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Conferência empresarial com painel de palestrantes e público assistindo em grande auditório com telões exibindo informações
Exposibram (Foto: IBRAM via Flickr)

Relatórios lançados na Exposibram recomendam caminhos para os minerais críticos e estratégicos do Brasil

Cebri, Ibram e Cetem fazem diagnósticos de mercado local e macroeconômico, e apresentam diretivas para que o país aproveite o seu potencial geológico

Por Rodrigo Conceição Santos, 5 min de leitura

Publicado em 31/10/2025

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Durante a Exposibram, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) lançaram relatórios que ajudam a direcionar a estratégia de minerais críticos no Brasil. Embora elaborados de forma independente, os relatórios convergem em muitos diagnósticos e recomendações. O do Ibram, contudo, constrói a base técnica e produtiva da nova mineração, enquanto o material do Cebri propõe a arquitetura diplomática e regulatória necessária para o país ocupar posição de destaque.

O relatório “Minerais Críticos e Estratégicos no Brasil: Um Passaporte para o Futuro”, publicado recentemente pelo Ibram e desenvolvido em parceria com o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) apresenta um enquadramento técnico dos minerais essenciais à economia de baixo carbono. O documento parte do diagnóstico de que o Brasil combina dotação mineral diversificada e matriz energética limpa, condição que o posiciona com vantagem na transição global.

O relatório define essa etapa como a “Era dos Minerais Críticos e Estratégicos” e afirma que eles sustentam as bases tecnológicas da sociedade contemporânea — da saúde à conectividade, da energia à defesa. Além disso, a eletrificação da mobilidade e ao avanço das tecnologias limpas ampliam a demanda por insumos como lítio, cobre, níquel, terras raras e nióbio. Nesse contexto, o Brasil é um dos poucos países que podem integrar produção mineral e oferta de energia renovável.

O documento destaca que o país detém mais de 90% das reservas mundiais de nióbio e a segunda maior de terras raras, além de ocupar posição relevante na produção de ferro, alumínio, grafita e tântalo. Essa condição permitiria ao Brasil adotar uma estratégia de powershoring, isto é, utilizar a energia renovável como fator de competitividade para atrair investimentos em transformação mineral.

Minerais críticos e minerais estratégicos

O relatório conceitua minerais estratégicos como aqueles com reservas significativas e relevância tecnológica e comercial. Já os minerais críticos apresentam risco de suprimento, dependência externa ou escassez global. A maioria dos minerais brasileiros é enquadrada como estratégica e as exceções são o potássio e o fosfato, considerados críticos devido à forte dependência de importação, especialmente no setor agrícola.

O Brasil, porém, ainda não possui uma lista de minerais críticos, apenas de minerais estratégicos. Para o Cebri (veja mais a seguir), essa lacuna torna o país mais vulnerável e pode atrasar o aproveitamento das oportunidades abertas pela corrida global por insumos da transição energética. 

O documento do Ibram e Cetem também observa que minerais como nióbio e grafita atingiram maturidade tecnológica em razão de investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) é citada como exemplo de adensamento da cadeia, ao desenvolver aplicações do nióbio em baterias para veículos elétricos.

Já a estrutura da mineração brasileira é avaliada como “ainda voltada à exportação de produtos brutos”, o que limita a captura de valor agregado, contextualizando que o desafio está em adensar as cadeias domésticas, incorporando etapas de transformação, manufatura e reciclagem. Assim, o relatório propõe que a mineração avance da exploração para a produção de semi-manufaturados e produtos acabados, incluindo a recuperação de materiais por meio da economia circular.

O estudo chama atenção para a infraestrutura, considerada variável decisiva para a competitividade, pois logística, energia e integração de modais viabilizam projetos em regiões com reservas relevantes. Também há destaque para a dependência de insumos agrícolas: o Brasil importa mais de 95% do potássio e cerca de 70% do fosfato usados na formulação de fertilizantes.

Recomendações

Entre as medidas propostas, o relatório defende a criação de diretrizes nacionais específicas para minerais críticos e estratégicos, integrando regulamentações minerária, ambiental e industrial. A digitalização dos processos de licenciamento é apontada como condição importante para garantir agilidade e previsibilidade.

