- Engenheiros de minas expandem competências tradicionais para incluir transformação digital, análise de dados e gestão de riscos socioambientais, respondendo à demanda por minerais críticos e pressões de descarbonização.
- A formação versátil em matemática, física e modelagem capacita engenheiros a aprender continuamente e aplicar conhecimentos em múltiplas áreas, tornando-os profissionais altamente demandados pelo setor mineral.
- O Brasil triplicou a formação de engenheiros de minas desde 2000, mas ainda enfrenta desafio de atratividade e retenção de talentos, com demanda global superior à oferta de profissionais especializados.
A mineração vive um momento de protagonismo impulsionado pela busca por minerais críticos e estratégicos, pela reindustrialização e pelas novas demandas socioambientais. Nesse cenário, a carreira em engenharia de minas expande seu escopo tradicional para incorporar competências em transformação digital, análise de dados e gestão de riscos sociais e ambientais.
Nesta entrevista exclusiva ao Radar Mineração, o professor doutor Maurício Bergerman, docente do Departamento de Engenharia de Minas e de Petróleo da Escola Politécnica da USP e conselheiro da Associação Paulista de Engenharia de Minas (Apemi), analisa os desafios de atratividade do setor e a evolução do perfil desses profissionais. Com uma trajetória que une pesquisa acadêmica e experiência na indústria, Bergerman detalha como a formação versátil e a capacidade de aprendizado tornam o engenheiro peça-chave para os novos horizontes da mineração brasileira.
Na posse da atual diretoria da Apemi, comentou-se, ironicamente, que hoje “todo mundo virou especialista em terras raras”. Além do destaque dos minerais críticos para a geoeconomia, há questões relacionadas à transição energética, ao clima e à nova indústria. Como isso tudo afeta a atratividade para os cursos de engenharia e a especialização em mineração?
A mineração é um setor industrial que, no mundo todo, tem participação menor no PIB, com exceção de países muito específicos, como Canadá, Austrália e África do Sul, onde o peso da atividade mineral no produto interno bruto é maior. É muito comum vermos as pessoas se interessarem por engenharia mecânica, elétrica, civil e química, mais do que nas engenharias ligadas à mineração. Historicamente e no mundo todo, o setor tem alguma dificuldade de atrair profissionais, seja por ser uma atividade pouco conhecida, seja pela percepção da sociedade de que esse setor gera impactos sociais e ambientais. Ao trazer à luz o quanto a mineração é importante para o nosso dia a dia, sem dúvida abre-se uma porta e um horizonte para muitos estudantes que estão nesse momento de escolha.
Essa é uma dificuldade que tanto as universidades têm para atrair estudantes quanto as próprias empresas têm para atrair profissionais mais especializados em geologia, engenharia de minas e engenharia metalúrgica. Além de técnicos e dos profissionais de outras áreas, há um fluxo considerável de pessoas que já estão na mineração e que se interessam por fazer graduação para se tornarem engenheiros de minas e geólogos.
Portanto, técnicos e operadores abastecem as escolas de engenharia. E há também um fluxo muito interessante de engenheiros de outras áreas — mecânica, química, elétrica e civil — que percebem na mineração a oportunidade de desenvolver uma carreira dinâmica, com muitas possibilidades, e muitas vezes com uma remuneração acima da média de outras áreas.
A proximidade com os polos de mineração, muitas vezes com familiares trabalhando direta ou indiretamente no setor, influi nas decisões profissionais?
Esse foco regional é, sem dúvida, muito relevante. Entre os polos minerais, podemos falar do mais tradicional, antigo e consolidado: as regiões de Belo Horizonte, Ouro Preto e Mariana. É fato que nessas regiões tem-se uma cultura mineral muito forte. Há o filho do profissional da mineração, o neto, o irmão…
Além das regiões tradicionais, há um polo consolidado de engenharia de minas no Pará, onde há movimento positivo de atração de profissionais que já conhecem o potencial da região. Aqui em São Paulo, muitas vezes temos o desafio de apresentar para o estudante o que é a engenharia de minas. O aluno até se atrai por essa área, mas muitas vezes só vem a conhecer a mineração ao ingressar no curso.
De maneira geral, quando se fala em carreira na mineração, o senso comum é pensar em geologia. Qual é o escopo de um engenheiro de mineração? Em que áreas atua?

É mesmo interessante mencionar a geologia, que é realmente uma área mais difundida do que a engenharia de minas.
Até no número de cursos, não é?
