Vista aérea de campos de lítio no deserto do Atacama, Chile, América do Sul, uma paisagem de onde nascem as baterias
Vista aérea de campos de lítio no deserto do Atacama, no Chile. (Foto: Freedom_wanted/ Shutterstock)

Chile também se prepara para a corrida dos minerais críticos

Assim como o Brasil, país latino-americano tem expectativa econômica alta com a demanda prevista para a transição energética global

Por Rodrigo Conceição Santos, 5 min de leitura

Publicado em 08/10/2025

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A mineração é atividade econômica importante para o Chile. Entre 2020 e 2024, o setor respondeu por 61% das exportações e contribuiu com mais de 12% do PIB do país. Além de sua importância para a balança comercial, a indústria foi responsável por 8% dos impostos arrecadados e pela geração de 3,1% dos empregos chilenos. Com mais de 8 mil empresas ligadas à atividade, estima-se que a carteira de projetos ultrapasse a casa dos 83 bilhões de dólares até 2033, incluindo a extração de cobre – principal produto do Chile – e de minerais críticos como o rênio e o lítio.

Pausa para o lítio: assim como Argentina e Bolívia, seus vizinhos no chamado “Triângulo do Lítio”, e outros países, inclusive Brasil, o Chile tem vastas reservas do mineral. Isso coloca o país como um fornecedor estratégico para a crescente demanda global por baterias, essenciais tanto para a indústria automotiva quanto para dispositivos eletrônicos.

A relevância do lítio está diretamente ligada à transição energética e à meta global de neutralizar as emissões de gases de efeito estufa até 2050. As baterias de íon-lítio alimentam veículos elétricos, tecnologia-chave para substituir os motores a combustão (gasolina e diesel, principalmente) e descarbonizar o setor de transportes.

Paralelamente, a expansão da digitalização e da Internet das Coisas (IoT) impulsiona ainda mais a demanda. Desde redes de saneamento e energia até equipamentos da construção civil, sensores e dispositivos conectados precisam de fontes de energia autônomas. As baterias de lítio atendem a essa necessidade, alimentando também os onipresentes smartphones e tablets que definem a comunicação e os negócios na era moderna.

Em 2024, as reservas de lítio do Chile foram projetadas em quase 11 milhões de toneladas, posicionando o país em quarto lugar no ranking global, atrás de Bolívia (23 milhões), Argentina (22 milhões) e Estados Unidos (14 milhões). No entanto, quando o assunto é capacidade produtiva, o Chile assume um papel de maior destaque. No ano passado, o país foi o segundo maior produtor mundial, com 44 mil toneladas, superado apenas pela Austrália, que liderou com uma produção de 86 mil toneladas.

Estratégia mineral chilena

Com o protagonismo do cobre e do lítio, o Chile desenvolveu uma estratégia nacional robusta para seus minerais críticos. A visão foi detalhada por Claudia Rodríguez, vice-presidenta executiva da Comissão Chilena de Cobre (Cochilco), durante o Mining Summit 2025, evento organizado pela Amcham-Chile e a Honeywell. Segundo ela, a posição de liderança do país — primeiro produtor mundial de cobre e segundo de lítio — é fundamental para a transição energética e a descarbonização global. “Acredito que essa projeção pode ser um impulsionamento econômico e social para o Chile, além de uma oportunidade de diversificar a nossa economia, atrair investimentos e desenvolver cadeias produtivas mais sustentáveis, com fomento à inovação e desenvolvimento”, afirmou.

A estratégia chilena para minerais críticos se organiza em quatro eixos principais:

  • Produção e diversificação;
  • Produção com responsabilidade socioambiental;
  • Desenvolvimento industrial local;
  • Geração de valor agregado.

Um pilar dessa política é a busca por associações de benefício mútuo, com foco em países parceiros estratégicos, como o Brasil e os Estados Unidos.

Além do cobre e do lítio, a estratégia abarca o rênio, um metal de transição de alto valor. Suas aplicações são importantes para indústrias como a aeroespacial, a petroquímica e a eletrônica. Nos eletrônicos, por exemplo, o rênio é utilizado na produção de termopares — que medem temperaturas em equipamentos — devido à sua alta resistência ao desgaste e baixa corrosão. Para concretizar esse potencial, Claudia reforçou que “o desafio é criar uma cadeia de provedores locais e ampliar o valor agregado dos minerais críticos”, priorizando a atração de investimentos estrangeiros que gerem sinergias regionais nas Américas.

Cobre: o ouro chileno

Um trem longo transporta pilhas de cátodos de cobre através de uma vasta paisagem de mineração no Chile
Transporte de cátodos de cobre. (Foto: Jose Luis Stephens/ Shutterstock)

A utilização de cobre na economia local é uma demonstração da força chilena com o mineral. De cinzeiros a imãs de geladeira, o cobre está também nas feiras artesanais, restaurantes, mobiliário urbano, igrejas e em quase todas as atividades humanas do país. E, no que depender do setor mineral, estará cada vez mais tanto no país quanto no mundo.

Além dos mercados internacionais já desenvolvidos – como o dos Estados Unidos, que é o maior comprador do cobre chileno – o minério tem uma cadeia de aplicação consolidada na energia elétrica, indústria automotiva, construção civil e outros mercados. “Em 2024, a produção chilena de cobre chegou a 5,3 milhões de toneladas, com 71,8% provenientes de mineradoras privadas, 24,1% da estatal Codelco e 4% de pequenas e médias mineradoras”, detalhou a vice-presidente executiva da Comissão Chilena de Cobre (Cochilco).

