O consultor da área de geotecnia e membro do ITRB (Internacional Technical Review Board) Luís Valenzuela, esteve no Brasil para falar da experiência positiva do Chile com barragens a jusante. Ele participou da Geomin, um congresso de engenharia geotécnica aplicada à mineração, em Ouro Preto (MG) no final de 2025 e concedeu entrevista ao Radar Mineração, na qual pontua a importância de seguir não só as leis locais, mas os padrões internacionais de boas práticas quando o assunto é barragem. O consultor chama a atenção para a questão da qualidade dos projetos de construção e de sua execução.
Por que o Chile é uma referência na questão de barragens mais seguras?

O Chile teve um equivalente a Brumadinho, que foi a falha de uma barragem a montante de El Cobre, em 1965, e quando morreram mais de 250 pessoas. Como consequência desse desastre, que foi a primeira catástrofe na mineração lá no Chile, houve a discussão de que não se podia continuar construindo barragens à montante, considerando que o Chile é muito vulnerável à ação sísmica. É o país mais sísmico do mundo. O sismo de maior magnitude nunca antes registrado no mundo ocorreu no Chile em 1960, por exemplo, e as barragens são construídas dentro desse contexto.
Teve uma discussão, e em 1970, o governo fez um decreto em que não proibia, mas falava que não era recomendável continuar com barragens a montante, e que elas seriam aprovadas somente com a assinatura do diretor do sistema que controlava, em casos excepcionais e nos quais fosse mostrado a segurança dessas barragens específicas de montagem. Nenhuma mineradora se interessou em usar essa exceção. A indústria adotou imediatamente a construção de barragens a jusante.
Como a comunidade internacional viu esse movimento?
Uma crítica que o Chile recebeu durante muitos anos, e que aqui no Brasil eu recebi como representante do Chile muitas vezes, foi que as coisas desse tipo devem ser solucionadas por razões técnicas, e não por um decreto legal. Eu tentava explicar, mas que, no caso do Chile, o nível de sismicidade era tão alto, que a probabilidade de que continuassem falhando outras barragens construídas a montante era muito grande. Ainda que bem projetadas e bem construídas, o risco ainda era muito grande. Além disso, o Chile é como um espaguete, estreito, e todas as barragens ficam muito perto, entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico. E todos os epicentros sísmicos estão na costa. Nunca houve uma barragem a mais de 100 quilômetros de um epicentro.
Enfim, aconteceu Brumadinho e as autoridades brasileiras tomaram a mesma medida que foi tão criticada. Então tem essa diferença de 55 anos. Desde 1970, que foi inibida a construção a montante no Chile, até hoje, não teve nenhum acidente importante. É um caso único no mundo. Teve acidente na Austrália, no Canadá, na África do Sul.
O Chile teve um só caso, em 2010, um terremoto que foi o sexto no mundo em termos de magnitude. Foi uma barragem construída a montante, contra a lei, mas foi disfarçada como foi apresentada, dando a aparência de que era construção a jusante. Foi assim a primeira etapa, mas, na segunda etapa, eles começaram a colocar rejeito acima dessa.
Então foi uma fraude?
Sim, uma fraude que implica também que as autoridades reguladoras aprovaram algo que não deveria ter sido aprovado. Essa barragem era de muita má qualidade, com projetos ruins. Ocorreu o sismo de magnitude 8,8 e morreram quatro pessoas. Era uma família que tinha construído uma casa em uma propriedade agrícola próxima à construção da barragem. Essa foi a única mancha no Chile nesses 55 anos. E isso tem chamado atenção no mundo. O que faz o Chile, que tem os maiores terremotos do mundo, ter barragens sem incidentes?
A resposta é o fato de não adotar o modelo a montante?
Sim, mas não só isso. No Chile, constroem a jusante de vários tipos, mas constroem com muito rigor técnico. Não adianta cumprir com as obrigações legais, preencher uma tabelinha em um relatório, se não tiver um projeto que corresponda às melhores práticas internacionais ou aos guidelines do ICMM (Conselho Internacional de Mineração e Metais). É preciso cumprir tudo. E não só na parte de projeto, mas na parte de construção e na parte de operação também. Enfim, a questão não é ter ou não ter barragem. É como fazer barragem. Existe muita preocupação dentro da mineração brasileira e eu percebi que o fato de não ter barragens impede a mineração de poder dispor de um espaço, por exemplo, para acumular temporariamente uma certa quantidade de água que precisa recuperar a partir dos rejeitos. E agora estão passando para rejeitos filtrados, com a descaracterização das barragens. E adotaram vários tipos. E há também barragens construídas a jusante.
Como você vê hoje o esforço das mineradoras em descaracterizar as barragens?