Exatamente. Há mais cursos de geologia do que de engenharia de mineração. Sem dúvida é uma área mais conhecida. Os geólogos têm atuação também em outras áreas, como hidrogeologia e geotecnia. Muitas vezes, a geologia é uma profissão que aparece mais, mesmo na escola, na parte da ciência, das geociências. Meu filho mesmo tem 9 anos e já tem algum contato com geologia, com rochas, com minerais. Então, isso acaba atraindo interesse. Mas o engenheiro, independente de ser engenheiro de minas, civil ou de outras especialidades, é a pessoa que vai projetar e desenvolver soluções que ainda não existem.
E qual a tendência dentro do “guarda-chuva” da engenharia de minas? Há algo voltado à especialização nas atividades de extração e processamento?
Essas são as duas áreas-núcleo, mas a mineração é muito mais do que isso. Há disciplinas ligadas ao meio ambiente e à economia mineral. O engenheiro de minas pode atuar, por exemplo, com segurança do trabalho, que é muito importante. Existem várias áreas ao redor da mineração. O profissional se forma engenheiro de minas, mas não existe no Brasil essa especialização já na graduação. A depender da universidade, é possível fazer disciplinas optativas que direcionam mais para um lado ou outro.
No geral, a pessoa escolhe uma área — lavra ou tratamento — e dentro disso há subáreas. Na lavra, são pessoas especializadas em desmonte de rocha, transporte e escavação. Na área de beneficiamento, são especializadas em cominuição, processos de separação, flotação e separação magnética. É uma gama grande de conhecimentos e as pessoas vão, ao longo da carreira, se especializando.
Vivemos em uma era em que temos transformação digital em tudo. Hoje, biólogos ou astrônomos passam mais tempo tratando dados do que olhando microscópio ou telescópio. Há também todas as questões de ESG. Como fica o leque de competências? O que mudou nas exigências do engenheiro tradicional para hoje?
Interessante você mencionar astronomia, que eu conheço um pouco. É um curso basicamente de física, matemática e programação. O que menos se faz é olhar no telescópio. Isso é quase uma atividade de fim de semana. No caso da engenharia, hoje se fala muito mais em impacto social.
Muitas vezes o maior impacto de um projeto não é ambiental, mas social — comunidades indígenas, quilombolas, produtores rurais.A mineração está com um olhar muito diferente para essa relação com a sociedade.
E na área de barragens houve uma mudança total. Hoje há centrais de monitoramento 24 horas, com múltiplas camadas de controle: laser, sismógrafo, satélite, câmera, piezômetros. E claro que a inteligência artificial e análise de dados abrem um mundo novo. A mineração sempre teve muita informação. Atualmente, é possível prever falhas com pequenas variações de dados, o que abre espaço para a manutenção preditiva.
Neste momento, o setor sofre uma pressão econômica muito forte para otimizações, relacionadas a metas de descarbonização e responsabilidade social. Essa complexidade seria um indutor dessa busca por ferramentas de informação?
Exatamente. Até por ser um curso tão diverso, pesado, com bastante matemática, física e disciplinas variadas, o engenheiro é um profissional que aprendeu a aprender durante o seu curso. Mas é claro que a universidade oferece cada vez mais ferramentas para que ele saia mais preparado para o mercado, mas isso não reduz a necessidade de atualização e conhecimento o tempo todo.
A descarbonização vai em linha com toda a agenda de impacto social e ambiental. É interessante destacar que hoje é o próprio estudante que traz também essa demanda de preservação. Ele quer trabalhar com alguma coisa que veja como algo que vai impactar positivamente a sociedade.
Essa é uma mudança muito interessante no perfil do estudante, que já não é mais alguém que só quer um emprego estável para ficar a vida toda, com uma preocupação mais financeira, individual, de resolver a própria vida. Vemos profissionais com outros objetivos, de impactar positivamente a sociedade.
Isso altera o perfil vocacional e a grade de formação?
O estudante de engenharia tradicionalmente é aquela pessoa que realmente gosta de matemática, física e também de construir, fazer projetos e de trabalhar no desenvolvimento de inovações. Isso realmente está no sangue dos engenheiros. Recentemente, há cerca de dez anos, o governo federal estabeleceu uma regra de que 10% da carga horária dos cursos tem que ser ligada à extensão. Extensão é aquela atividade em que o estudante vai desenvolver um projeto junto com a sociedade. Isso é algo que oxigena muito os cursos de engenharia.
E a extensão também tem um caráter de autonomia do estudante. No ensino e na pesquisa, em geral, o professor lidera. Mas na extensão, o estudante toma a frente. Claro que os professores apoiam, mas os estudantes lideram.
Recentemente, aqui na USP, houve uma feira de extensão. E aí foi possível ver a quantidade de projetos ligados a temas atuais. Há os tradicionais, como fabricar carros para competição ou barcos na engenharia naval, mas há projetos de foguetes, drones, pesquisas sociais e ambientais e uso de inteligência artificial no mercado financeiro. Os próprios alunos têm essa busca pela inovação, e isso aparece nesses projetos. Eles ficam muito felizes quando conseguem, já no curso, traduzir seu conhecimento em projetos relevantes para a sociedade.