No campo do financiamento, o Ibram sugere o uso de debêntures incentivadas em projetos de mineração e infraestrutura e a criação de regimes aduaneiros especiais para equipamentos e insumos destinados à pesquisa e lavra. O aprimoramento do mapeamento geológico e o fortalecimento de polos de pesquisa e formação técnica também são considerados estruturantes da política mineral.

Um outro estudo – este produzido pelo Cebri e intitulado “O papel do Brasil na agenda global de minerais críticos e estratégicos”, situa o tema no contexto geopolítico ao avaliar que o suprimento desses minerais tornou-se uma questão estratégica no século XXI. A concentração da produção em poucos países, como China, Austrália e República Democrática do Congo, é avaliada como elevação do risco de ruptura nas cadeias globais, e o relatório clama pelo cuidado com a dependência de fontes externas. “O suprimento de minerais críticos e estratégicos é uma das questões mais importantes no tabuleiro geopolítico atual”, diz o relatório. 

O documento propõe que o país adote uma estratégia externa específica para minerais críticos, alinhando política industrial, ambiental e diplomática. Essa estratégia deveria articular a atuação do Itamaraty, do Ministério de Minas e Energia e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, de forma a garantir coerência entre competitividade e compromisso climático.

Diplomacia mineral

Imagem aérea de uma mina de carvão a céu aberto, mostrando a escavação profunda e o equipamento de mineração, rodeada por áreas verdes em um ambiente industrial.
Foto: Vale

Outra defesa é o fortalecimento da cooperação regional entre países latino-americanos produtores de minerais, com o objetivo de ampliar a capacidade de negociação e consolidar blocos de integração voltados à transição energética. Também é recomendado o alinhamento dos padrões de sustentabilidade e rastreabilidade exigidos pelos mercados consumidores, em especial o europeu.

Na diplomacia mineral, é posto que o país pode, por exemplo, ampliar sua influência se combinar estabilidade institucional, matriz energética limpa e segurança jurídica com estratégias de atração de investimento. Assim como o material do Ibram, o relatório do Cebri avalia que a produção mundial de minerais críticos está concentrada em poucos países, o que gera vulnerabilidade geopolítica e comercial. 

A China domina 61% da produção de terras raras e 79% da de grafita natural, além de controlar o refino de vários metais estratégicos. Essa concentração levou potências como Estados Unidos e União Europeia a criarem listas oficiais de minerais críticos – 50 e 34, respectivamente – e a desenvolverem políticas para garantir fornecimento e diversificação de fontes. A recomendação é que o Brasil siga essa linha, especialmente pela sua qualidade geológica.

O potencial geológico, contudo, não elimina o fato da mineração brasileira ainda ser marcada pela exportação de commodities brutas. Em 2021, cerca de 65% do valor da indústria extrativa foi exportado, por exemplo, e o país é o segundo maior produtor de ferro, mas com baixa captura de valor agregado nas cadeias produtivas.

O Cebri aponta que problemas estruturais – como falhas logísticas, mapeamento geológico insuficiente, desindustrialização e pouca integração entre pesquisa e indústria – limitam o avanço para etapas de maior valor, como refino e manufatura. 

A reconfiguração das cadeias de suprimentos, portanto, é necessária para o desenvolvimento do setor e do país, andando em conjunto com a prospecção mineral. O Cebri observa ainda que protagonismo regional pode descentralizar o desenvolvimento e atrair indústrias de tecnologia e energia. Nesse sentido, estados como Minas Gerais, Goiás e Bahia já avançam com planos estaduais voltados a minerais estratégicos, enquanto Pará, Ceará e Rio Grande do Norte identificam potencial em grafita, terras raras e lítio.