O Chile não descaracterizou muitas barragens. Ficou um monte de barragens pequenas, construídas a montante. Não são mais ativas, mas não foram descaracterizadas. A natureza está tomando conta delas. E são, no geral, depósitos de rejeitos muito pequenos, de minerações de pouco tamanho. Tenho fotografias de uma grande, onde ocorreu falha em 1928 e morreram 54 pessoas. A barragem está lá ainda, mas, após a falha, ela foi reforçada e ficou ativa por quase dez anos.
Hoje, algumas estão sendo descaracterizadas, mas com a remoção de minério. Ou seja: fazem um tratamento, tiram mais cobre do rejeito e colocam esse rejeito em um canal de concreto que leva até o depósito a vários quilômetros de distância. Isso é completamente diferente do Brasil, onde muitas das barragens que foram construídas a montante tinham características técnicas não muito favoráveis, realmente vulneráveis, e elas ficam perto de populações importantes. Portanto, o perigo existe e a descaracterização é uma das medidas a serem tomadas.
O setor está cumprindo o padrão de gerenciamento de rejeitos?
O GISTM (Padrão Global da Indústria para a Gestão de Rejeitos) não é um documento totalmente técnico, mas sim direcionado à governança, em boas práticas para o gerenciamento de rejeitos. E foi muito bom porque existiam muitos problemas dentro do gerenciamento de rejeitos na indústria da mineração internacional, em todos os países. Hoje, toda mineradora tem que nomear um responsável técnico, que legalmente é responsável. Todas também têm que ter um técnico internacional. Essas exigências levaram as empresas a melhorarem a governança.
* Especial para o Radar Mineração
Dúvidas mais comuns
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O Chile é referência porque adotou barragens a jusante após um desastre em 1965 que matou mais de 250 pessoas. Desde 1970, quando o governo desestimulou a construção de barragens a montante, o país não teve acidentes significativos em 55 anos, apesar de ser o mais sísmico do mundo. Essa abordagem, combinada com rigor técnico na construção e operação, demonstrou ser altamente eficaz na prevenção de desastres.
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Barragens a montante são construídas na direção da encosta, enquanto barragens a jusante são construídas na direção do vale. O Chile abandonou as barragens a montante porque sua alta sismicidade aumentava significativamente o risco de falha, mesmo em estruturas bem projetadas. As barragens a jusante oferecem maior estabilidade em regiões sísmicas e são consideradas mais seguras para operações de mineração.
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Após o desastre de Brumadinho em 2015, o Brasil adotou medidas similares às do Chile, proibindo a construção de novas barragens a montante. Essa decisão foi baseada na experiência chilena de 55 anos, que demonstrou que em regiões com alta atividade sísmica ou vulnerabilidades geológicas, as barragens a montante apresentam risco inaceitável mesmo quando bem construídas. A medida reflete a importância de seguir padrões internacionais de segurança.
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Seguir apenas as obrigações legais locais é insuficiente para garantir segurança de barragens. É necessário cumprir as melhores práticas internacionais e diretrizes do ICMM (Conselho Internacional de Mineração e Metais) em projeto, construção e operação. Essa abordagem rigorosa, como praticada no Chile, garante que as estruturas sejam resilientes a eventos extremos e que a qualidade técnica não seja comprometida por conformidade meramente burocrática.
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O Padrão Global da Indústria para a Gestão de Rejeitos (GISTM) estabelece boas práticas de governança e gerenciamento de rejeitos. Ele exige que toda mineradora nomeie um responsável técnico legalmente responsável e contrate um técnico internacional. Essas exigências melhoraram significativamente a governança do setor, reduzindo problemas que existiam no gerenciamento de rejeitos em nível internacional.
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Descaracterização é o processo de remover ou neutralizar barragens inativas. No Chile, algumas barragens são descaracterizadas através da remoção de minério dos rejeitos, seguida de tratamento e transporte do material em canais de concreto para depósitos distantes. No Brasil, a descaracterização é mais urgente porque muitas barragens a montante têm características técnicas vulneráveis e estão localizadas próximas a populações, representando risco significativo.
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Em 2010, ocorreu um acidente envolvendo uma barragem que foi fraudulentamente apresentada como construção a jusante, mas era na verdade a montante. O terremoto de magnitude 8,8 causou a morte de quatro pessoas. Este incidente revelou falhas na aprovação regulatória e na qualidade do projeto, mas permanece como exceção única em mais de cinco décadas, demonstrando a eficácia da estratégia chilena quando corretamente implementada.
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A qualidade técnica é fundamental para a segurança de barragens. Não basta cumprir requisitos legais em relatórios; é necessário que projetos correspondam às melhores práticas internacionais e que a execução seja rigorosa. O Chile demonstra que mesmo em um país altamente sísmico, barragens bem projetadas, construídas e operadas com rigor técnico mantêm excelente histórico de segurança, enquanto barragens de má qualidade falham mesmo em condições menos extremas.