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Conferência empresarial com painel de palestrantes e público assistindo em grande auditório com telões exibindo informações
Exposibram (Foto: IBRAM via Flickr)

Relatórios lançados na Exposibram recomendam caminhos para os minerais críticos e estratégicos do Brasil

Cebri, Ibram e Cetem fazem diagnósticos de mercado local e macroeconômico, e apresentam diretivas para que o país aproveite o seu potencial geológico

Por Rodrigo Conceição Santos, 5 min de leitura

Publicado em 31/10/2025

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  • O Brasil possui vantagem competitiva em minerais críticos por combinar reservas diversificadas, incluindo 90% do nióbio mundial, com matriz energética limpa para atrair investimentos em transformação mineral.
  • Relatórios do Ibram e Cebri identificam que a mineração brasileira exporta commodities brutas, capturando apenas 35% do valor agregado, limitando o desenvolvimento de cadeias de refino e manufatura.
  • Os documentos recomendam criar lista oficial de minerais críticos, digitalizar licenciamento, fortalecer cooperação regional latino-americana e alinhar diplomacia com política industrial para consolidar posição geopolítica do Brasil.
Resumo revisado pela redação.

Durante a Exposibram, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) lançaram relatórios que ajudam a direcionar a estratégia de minerais críticos no Brasil. Embora elaborados de forma independente, os relatórios convergem em muitos diagnósticos e recomendações. O do Ibram, contudo, constrói a base técnica e produtiva da nova mineração, enquanto o material do Cebri propõe a arquitetura diplomática e regulatória necessária para o país ocupar posição de destaque.

O relatório “Minerais Críticos e Estratégicos no Brasil: Um Passaporte para o Futuro”, publicado recentemente pelo Ibram e desenvolvido em parceria com o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) apresenta um enquadramento técnico dos minerais essenciais à economia de baixo carbono. O documento parte do diagnóstico de que o Brasil combina dotação mineral diversificada e matriz energética limpa, condição que o posiciona com vantagem na transição global.

O relatório define essa etapa como a “Era dos Minerais Críticos e Estratégicos” e afirma que eles sustentam as bases tecnológicas da sociedade contemporânea — da saúde à conectividade, da energia à defesa. Além disso, a eletrificação da mobilidade e ao avanço das tecnologias limpas ampliam a demanda por insumos como lítio, cobre, níquel, terras raras e nióbio. Nesse contexto, o Brasil é um dos poucos países que podem integrar produção mineral e oferta de energia renovável.

O documento destaca que o país detém mais de 90% das reservas mundiais de nióbio e a segunda maior de terras raras, além de ocupar posição relevante na produção de ferro, alumínio, grafita e tântalo. Essa condição permitiria ao Brasil adotar uma estratégia de powershoring, isto é, utilizar a energia renovável como fator de competitividade para atrair investimentos em transformação mineral.

Minerais críticos e minerais estratégicos

O relatório conceitua minerais estratégicos como aqueles com reservas significativas e relevância tecnológica e comercial. Já os minerais críticos apresentam risco de suprimento, dependência externa ou escassez global. A maioria dos minerais brasileiros é enquadrada como estratégica e as exceções são o potássio e o fosfato, considerados críticos devido à forte dependência de importação, especialmente no setor agrícola.

O Brasil, porém, ainda não possui uma lista de minerais críticos, apenas de minerais estratégicos. Para o Cebri (veja mais a seguir), essa lacuna torna o país mais vulnerável e pode atrasar o aproveitamento das oportunidades abertas pela corrida global por insumos da transição energética. 

O documento do Ibram e Cetem também observa que minerais como nióbio e grafita atingiram maturidade tecnológica em razão de investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) é citada como exemplo de adensamento da cadeia, ao desenvolver aplicações do nióbio em baterias para veículos elétricos.

Já a estrutura da mineração brasileira é avaliada como “ainda voltada à exportação de produtos brutos”, o que limita a captura de valor agregado, contextualizando que o desafio está em adensar as cadeias domésticas, incorporando etapas de transformação, manufatura e reciclagem. Assim, o relatório propõe que a mineração avance da exploração para a produção de semi-manufaturados e produtos acabados, incluindo a recuperação de materiais por meio da economia circular.

O estudo chama atenção para a infraestrutura, considerada variável decisiva para a competitividade, pois logística, energia e integração de modais viabilizam projetos em regiões com reservas relevantes. Também há destaque para a dependência de insumos agrícolas: o Brasil importa mais de 95% do potássio e cerca de 70% do fosfato usados na formulação de fertilizantes.

