painel "Minerais Críticos e Transições Justas: oportunidades e perspectivas para um desenvolvimento justo e equitativo"
Da esq. para a direita: Luísa Bianchet, Gilberto Dias Calaes, Beatriz Mattos, Edlayan Passos e Clarissa Vargas (Imagem extraída de transmissão no YouTube/ Canal E+ Transição Energética)

Transições justas na mineração exigem soberania, inclusão e cooperação internacional

Debate na Rio Climate Act Week destaca a necessidade de conciliar a exploração de minerais críticos com o desenvolvimento socioeconômico e soberanias nacionais

Por Rafael Maia, 3 min de leitura

Publicado em 23/09/2025

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  • O Brasil e países do Sul Global possuem minerais críticos essenciais para tecnologias verdes, mas enfrentam assimetria global que concentra inovação no Norte, exigindo renegociação de termos comerciais e transferência tecnológica para transições justas.
  • Transições justas demandam governança coordenada entre governo, setor privado e academia para gerar valor local duradouro às comunidades, não apenas compensar empregos perdidos, conforme propõe o Consenso de Belém.
  • Países emergentes necessitam de apoio em acesso à informação, mercados e financiamento climático para converter riqueza mineral em desenvolvimento sustentável e soberano, evitando perpetuar dependência econômica.
Resumo revisado pela redação.

A transição para uma economia de baixo carbono exige uma nova abordagem para a mineração, focada em justiça social, soberania e inclusão. Durante a edição de estreia da Rio Climate Action Week (RCAW), especialistas debateram como a exploração de minerais críticos pode reduzir desigualdades e alinhar a ação ambiental ao desenvolvimento, especialmente no Brasil e em outros países do Sul Global.

O painel “Minerais Críticos e Transições Justas: oportunidades e perspectivas para um desenvolvimento justo e equitativo” evidenciou a assimetria mundial: enquanto as tecnologias verdes se concentram no Norte, os minerais estratégicos estão no Sul Global. O Brasil, com sua matriz energética renovável e custos competitivos, possui uma vantagem comparativa para negociar seus ativos minerais de forma mais vantajosa.

Para ser considerada justa, a transição energética não pode ser apenas tecnológica, ela deve incorporar aspectos socioambientais e de desenvolvimento regional. Isso exige que os países detentores dos recursos minerais recebam apoio tecnológico, financeiro e de capacitação, um tema que vem ganhando força em fóruns internacionais como a COP.

Luísa Bianchet, analista de Relações Internacionais do Instituto E+, um think tank brasileiro que conecta diferentes setores para pautar o tema, destacou que a transição é sistêmica e demanda uma reestruturação dos sistemas financeiro e de poder para descentralizar o desenvolvimento mundial.

Além da compensação: o que significa uma transição justa?

Gilberto Dias Calaes, doutor pela UFRJ e especialista em economia da pesquisa mineral pela Queen’s University, questionou por que a mineração é vista como bênção em alguns lugares e maldição em outros. Segundo ele, a resposta está na atuação coordenada entre governo, setor privado e academia, para criar marcos regulatórios que garantam o desenvolvimento sustentável.

A abordagem tradicional de “transição justa”, muitas vezes focada apenas em compensar empregos perdidos, foi criticada. Tracy Ledger, do Public Affairs Research Institute, argumentou que a verdadeira transição deve gerar benefícios e valor duradouros para as comunidades locais. “Existe um sentimento no Amapá de que ‘vieram aqui e pegaram tudo’, sem nenhum benefício para a gente”, exemplificou Edlayan Passos, do Instituto E+, referindo-se à exploração de manganês na região.

Nesse sentido, Luísa Bianchet introduziu o conceito de inclusão adversa: não basta inserir um agente ou comunidade na cadeia produtiva, é preciso que essa inclusão seja equitativa e gere valor real.

Governança e estratégias para um desenvolvimento equitativo

O estudo “Critical Minerals: South Africa and Brazil Dialogues for a Just Transition” foi apresentado como um roteiro para a governança de minerais críticos. Dele surgiu o Consenso de Belém, que propõe conciliar ação climática com a redução da desigualdade, baseado em princípios como:

  • Mitigação de emissões;
  • Agregação de valor local à produção mineral;
  • Criação de empregos de qualidade.