Talvez pela própria versatilidade da formação, é comum vermos engenheiro em várias funções, inclusive fora da área técnica, como marketing e comercial. A mineração, por ser um setor mais estável e resiliente à desindustrialização, apresenta particularidades na perspectiva de carreira profissional?
Vemos esse perfil amplo da formação do engenheiro e isso vem da base em matemática, física, análise de dados, modelagem, simulação, capacidade de aprender e vontade de executar projetos. E esses projetos podem acontecer em várias áreas. Por isso, vários setores buscam engenheiros. Em São Paulo, por exemplo, o mercado financeiro absorve muito. Mas, falando da mineração, sem dúvida é um setor que hoje tem muita demanda. Já se ouviu falar muito do “engenheiro que virou suco”; do engenheiro que mudou de área de atuação. Isso já foi realidade forte no Brasil, mas, hoje, existe uma demanda grande para quem está na mineração. O setor está crescendo, os minerais estratégicos aceleraram essa demanda.
Existe oferta de formação suficiente para atender a essa demanda?
Muito bom falar sobre isso. O Brasil, até o começo dos anos 2000, tinha um número bem reduzido de universidades com esses cursos, principalmente públicas. São cursos caros, com laboratório, trabalho de campo. A partir dos anos 2000, houve expansão, tanto pela demanda global, com a China, quanto por políticas públicas de expansão do ensino superior. O número de formandos em engenharia de minas aumentou de cerca de 100 por ano para cerca de 300. Já chegou a picos mais altos. Hoje está estabilizado em torno de 300, mas há mais vagas do que alunos. Ou seja, o problema ainda é atratividade. Hoje, há cerca de 30 cursos no país; antes, eram sete.
Glossário da Mineração
Piezômetro
Instrumento usado para monitorar a pressão da água em solos, barragens, fundações e estruturas geotécnicas.
Fly-in fly-out (FIFO)
Modelo de trabalho em que profissionais permanecem períodos contínuos em áreas remotas e retornam depois para folgas prolongadas.
O Brasil, na engenharia, tem forte reputação na área de exploração de petróleo em águas profundas, assim como a competência em mecânica remete a engenheiros alemães. Como é isso na mineração? Quais são os polos de engenharia de mineração no mundo e como está o Brasil nesse cenário?
Normalmente, os polos de desenvolvimento de tecnologia estão nos países desenvolvidos e que têm mineração forte. Então, claro, os Estados Unidos têm muita coisa nessa área. Canadá também. A Europa, apesar de hoje não ter mineração forte, já teve. Então a Alemanha é um polo. Austrália e África do Sul também. O Brasil também tem um setor de pesquisa muito forte, principalmente nas universidades. Correndo o risco de omitir outras instituições importantes, posso mencionar vários polos daqui: USP, UFMG, UFRGS, e UFRJ.
Mesmo universidades mais novas, como a do Pará, já têm excelência em algumas áreas. O Nordeste, por sua vez, é muito forte em minerais industriais. O que não temos tanto no Brasil é fabricação de equipamentos. Temos algumas empresas, mas ainda é limitado.
O engenheiro de mineração ganha bem? E quais seriam as contrapartidas e dificuldades na profissão?
A questão salarial varia, claro, com o mercado. Mas, de modo geral, engenheiros de minas estão entre os mais bem remunerados. Agora, uma particularidade do setor é que a mineração precisa estar onde o minério está. Isso pode ser visto como positivo ou negativo. Há operações perto de grandes centros, mas também há em regiões mais isoladas no Amazonas, Goiás, Tocantins. Isso pode exigir deslocamento, mas também pode ser uma experiência muito importante. Além do crescimento profissional, a remuneração costuma ser melhor nessas regiões, com apoio de moradia e infraestrutura.
Quais seriam os pleitos institucionais para formação de competência? O que deveria melhorar em termos de política pública, educacional ou industrial?
Hoje, claro, sempre há demandas de infraestrutura nas universidades e parcerias com empresas. Mas acho que o principal pleito é o diálogo com a sociedade, para mostrar o quanto a mineração é importante e atrativa. Acho que universidades e empresas ainda são um pouco tímidas nesse esforço. Também precisamos ampliar as parcerias para que os estudantes participem de projetos e queiram permanecer no setor, porque muitos acabam indo para outras áreas. Há ainda o desafio de reter talentos no Brasil, porque há demanda global e muitos profissionais vão para países como Austrália e Canadá.