Recomendações

Entre as medidas propostas, o relatório defende a criação de diretrizes nacionais específicas para minerais críticos e estratégicos, integrando regulamentações minerária, ambiental e industrial. A digitalização dos processos de licenciamento é apontada como condição importante para garantir agilidade e previsibilidade.

No campo do financiamento, o Ibram sugere o uso de debêntures incentivadas em projetos de mineração e infraestrutura e a criação de regimes aduaneiros especiais para equipamentos e insumos destinados à pesquisa e lavra. O aprimoramento do mapeamento geológico e o fortalecimento de polos de pesquisa e formação técnica também são considerados estruturantes da política mineral.

Um outro estudo – este produzido pelo Cebri e intitulado “O papel do Brasil na agenda global de minerais críticos e estratégicos”, situa o tema no contexto geopolítico ao avaliar que o suprimento desses minerais tornou-se uma questão estratégica no século XXI. A concentração da produção em poucos países, como China, Austrália e República Democrática do Congo, é avaliada como elevação do risco de ruptura nas cadeias globais, e o relatório clama pelo cuidado com a dependência de fontes externas. “O suprimento de minerais críticos e estratégicos é uma das questões mais importantes no tabuleiro geopolítico atual”, diz o relatório. 

O documento propõe que o país adote uma estratégia externa específica para minerais críticos, alinhando política industrial, ambiental e diplomática. Essa estratégia deveria articular a atuação do Itamaraty, do Ministério de Minas e Energia e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, de forma a garantir coerência entre competitividade e compromisso climático.

Diplomacia mineral

Imagem aérea de uma mina de carvão a céu aberto, mostrando a escavação profunda e o equipamento de mineração, rodeada por áreas verdes em um ambiente industrial.
Foto: Vale

Outra defesa é o fortalecimento da cooperação regional entre países latino-americanos produtores de minerais, com o objetivo de ampliar a capacidade de negociação e consolidar blocos de integração voltados à transição energética. Também é recomendado o alinhamento dos padrões de sustentabilidade e rastreabilidade exigidos pelos mercados consumidores, em especial o europeu.

Na diplomacia mineral, é posto que o país pode, por exemplo, ampliar sua influência se combinar estabilidade institucional, matriz energética limpa e segurança jurídica com estratégias de atração de investimento. Assim como o material do Ibram, o relatório do Cebri avalia que a produção mundial de minerais críticos está concentrada em poucos países, o que gera vulnerabilidade geopolítica e comercial. 

A China domina 61% da produção de terras raras e 79% da de grafita natural, além de controlar o refino de vários metais estratégicos. Essa concentração levou potências como Estados Unidos e União Europeia a criarem listas oficiais de minerais críticos – 50 e 34, respectivamente – e a desenvolverem políticas para garantir fornecimento e diversificação de fontes. A recomendação é que o Brasil siga essa linha, especialmente pela sua qualidade geológica.

O potencial geológico, contudo, não elimina o fato da mineração brasileira ainda ser marcada pela exportação de commodities brutas. Em 2021, cerca de 65% do valor da indústria extrativa foi exportado, por exemplo, e o país é o segundo maior produtor de ferro, mas com baixa captura de valor agregado nas cadeias produtivas.

O Cebri aponta que problemas estruturais – como falhas logísticas, mapeamento geológico insuficiente, desindustrialização e pouca integração entre pesquisa e indústria – limitam o avanço para etapas de maior valor, como refino e manufatura. 

A reconfiguração das cadeias de suprimentos, portanto, é necessária para o desenvolvimento do setor e do país, andando em conjunto com a prospecção mineral. O Cebri observa ainda que protagonismo regional pode descentralizar o desenvolvimento e atrair indústrias de tecnologia e energia. Nesse sentido, estados como Minas Gerais, Goiás e Bahia já avançam com planos estaduais voltados a minerais estratégicos, enquanto Pará, Ceará e Rio Grande do Norte identificam potencial em grafita, terras raras e lítio.

A publicação deste green paper reforça um entendimento crucial: a adaptação às mudanças do clima não é mais uma questão futurista, mas um imperativo estratégico e operacional para o setor mineral brasileiro. Eventos climáticos extremos — como secas severas, inundações e ondas de calor — já impõem riscos significativos a toda a cadeia de valor, desde a extração até a logística, afetando a continuidade da produção, a segurança de trabalhadores e comunidades, e a viabilidade econômica. Ao reconhecer essas vulnerabilidades, o setor reafirma o compromisso de integrar a resiliência climática como um pilar fundamental da agenda ESG. Este documento não apenas mapeia os desafios, mas também propõe um conjunto robusto de ações, desde o monitoramento aprimorado de variáveis climáticas até a implementação de planos de contingência e o uso racional de água, demonstrando a proatividade necessária para transformar riscos em medidas concretas de proteção e sustentabilidade.