Essa abordagem visa a uma “descentralização do desenvolvimento econômico”, como resumiu Passos. Ele alertou para a necessidade de criar oportunidades para a crescente população jovem do continente africano, evitando que a falta de perspectiva impulsione crises migratórias.

Outra estratégia discutida foi o powershoring: a realocação de indústrias de alto consumo energético para regiões com fontes renováveis abundantes. 

Jorge Arbache, ex-vice-presidente de Setor Privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), apontou o Brasil como um destino ideal para empresas que buscam descarbonizar sua produção. 

Clarissa Vargas, especialista em energia e indústria no Instituto Clima e Sociedade (iCS), complementou que o powershoring deve ser uma estratégia global de descarbonização que gere empregos locais, e não apenas uma busca por energia barata.

Soberania do conhecimento: o pilar para a autonomia

Para que a transição seja justa, a transferência de tecnologia e a construção da autonomia são essenciais. Beatriz Mattos, coordenadora de pesquisas da plataforma CIPÓ, listou os principais desafios para os países do Sul Global nesse sentido:

  • Alto custo de capital;
  • Falta de espaço fiscal para investimentos;
  • Financiamento climático insuficiente;
  • Concentração de tecnologias no Norte Global e na China.

Gilberto Calaes concluiu que, para avançar, os países emergentes precisam de apoio em três eixos: (1) acesso à informação e conhecimento, (2) acesso a mercados e (3) acesso a financiamentos. Garantir essas condições, segundo ele, é mandatório para que a riqueza mineral se traduza em desenvolvimento sustentável e soberano.

Dúvidas mais comuns

Uma transição justa na mineração vai além de simples compensação de empregos perdidos. Ela deve ser sistêmica, incorporando aspectos socioambientais e de desenvolvimento regional, garantindo que as comunidades locais recebam benefícios e valor duradouros. Isso inclui a agregação de valor local à produção mineral, criação de empregos de qualidade e mitigação de emissões, alinhando a ação ambiental com o desenvolvimento equitativo.

O Brasil possui uma matriz energética renovável, custos competitivos e abundância de minerais estratégicos, enquanto as tecnologias verdes se concentram no Norte Global. Essa combinação coloca o país em posição privilegiada para negociar seus ativos minerais de forma mais vantajosa e atrair indústrias de alto consumo energético que buscam descarbonizar sua produção através do powershoring.

Inclusão adversa significa que não basta simplesmente inserir um agente ou comunidade na cadeia produtiva de mineração. É necessário que essa inclusão seja equitativa e gere valor real para as comunidades locais, evitando situações onde recursos são explorados sem benefícios tangíveis para a população afetada.

Segundo especialistas, os países emergentes precisam de apoio em três eixos fundamentais: (1) acesso à informação e conhecimento, (2) acesso a mercados e (3) acesso a financiamentos. Garantir essas condições é mandatório para que a riqueza mineral se traduza em desenvolvimento sustentável e soberano.

Powershoring é a realocação de indústrias de alto consumo energético para regiões com fontes renováveis abundantes. Quando implementado como estratégia global de descarbonização, gera empregos locais e contribui para transições justas, em vez de ser apenas uma busca por energia barata.

A transferência de tecnologia e a construção da autonomia são essenciais para transições justas. A concentração de tecnologias no Norte Global e na China representa um desafio para países do Sul Global, tornando a soberania do conhecimento um pilar fundamental para garantir que os países emergentes possam desenvolver suas próprias soluções e não dependam exclusivamente de transferências externas.

O Consenso de Belém é um roteiro para a governança de minerais críticos que propõe conciliar ação climática com a redução da desigualdade. Seus princípios incluem: mitigação de emissões, agregação de valor local à produção mineral e criação de empregos de qualidade, visando a uma descentralização do desenvolvimento econômico.

Os principais desafios incluem alto custo de capital, falta de espaço fiscal para investimentos, financiamento climático insuficiente e concentração de tecnologias no Norte Global. Esses obstáculos impedem que países emergentes transformem sua riqueza mineral em desenvolvimento sustentável, exigindo apoio internacional coordenado.