A publicação deste green paper reforça um entendimento crucial: a adaptação às mudanças do clima não é mais uma questão futurista, mas um imperativo estratégico e operacional para o setor mineral brasileiro. Eventos climáticos extremos — como secas severas, inundações e ondas de calor — já impõem riscos significativos a toda a cadeia de valor, desde a extração até a logística, afetando a continuidade da produção, a segurança de trabalhadores e comunidades, e a viabilidade econômica. Ao reconhecer essas vulnerabilidades, o setor reafirma o compromisso de integrar a resiliência climática como um pilar fundamental da agenda ESG. Este documento não apenas mapeia os desafios, mas também propõe um conjunto robusto de ações, desde o monitoramento aprimorado de variáveis climáticas até a implementação de planos de contingência e o uso racional de água, demonstrando a proatividade necessária para transformar riscos em medidas concretas de proteção e sustentabilidade.

Neste cenário de crescentes pressões regulatórias e de mercado, torna-se essencial um alinhamento com as melhores práticas nacionais e internacionais, garantindo a clareza e a harmonização das normas de reporte. A resiliência das operações depende diretamente da capacidade de incorporar o risco climático no planejamento e nas tomadas de decisão. 

Portanto, esta publicação convida a uma reflexão e a um trabalho colaborativo entre empresas, governo e sociedade. Ao fortalecer as práticas de gestão de risco e buscar métricas claras para o financiamento da adaptação, o setor mineral se posiciona para garantir não apenas sua própria competitividade e longevidade, mas também sua contribuição para a estabilidade econômica e social do país frente aos desafios climáticos globais.

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

Dúvidas mais comuns

Minerais críticos são aqueles que apresentam risco de suprimento, dependência externa ou escassez global, enquanto minerais estratégicos possuem reservas significativas e relevância tecnológica e comercial. A maioria dos minerais brasileiros é enquadrada como estratégica, com exceção do potássio e fosfato, considerados críticos devido à forte dependência de importação, especialmente no setor agrícola.

O Brasil detém mais de 90% das reservas mundiais de nióbio e a segunda maior de terras raras, além de ocupar posição relevante na produção de ferro, alumínio, grafita e tântalo. Combinando essa dotação mineral diversificada com uma matriz energética limpa, o país está posicionado com vantagem na transição global para uma economia de baixo carbono.

Os minerais críticos sustentam as bases tecnológicas da sociedade contemporânea, desde a saúde até a conectividade, energia e defesa. A eletrificação da mobilidade e o avanço das tecnologias limpas ampliam significativamente a demanda por insumos como lítio, cobre, níquel, terras raras e nióbio, tornando-os essenciais para a transição energética mundial.

Powershoring é a utilização da energia renovável como fator de competitividade para atrair investimentos em transformação mineral. O Brasil, sendo um dos poucos países que podem integrar produção mineral com oferta de energia renovável, está em posição privilegiada para adotar essa estratégia e capturar maior valor agregado nas cadeias produtivas.

A estrutura da mineração brasileira ainda está voltada à exportação de produtos brutos, limitando a captura de valor agregado. Problemas estruturais como falhas logísticas, mapeamento geológico insuficiente, desindustrialização e pouca integração entre pesquisa e indústria impedem o avanço para etapas de maior valor, como refino e manufatura.

Os relatórios recomendam a criação de diretrizes nacionais específicas para minerais críticos e estratégicos, digitalização dos processos de licenciamento, uso de debêntures incentivadas para projetos de mineração, criação de regimes aduaneiros especiais, aprimoramento do mapeamento geológico e fortalecimento de polos de pesquisa e formação técnica.

O Brasil pode ampliar sua influência combinando estabilidade institucional, matriz energética limpa e segurança jurídica com estratégias de atração de investimento. Também é recomendado fortalecer a cooperação regional entre países latino-americanos produtores de minerais, alinhar padrões de sustentabilidade e rastreabilidade com mercados consumidores, especialmente o europeu, e criar uma lista oficial de minerais críticos.

A concentração da produção em poucos países, como China, Austrália e República Democrática do Congo, eleva significativamente o risco de ruptura nas cadeias globais de suprimento. A China domina 61% da produção de terras raras e 79% da grafita natural, além de controlar o refino de vários metais estratégicos, criando vulnerabilidade geopolítica e comercial para países dependentes.