Um homem mais velho com cabelos brancos, vestindo um terno escuro e camisa branca, está sorrindo. O plano de fundo apresenta formas geométricas abstratas em tons de verde e bege, ecoando sutilmente a interconexão das barragens internacionais.
Luís Valenzuela, consultor da área de geotecnia e membro do ITRB (Divulgação/ Arte)

Boas práticas internacionais dão norte à questão das barragens

Especialista mostra como a experiência do Chile pode ajudar o Brasil a direcionar o tema com eficiência

Por Ana Paula Grabois*, 4 min de leitura

Publicado em 05/05/2026

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  • O Chile adotou barragens a jusante após decreto de 1970 que desestimulou construções a montante, evitando acidentes por 55 anos em região de alta sismicidade, enquanto Brasil implementou medida similar apenas após Brumadinho em 2015.
  • A segurança de barragens depende não apenas do tipo construtivo, mas da qualidade rigorosa do projeto, execução e operação conforme padrões internacionais como ICMM e GISTM, além do cumprimento legal.
  • O setor de mineração brasileiro enfrenta desafio de descaracterizar barragens a montante vulneráveis próximas a populações, adotando alternativas como rejeitos filtrados e depósitos em canais de concreto para reduzir riscos.
Resumo revisado pela redação.

O consultor da área de geotecnia e membro do ITRB (Internacional Technical Review Board) Luís Valenzuela, esteve no Brasil para falar da experiência positiva do Chile com barragens a jusante. Ele participou da Geomin, um congresso de engenharia geotécnica aplicada à mineração, em Ouro Preto  (MG) no final de 2025 e concedeu entrevista ao Radar Mineração, na qual pontua a importância de seguir não só as leis locais, mas os padrões internacionais de boas práticas quando o assunto é barragem. O consultor chama a atenção para a questão da qualidade dos projetos de construção e de sua execução.

Por que o Chile é uma referência na questão de barragens mais seguras?

Depósito de relaves Las Tórtolas, no Chile, ligado à mina de cobre Los Bronces
Depósito de relaves Las Tórtolas, no Chile, ligado à mina de cobre Los Bronces (Foto: WeHaKa / Wikimedia Commons)

O Chile teve um equivalente a Brumadinho, que foi a falha de uma barragem a montante de El Cobre, em 1965, e quando morreram mais de 250 pessoas. Como consequência desse desastre, que foi a primeira catástrofe na mineração lá no Chile, houve a discussão de que não se podia continuar construindo barragens à montante, considerando que o Chile é muito vulnerável à ação sísmica. É o país mais sísmico do mundo. O sismo de maior magnitude nunca antes registrado no mundo ocorreu no Chile em 1960, por exemplo, e as barragens são construídas dentro desse contexto. 

Teve uma discussão, e em 1970, o governo fez um decreto em que não proibia, mas falava que não era recomendável continuar com barragens a montante, e que elas seriam aprovadas somente com a assinatura do diretor do sistema que controlava, em casos excepcionais e nos quais fosse mostrado a segurança dessas barragens específicas de montagem. Nenhuma mineradora se interessou em usar essa exceção. A indústria adotou imediatamente a construção de barragens a jusante.

Como a comunidade internacional viu esse movimento?

Uma crítica que o Chile recebeu durante muitos anos, e que aqui no Brasil eu recebi como representante do Chile muitas vezes, foi que as coisas desse tipo devem ser solucionadas por razões técnicas, e não por um decreto legal. Eu tentava explicar, mas que, no caso do Chile, o nível de sismicidade era tão alto, que a probabilidade de que continuassem falhando outras barragens construídas a montante era muito grande. Ainda que bem projetadas e bem construídas, o risco ainda era muito grande. Além disso, o Chile é como um espaguete, estreito, e todas as barragens ficam muito perto, entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico. E todos os epicentros sísmicos estão na costa. Nunca houve uma barragem a mais de 100 quilômetros de um epicentro.

Enfim, aconteceu Brumadinho e as autoridades brasileiras tomaram a mesma medida que foi tão criticada. Então tem essa diferença de 55 anos. Desde 1970, que foi inibida a construção a montante no Chile, até hoje, não teve nenhum acidente importante. É um caso único no mundo. Teve acidente na Austrália, no Canadá, na África do Sul.

O Chile teve um só caso, em 2010, um terremoto que foi o sexto no mundo em termos de magnitude. Foi uma barragem construída a montante, contra a lei, mas foi disfarçada como foi apresentada, dando a aparência de que era construção a jusante. Foi assim a primeira etapa, mas, na segunda etapa, eles começaram a colocar rejeito acima dessa. 

Então foi uma fraude? 

Sim, uma fraude que implica também que as autoridades reguladoras aprovaram algo que não deveria ter sido aprovado. Essa barragem era de muita má qualidade, com projetos ruins. Ocorreu o sismo de magnitude 8,8 e morreram quatro pessoas. Era uma família que tinha construído uma casa em uma propriedade agrícola próxima à construção da barragem. Essa foi a única mancha no Chile nesses 55 anos. E isso tem chamado atenção no mundo. O que faz o Chile, que tem os maiores terremotos do mundo, ter barragens sem incidentes?

A resposta é o fato de não adotar o modelo a montante?

