- A produção de semicondutores concentra-se em poucos países, especialmente Taiwan, tornando a mineração de recursos críticos uma alternativa estratégica para economias como o Brasil.
- China domina o processamento de minerais essenciais aos chips enquanto EUA restringe acesso chinês à tecnologia avançada, intensificando a disputa geopolítica por semicondutores.
- Brasil pode priorizar fornecimento de minerais críticos e desenvolvimento de aplicações em inteligência artificial em vez de competir diretamente na fabricação de chips.
A alta demanda por semicondutores transformou os chips em um dos ativos mais estratégicos da economia contemporânea. Base da infraestrutura digital — especialmente de dispositivos conectados e sistemas de inteligência artificial — esses componentes estão no centro das disputas geopolíticas globais, levando grandes economias a buscar controle sobre sua produção e suprimento.
Essa nova geopolítica dos semicondutores, no entanto, não se limita a laboratórios de alta tecnologia ou fábricas ultramodernas. Ela começa no subsolo, na extração de minerais essenciais à fabricação de circuitos, sensores, baterias e equipamentos de computação avançada. Com reservas relevantes desses recursos, o Brasil busca se posicionar nesse mercado não apenas pela fabricação de chips, mas pela possibilidade de transformar sua abundância mineral em vantagem tecnológica.
Segundo o historiador econômico Chris Miller, o autor do livro Chip War, poucos países conseguem produzir chips avançados, e essa escassez transforma os semicondutores em um recurso estratégico. Isso se intensificou nos últimos anos porque esses componentes fazem parte do desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial mais sofisticadas.
China x EUA

Entre as duas principais potências da atualidade, os semicondutores são parte importante da disputa pela liderança econômica global. Enquanto os EUA tentam restringir o acesso chinês aos chips mais avançados e fortalecer a produção doméstica, a China concentra o processamento de minerais críticos usados na produção dos chips.
Parte do embate gira em torno de Taiwan, que detém a maior produção global dos semicondutores mais avançados. Para Miller, essa posição dificilmente será substituída na próxima década, mesmo com novas fábricas anunciadas em países como Japão e Estados Unidos. A maior parte da capacidade tecnológica de ponta continuará localizada na ilha. Esse cenário desperta ainda mais o interesse chinês sobre Taiwan, que já esteve sob sua administração.
Segundo ele, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) concentra a produção dos semicondutores mais avançados — aqueles fabricados nos chamados nós tecnológicos de ponta — segmento no qual a China ainda tem capacidade limitada.
A importância estratégica dos chips, no entanto, não significa que o valor econômico seja limitado apenas à fabricação. Miller argumenta que os semicondutores são uma base indispensável, mas que a maior parte da riqueza da próxima década virá das aplicações desenvolvidas sobre eles. Para países como o Brasil, esse cenário abre duas perspectivas: a primeira é se posicionar como fornecedor de minerais críticos para essa indústria e a segunda é avançar na utilização de IA, com o desenvolvimento de aplicações e serviços sustentados pela expansão da infraestrutura de data centers no país.
Toda essa nova dinâmica pode redefinir o lugar do Brasil na cadeia de valor: em vez de competir na produção de semicondutores, o país tem a possibilidade de concentrar esforços nos minerais críticos e na criação de serviços que utilizem esses componentes como base. Uma das possibilidades está na atração de investimentos em pesquisa e desenvolvimento na área de IA e data centers, dadas as condições energéticas atrativas.