Segundo a Câmara Chilena e Norteamericana de Comércio (Amcham-Chile), em 2027 o país deverá representar 27% da produção mundial de cobre. Já no ano passado, o mundo consumiu 25,7 milhões de toneladas de cobre, segundo a Cochilo, e 20% disso veio do Chile.

Para consolidar as projeções positivas, há também um levantamento do Banco Mundial estimando que, até 2050, o mundo deverá consumir 60% mais cobre e 90% mais lítio. Isto está relacionado à transição energética, considerando que boa parte dos cabeamentos de distribuição de energia são feitos de cobre, que é o material não raro de maior condutividade elétrica descoberto até o momento. 

Nesse contexto, novamente, os Estados Unidos figuram como parceiro importante para a ambição chilena. 

A Amcham é a Câmara Chilena-Norte Americana de Comércio e reúne mais de 600 empresas, com investimentos que superam os US$ 27 bilhões. Isso equivale a 8% do PIB do país e sustenta cerca de 600 mil empregos. Advinda dos Estados Unidos, a Amcham-CL representa o segundo maior país investidor do Chile. O primeiro, em índice de Investimento Estrangeiro Direto, é o Canadá, de acordo com o World Investment Report, das Nações Unidas.

Segundo Roberta Valença, presidente da Amcham-CL, cerca de 60% do capital estadunidense aplicado no país latino-americano está vinculado à mineração, energia e tecnologia. “Além disso, o Chile foi o principal exportador de cobre para os EUA, respondendo por 41% das compras do país norte-americano, além de fornecer lítio e cobalto”, disse.

Glossário da Mineração

Descarbonização

Processo de redução progressiva das emissões de gases de efeito estufa, especialmente CO₂, visando a alcançar neutralidade de carbono. Na mineração, envolve eletrificação de frotas, substituição de combustíveis fósseis por energias renováveis, eficiência energética, uso de tecnologias de captura de carbono e otimização de processos industriais.

Mineração 4.0

Conceito que representa a transformação digital da indústria mineral, integrando tecnologias como inteligência artificial, Internet das Coisas (IoT), automação, robótica, big data e sensoriamento remoto. Visa a aumentar produtividade, segurança e sustentabilidade das operações por meio de processos inteligentes, equipamentos autônomos e tomada de decisão baseada em dados em tempo real.

Minerais críticos

São elementos químicos essenciais para setores estratégicos como defesa, energia renovável, tecnologia e transição energética, com oferta limitada ou concentrada geograficamente. Incluem terras raras, lítio, cobalto, grafita e nióbio, entre outros. São fundamentais para fabricação de baterias, painéis solares, chips e outras tecnologias avançadas, apresentando alta relevância econômica e geopolítica.

Transição energética

Mudança global de fontes de energia fósseis para renováveis e limpas, visando a reduzir emissões de carbono e combater mudanças climáticas. Aumenta significativamente a demanda por minerais críticos como lítio, cobalto, cobre e terras raras, essenciais para painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos, tornando a mineração estratégica neste processo.

Desafios 

Carlos Urenda, gerente geral do Conselho Mineiro do Chile – associação que reúne as grandes mineradoras do país – avaliou que as oportunidades comentadas pelos especialistas anteriores só serão aproveitadas se houver avanço tecnológico nas minas. “Automação e robótica, como ocorre nos caminhões fora de estrada autônomos, além de internet das coisas, realidade virtual, gêmeos digitais, eletromobilidade, impressões 3D e a inteligência artificial, entre isso tudo, são temas que devem fazer parte do nosso dia a dia cada vez mais”, disse.

A visão dele foi compartilhada por outros especialistas e referendada pela pesquisa de Maturidade Digital e Transformação Tecnológica da Mineração Chilena, apurada pela Accenture e o Centro de Inovação do Chile, a qual aponta que duas, a cada cinco empresas, têm uma área dedicada à transformação digital, mas apenas 60% das que têm desenvolveram planos concretos para avançar nessa área. “A capacidade de adoção ainda é a principal barreira, segundo o estudo”, disse Urenda.

No Chile, assim como no Brasil e em grande parte do mundo, há escassez de recursos humanos para a implantação tecnológica. Roberta Valença, da Amcham-CL, relatou que a mineração chilena vai precisar de mais de 34 mil novos técnicos e profissionais de tecnologia entre 2023 e 2032. “A demanda é por profissionais de digitalização, IA, manutenção inteligente e infraestrutura 4.0, por exemplo”, detalhou.

Para ela, isto está em linha com o dito de que a “mineração do futuro” vai ser autônoma, digitalizada e segura. “Já hoje, o contexto é de que 75% dos empregadores dizem que há escassez de talentos digitais no mundo”, completou.

Para o vice-presidente da Honeywell na América Latina, José Simon, a inteligência artificial tem papel decisivo para equilibrar extração e proteção ambiental. “Centros integrados de eficiência mineral permitem informações mais rápidas e precisas”, afirmou.

A Honeywell, focada em automação para indústrias, inclusive a mineração, segue as projeções e trabalha para ampliar a aplicação de tecnologias nas minerações chilenas e de todo o planeta. Segundo José Simon, mais de 45% da produção global de cobre já utiliza sistemas da Honeywell atualmente, volume que corresponde a mais de 500 processos minerais em clientes como Vale, BHP e Rio Tinto. 

Simon também defendeu avanço na automatização e digitalização, mas acrescentou foco em controle de emissões, cibersegurança e visibilidade das operações para prover a “mineração do futuro”.