Sim, mas não só isso. No Chile, constroem a jusante de vários tipos, mas constroem com muito rigor técnico. Não adianta cumprir com as obrigações legais, preencher uma tabelinha em um relatório, se não tiver um projeto que corresponda às melhores práticas internacionais ou aos guidelines do ICMM (Conselho Internacional de Mineração e Metais). É preciso cumprir tudo. E não só na parte de projeto, mas na parte de construção e na parte de operação também. Enfim, a questão não é ter ou não ter barragem. É como fazer barragem. Existe muita preocupação dentro da mineração brasileira e eu percebi que o fato de não ter barragens impede a mineração de poder dispor de um espaço, por exemplo, para acumular temporariamente uma certa quantidade de água que precisa recuperar a partir dos rejeitos. E agora estão passando para rejeitos filtrados, com a descaracterização das barragens. E adotaram vários tipos. E há também barragens construídas a jusante. 

Como você vê hoje o esforço das mineradoras em descaracterizar as barragens?

O Chile não descaracterizou muitas barragens. Ficou um monte de barragens pequenas, construídas a montante. Não são mais ativas, mas não foram descaracterizadas. A natureza está tomando conta delas. E são, no geral, depósitos de rejeitos muito pequenos, de minerações de pouco tamanho. Tenho fotografias de uma grande, onde ocorreu falha em 1928 e morreram 54 pessoas. A barragem está lá ainda, mas, após a falha, ela foi reforçada e ficou ativa por quase dez anos.

Hoje, algumas estão sendo descaracterizadas, mas com a remoção de minério. Ou seja: fazem um tratamento, tiram mais cobre do rejeito e colocam esse rejeito em um canal de concreto que leva até o depósito a vários quilômetros de distância. Isso é completamente diferente do Brasil, onde muitas das barragens que foram construídas a montante tinham características técnicas não muito favoráveis, realmente vulneráveis, e elas ficam perto de populações importantes. Portanto, o perigo existe e a descaracterização é uma das medidas a serem tomadas.

O setor está cumprindo o padrão de gerenciamento de rejeitos? 

O GISTM (Padrão Global da Indústria para a Gestão de Rejeitos) não é um documento totalmente técnico, mas sim direcionado à governança, em boas práticas para o gerenciamento de rejeitos. E foi muito bom porque existiam muitos problemas dentro do gerenciamento de rejeitos na indústria da mineração internacional, em todos os países. Hoje, toda mineradora tem que nomear um responsável técnico, que legalmente é responsável. Todas também têm que ter um técnico internacional. Essas exigências levaram as empresas a melhorarem a governança.

* Especial para o Radar Mineração

Dúvidas mais comuns

A segurança de barragens refere-se ao conjunto de práticas, normas e procedimentos que visam garantir a integridade estrutural e a operação segura dessas estruturas. Envolve não apenas o cumprimento de obrigações legais, mas também a adoção de padrões internacionais de boas práticas, como os guidelines do ICMM (Conselho Internacional de Mineração e Metais), abrangendo projeto, construção e operação contínua.

O Chile é referência porque, desde 1970, adotou a construção de barragens a jusante após um desastre em 1965 que matou mais de 250 pessoas. Essa decisão foi motivada pela alta sismicidade do país, considerado o mais sísmico do mundo. Desde então, o Chile não registrou acidentes significativos em 55 anos, demonstrando a eficácia dessa abordagem combinada com rigor técnico na execução e operação das barragens.

Barragens a montante são construídas na direção da encosta acima, enquanto barragens a jusante são construídas na direção da encosta abaixo. O Chile optou por barragens a jusante após reconhecer que, em regiões de alta sismicidade como o país, as barragens a montante apresentam risco muito maior de falha, mesmo quando bem projetadas e construídas. Essa mudança de modelo foi fundamental para melhorar a segurança.

Brumadinho foi causado pela falha de uma barragem a montante, similar ao desastre chileno de El Cobre em 1965. Após Brumadinho, as autoridades brasileiras tomaram a mesma medida que o Chile havia adotado 55 anos antes: restringiram a construção de barragens a montante. Essa resposta demonstra como a experiência internacional pode orientar políticas de segurança, mesmo que tardiamente.

Segundo o padrão GISTM (Padrão Global da Indústria para a Gestão de Rejeitos), toda mineradora deve nomear um responsável técnico que é legalmente responsável pela segurança da barragem. Além disso, as empresas devem contar com um técnico internacional. Essas exigências melhoraram significativamente a governança e as práticas de gerenciamento de rejeitos na indústria de mineração.

A qualidade do projeto e da execução são fundamentais para a segurança das barragens. Não basta cumprir obrigações legais ou preencher relatórios; é necessário que o projeto corresponda às melhores práticas internacionais e aos guidelines do ICMM. O rigor técnico deve ser mantido não apenas na fase de projeto, mas também na construção e operação contínua da barragem.

Descaracterização é o processo de remover ou neutralizar barragens que não estão mais ativas. No Brasil, muitas barragens construídas a montante estão sendo descaracterizadas porque apresentavam características técnicas desfavoráveis e ficavam próximas a populações. O Brasil está adotando várias abordagens, incluindo rejeitos filtrados e barragens a jusante, diferentemente do Chile, que deixou muitas barragens pequenas inativas sem descaracterizá-las.

O GISTM (Padrão Global da Indústria para a Gestão de Rejeitos) é um documento direcionado à governança e boas práticas para o gerenciamento de rejeitos. Ao exigir que toda mineradora nomeie um responsável técnico legalmente responsável e conte com um técnico internacional, o padrão levou as empresas a melhorarem significativamente sua governança e práticas de segurança, resolvendo muitos problemas que existiam na indústria de mineração internacional.