A mineração é atividade econômica importante para o Chile. Entre 2020 e 2024, o setor respondeu por 61% das exportações e contribuiu com mais de 12% do PIB do país. Além de sua importância para a balança comercial, a indústria foi responsável por 8% dos impostos arrecadados e pela geração de 3,1% dos empregos chilenos. Com mais de 8 mil empresas ligadas à atividade, estima-se que a carteira de projetos ultrapasse a casa dos 83 bilhões de dólares até 2033, incluindo a extração de cobre – principal produto do Chile – e de minerais críticos como o rênio e o lítio.
Pausa para o lítio: assim como Argentina e Bolívia, seus vizinhos no chamado “Triângulo do Lítio”, e outros países, inclusive Brasil, o Chile tem vastas reservas do mineral. Isso coloca o país como um fornecedor estratégico para a crescente demanda global por baterias, essenciais tanto para a indústria automotiva quanto para dispositivos eletrônicos.
A relevância do lítio está diretamente ligada à transição energética e à meta global de neutralizar as emissões de gases de efeito estufa até 2050. As baterias de íon-lítio alimentam veículos elétricos, tecnologia-chave para substituir os motores a combustão (gasolina e diesel, principalmente) e descarbonizar o setor de transportes.
Paralelamente, a expansão da digitalização e da Internet das Coisas (IoT) impulsiona ainda mais a demanda. Desde redes de saneamento e energia até equipamentos da construção civil, sensores e dispositivos conectados precisam de fontes de energia autônomas. As baterias de lítio atendem a essa necessidade, alimentando também os onipresentes smartphones e tablets que definem a comunicação e os negócios na era moderna.
Em 2024, as reservas de lítio do Chile foram projetadas em quase 11 milhões de toneladas, posicionando o país em quarto lugar no ranking global, atrás de Bolívia (23 milhões), Argentina (22 milhões) e Estados Unidos (14 milhões). No entanto, quando o assunto é capacidade produtiva, o Chile assume um papel de maior destaque. No ano passado, o país foi o segundo maior produtor mundial, com 44 mil toneladas, superado apenas pela Austrália, que liderou com uma produção de 86 mil toneladas.
Estratégia mineral chilena
Com o protagonismo do cobre e do lítio, o Chile desenvolveu uma estratégia nacional robusta para seus minerais críticos. A visão foi detalhada por Claudia Rodríguez, vice-presidenta executiva da Comissão Chilena de Cobre (Cochilco), durante o Mining Summit 2025, evento organizado pela Amcham-Chile e a Honeywell. Segundo ela, a posição de liderança do país — primeiro produtor mundial de cobre e segundo de lítio — é fundamental para a transição energética e a descarbonização global. “Acredito que essa projeção pode ser um impulsionamento econômico e social para o Chile, além de uma oportunidade de diversificar a nossa economia, atrair investimentos e desenvolver cadeias produtivas mais sustentáveis, com fomento à inovação e desenvolvimento”, afirmou.
A estratégia chilena para minerais críticos se organiza em quatro eixos principais:
- Produção e diversificação;
- Produção com responsabilidade socioambiental;
- Desenvolvimento industrial local;
- Geração de valor agregado.
Um pilar dessa política é a busca por associações de benefício mútuo, com foco em países parceiros estratégicos, como o Brasil e os Estados Unidos.
Além do cobre e do lítio, a estratégia abarca o rênio, um metal de transição de alto valor. Suas aplicações são importantes para indústrias como a aeroespacial, a petroquímica e a eletrônica. Nos eletrônicos, por exemplo, o rênio é utilizado na produção de termopares — que medem temperaturas em equipamentos — devido à sua alta resistência ao desgaste e baixa corrosão. Para concretizar esse potencial, Claudia reforçou que “o desafio é criar uma cadeia de provedores locais e ampliar o valor agregado dos minerais críticos”, priorizando a atração de investimentos estrangeiros que gerem sinergias regionais nas Américas.
Cobre: o ouro chileno

A utilização de cobre na economia local é uma demonstração da força chilena com o mineral. De cinzeiros a imãs de geladeira, o cobre está também nas feiras artesanais, restaurantes, mobiliário urbano, igrejas e em quase todas as atividades humanas do país. E, no que depender do setor mineral, estará cada vez mais tanto no país quanto no mundo.
Além dos mercados internacionais já desenvolvidos – como o dos Estados Unidos, que é o maior comprador do cobre chileno – o minério tem uma cadeia de aplicação consolidada na energia elétrica, indústria automotiva, construção civil e outros mercados. “Em 2024, a produção chilena de cobre chegou a 5,3 milhões de toneladas, com 71,8% provenientes de mineradoras privadas, 24,1% da estatal Codelco e 4% de pequenas e médias mineradoras”, detalhou a vice-presidente executiva da Comissão Chilena de Cobre (Cochilco).
Segundo a Câmara Chilena e Norteamericana de Comércio (Amcham-Chile), em 2027 o país deverá representar 27% da produção mundial de cobre. Já no ano passado, o mundo consumiu 25,7 milhões de toneladas de cobre, segundo a Cochilo, e 20% disso veio do Chile.
