no Projeto Ouro sem Mercúrio.
O programa busca reduzir e, em alguns casos, eliminar totalmente o uso de mercúrio na mineração artesanal e em pequena escala (Mape). Essa prática, amplamente utilizada por garimpeiros em todo o mundo, é apontada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das maiores fontes de poluição mercurial, que afeta ecossistemas inteiros e causa graves impactos à saúde humana.
Segundo o Pnuma, o Brasil, na posição de um dos maiores produtores globais de ouro, tem desempenhado um papel fundamental na adesão a iniciativas sustentáveis, em parte com o suporte técnico e financeiro do programa. O projeto Ouro sem Mercúrio, realizado em colaboração com governos estaduais e instituições locais, concentra-se principalmente em minimizar o impacto ambiental em áreas de garimpo artesanal, muito comuns na Amazônia.
A mineração artesanal ainda representa uma parcela da produção de ouro no país, mas muitas vezes ocorre sem regulamentação, ampliando os impactos negativos sobre rios, florestas e comunidades indígenas. Por meio dessa parceria, o Pnuma promove capacitações, alternativas tecnológicas e métodos que eliminam o mercúrio, além de fortalecer as políticas públicas no setor.