Neste cenário de crescentes pressões regulatórias e de mercado, torna-se essencial um alinhamento com as melhores práticas nacionais e internacionais, garantindo a clareza e a harmonização das normas de reporte. A resiliência das operações depende diretamente da capacidade de incorporar o risco climático no planejamento e nas tomadas de decisão. 

Portanto, esta publicação convida a uma reflexão e a um trabalho colaborativo entre empresas, governo e sociedade. Ao fortalecer as práticas de gestão de risco e buscar métricas claras para o financiamento da adaptação, o setor mineral se posiciona para garantir não apenas sua própria competitividade e longevidade, mas também sua contribuição para a estabilidade econômica e social do país frente aos desafios climáticos globais.

Confira a cobertura completa da Exposibram na página especial do Radar Mineração.

Dúvidas mais comuns

O Brasil possui uma dotação mineral diversificada, destacando-se por deter mais de 90% das reservas mundiais de nióbio e a segunda maior reserva de terras raras. Além disso, o país ocupa posição relevante na produção de ferro, alumínio, grafita e tântalo. Minerais como grafita, níquel, lítio e terras-raras são considerados críticos e estratégicos, especialmente importantes para a transição energética global e tecnologias limpas.

Minerais estratégicos são aqueles com reservas significativas e relevância tecnológica e comercial, enquanto minerais críticos apresentam risco de suprimento, dependência externa ou escassez global. A maioria dos minerais brasileiros é enquadrada como estratégica, com exceção do potássio e fosfato, que são considerados críticos devido à forte dependência de importação, especialmente no setor agrícola.

Os minerais críticos sustentam as bases tecnológicas da sociedade contemporânea, desde saúde e conectividade até energia e defesa. O Brasil possui vantagem competitiva única ao combinar dotação mineral diversificada com matriz energética limpa, posicionando-se estrategicamente para a transição global. Essa combinação permite ao país adotar uma estratégia de powershoring, utilizando energia renovável como fator de competitividade para atrair investimentos em transformação mineral.

A estratégia de powershoring consiste em utilizar a energia renovável como fator de competitividade para atrair investimentos em transformação mineral. O Brasil, ao combinar reservas minerais significativas com matriz energética limpa, pode implementar essa estratégia para adensar as cadeias domésticas, incorporando etapas de transformação, manufatura e reciclagem, em vez de apenas exportar produtos brutos.

Os relatórios recomendam a criação de diretrizes nacionais específicas para minerais críticos e estratégicos, digitalização dos processos de licenciamento, uso de debêntures incentivadas para financiamento de projetos, e aprimoramento do mapeamento geológico. Também propõem o fortalecimento de polos de pesquisa, cooperação regional com países latino-americanos produtores de minerais, e alinhamento de padrões de sustentabilidade com mercados consumidores, especialmente o europeu.

Embora o Brasil possua uma lista de minerais estratégicos, ainda não possui uma lista oficial de minerais críticos. Segundo o Cebri, essa lacuna torna o país mais vulnerável e pode atrasar o aproveitamento das oportunidades abertas pela corrida global por insumos da transição energética. A criação dessa lista é considerada essencial para alinhar o Brasil com potências como Estados Unidos e União Europeia, que já possuem listas oficiais de minerais críticos.

O Brasil precisa avançar da exploração para a produção de semi-manufaturados e produtos acabados, incluindo a recuperação de materiais por meio da economia circular. Atualmente, cerca de 65% do valor da indústria extrativa é exportado como commodities brutas. Para aumentar a captura de valor, é necessário adensar as cadeias domésticas com etapas de transformação, manufatura e reciclagem, além de melhorar a infraestrutura logística e energética.

A diplomacia mineral é fundamental para o Brasil ampliar sua influência global, combinando estabilidade institucional, matriz energética limpa e segurança jurídica com estratégias de atração de investimento. O país deve fortalecer a cooperação regional entre países latino-americanos produtores de minerais para ampliar a capacidade de negociação e consolidar blocos de integração voltados à transição energética, alinhando política industrial, ambiental e diplomática.