Para consolidar as projeções positivas, há também um levantamento do Banco Mundial estimando que, até 2050, o mundo deverá consumir 60% mais cobre e 90% mais lítio. Isto está relacionado à transição energética, considerando que boa parte dos cabeamentos de distribuição de energia são feitos de cobre, que é o material não raro de maior condutividade elétrica descoberto até o momento.
Nesse contexto, novamente, os Estados Unidos figuram como parceiro importante para a ambição chilena.
A Amcham é a Câmara Chilena-Norte Americana de Comércio e reúne mais de 600 empresas, com investimentos que superam os US$ 27 bilhões. Isso equivale a 8% do PIB do país e sustenta cerca de 600 mil empregos. Advinda dos Estados Unidos, a Amcham-CL representa o segundo maior país investidor do Chile. O primeiro, em índice de Investimento Estrangeiro Direto, é o Canadá, de acordo com o World Investment Report, das Nações Unidas.
Segundo Roberta Valença, presidente da Amcham-CL, cerca de 60% do capital estadunidense aplicado no país latino-americano está vinculado à mineração, energia e tecnologia. “Além disso, o Chile foi o principal exportador de cobre para os EUA, respondendo por 41% das compras do país norte-americano, além de fornecer lítio e cobalto”, disse.
Glossário da Mineração
Descarbonização
Processo de redução progressiva das emissões de gases de efeito estufa, especialmente CO₂, visando a alcançar neutralidade de carbono. Na mineração, envolve eletrificação de frotas, substituição de combustíveis fósseis por energias renováveis, eficiência energética, uso de tecnologias de captura de carbono e otimização de processos industriais.
Mineração 4.0
Conceito que representa a transformação digital da indústria mineral, integrando tecnologias como inteligência artificial, Internet das Coisas (IoT), automação, robótica, big data e sensoriamento remoto. Visa a aumentar produtividade, segurança e sustentabilidade das operações por meio de processos inteligentes, equipamentos autônomos e tomada de decisão baseada em dados em tempo real.
Minerais críticos
São elementos químicos essenciais para setores estratégicos como defesa, energia renovável, tecnologia e transição energética, com oferta limitada ou concentrada geograficamente. Incluem terras raras, lítio, cobalto, grafita e nióbio, entre outros. São fundamentais para fabricação de baterias, painéis solares, chips e outras tecnologias avançadas, apresentando alta relevância econômica e geopolítica.
Transição energética
Mudança global de fontes de energia fósseis para renováveis e limpas, visando a reduzir emissões de carbono e combater mudanças climáticas. Aumenta significativamente a demanda por minerais críticos como lítio, cobalto, cobre e terras raras, essenciais para painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos, tornando a mineração estratégica neste processo.
Desafios
Carlos Urenda, gerente geral do Conselho Mineiro do Chile – associação que reúne as grandes mineradoras do país – avaliou que as oportunidades comentadas pelos especialistas anteriores só serão aproveitadas se houver avanço tecnológico nas minas. “Automação e robótica, como ocorre nos caminhões fora de estrada autônomos, além de internet das coisas, realidade virtual, gêmeos digitais, eletromobilidade, impressões 3D e a inteligência artificial, entre isso tudo, são temas que devem fazer parte do nosso dia a dia cada vez mais”, disse.
A visão dele foi compartilhada por outros especialistas e referendada pela pesquisa de Maturidade Digital e Transformação Tecnológica da Mineração Chilena, apurada pela Accenture e o Centro de Inovação do Chile, a qual aponta que duas, a cada cinco empresas, têm uma área dedicada à transformação digital, mas apenas 60% das que têm desenvolveram planos concretos para avançar nessa área. “A capacidade de adoção ainda é a principal barreira, segundo o estudo”, disse Urenda.
No Chile, assim como no Brasil e em grande parte do mundo, há escassez de recursos humanos para a implantação tecnológica. Roberta Valença, da Amcham-CL, relatou que a mineração chilena vai precisar de mais de 34 mil novos técnicos e profissionais de tecnologia entre 2023 e 2032. “A demanda é por profissionais de digitalização, IA, manutenção inteligente e infraestrutura 4.0, por exemplo”, detalhou.
Para ela, isto está em linha com o dito de que a “mineração do futuro” vai ser autônoma, digitalizada e segura. “Já hoje, o contexto é de que 75% dos empregadores dizem que há escassez de talentos digitais no mundo”, completou.
Para o vice-presidente da Honeywell na América Latina, José Simon, a inteligência artificial tem papel decisivo para equilibrar extração e proteção ambiental. “Centros integrados de eficiência mineral permitem informações mais rápidas e precisas”, afirmou.
A Honeywell, focada em automação para indústrias, inclusive a mineração, segue as projeções e trabalha para ampliar a aplicação de tecnologias nas minerações chilenas e de todo o planeta. Segundo José Simon, mais de 45% da produção global de cobre já utiliza sistemas da Honeywell atualmente, volume que corresponde a mais de 500 processos minerais em clientes como Vale, BHP e Rio Tinto.
Simon também defendeu avanço na automatização e digitalização, mas acrescentou foco em controle de emissões, cibersegurança e visibilidade das operações para prover a “mineração do futuro”.