- A mineração movimentou R$ 270,8 bilhões em 2024 no Brasil, crescimento de 9,1% impulsionado pelo aumento na produção de minério de ferro e exportações de 402,4 milhões de toneladas.
- Minerais como cobre, ferro, nióbio, lítio e terras raras são componentes essenciais em smartphones, veículos elétricos, turbinas eólicas, fertilizantes e equipamentos médicos utilizados diariamente.
- O Brasil detém 90% da produção mundial de nióbio e 95% das reservas conhecidas, posicionando o setor como estratégico para a economia nacional com investimentos projetados de US$ 68,4 bilhões entre 2025 e 2029.
Ela está no celular que você segura, no asfalto da rua por onde você passa, nos alimentos da sua mesa e até nos equipamentos de um hospital. Ainda assim, a mineração costuma passar despercebida no dia a dia de muitos, mesmo sendo essencial no cotidiano da vida moderna — da infraestrutura à tecnologia, da saúde à agricultura.
Especialistas a definem como a “indústria das indústrias”, e não é por acaso: o setor movimenta bilhões de reais por ano. Em 2024, foram cerca de R$ 270,8 bilhões, segundo a Agência Brasil (EBC), o que representa um aumento de 9,1% no comparativo com 2023. “Nós tivemos um aumento em termos de produção do minério de ferro e, por conta disso, tivemos também um aumento em termos de faturamento”, declarou Raul Jungmann, presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), à EBC.
As exportações da mineração brasileira também seguem em alta: em 2024, o setor embarcou cerca de 402,4 milhões de toneladas, registrando um crescimento de 2,6% em relação a 2023. E a projeção para os próximos anos é igualmente promissora.
Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), os investimentos na área devem ultrapassar os US$ 68,4 bilhões entre 2025 e 2029 — um salto de pelo menos 6% em comparação com o ciclo anterior 2024 a 2028). A estimativa reforça o papel estratégico da mineração na economia nacional.
Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição de destaque global quando se trata de um recurso em especial: o nióbio. O país contribui com cerca de 90% da produção mundial e mantém 95% das reservas conhecidas desse metal. Considerado raro e estratégico, o nióbio é utilizado na fabricação de ligas de aço utilizadas em automóveis, turbinas de aviões, gasodutos e outros. Ele também é empregado em equipamentos eletrônicos, como os de ressonância magnética, e em baterias de íons de lítio, para melhorar a densidade de potência e a vida útil.
A base invisível que sustenta a sociedade contemporânea

Muito além da imagem associada à extração de pedras e metais, a mineração tem uma função essencial e abrange aspectos econômicos, tecnológicos e sociais. Segundo definição oficial do governo brasileiro, trata-se de “uma atividade econômica e industrial que inclui a pesquisa, a exploração (lavra) e o beneficiamento de minérios presentes no solo e no subsolo”. No Brasil, esses recursos são propriedade da União, conforme determina o artigo 176 da Constituição Federal.
Com uma grande diversidade mineral, o país adota diferentes regimes legais para explorar essas riquezas — entre eles, autorizações e concessões, registro de licença ou licenciamento, permissão para lavra garimpeira, registro de extração e regime de monopólio, no caso de minerais nucleares.
Em termos de aplicação, além de fornecer a matéria-prima para a construção civil, o agronegócio, a indústria e a geração de energia, a mineração também impulsiona o desenvolvimento tecnológico e o crescimento econômico global e por isso é considerada por especialistas como um pilar insubstituível da civilização contemporânea.
Mineração presente no dia a dia

Infraestrutura
A base da construção civil depende diretamente da mineração. Insumos minerais como brita, cimento, asfalto, tijolos, telhas, aço e outras estruturas metálicas são empregados na construção de casas, edifícios, estradas, pontes, portos e aeroportos.
Tecnologia e Eletrônicos
A revolução digital não existiria sem os minerais como cobre, níquel, ouro, prata, platina, silício e terras raras, que estão presentes em smartphones, computadores, televisores, chips e servidores. São eles que viabilizam a transmissão de dados, o armazenamento de informações e o funcionamento dos dispositivos eletrônicos.
Leia também: O que são terras raras e quais desafios tecnológicos definem o potencial do Brasil
Transporte
Carros, ônibus, trens, aviões e navios utilizam materiais extraídos da mineração em larga escala. Os mais comuns para esses usos são o aço e o alumínio, mas metais como níquel e lítio também compõem carrocerias, motores e baterias.
Agricultura

A produtividade no campo também vem do subsolo. Fosfato, potássio e calcário são usados na fabricação de fertilizantes e corretivos de solo, fundamentais para o rendimento das lavouras e a produção de alimentos em grande escala.
Utensílios Domésticos
Na cozinha, na lavanderia ou na sala: panelas, talheres, eletrodomésticos e fios elétricos contêm ferro, alumínio e cobre, por exemplo.
Saúde
Equipamentos médicos, próteses e até mesmo alguns medicamentos carregam em sua composição minerais como cálcio, magnésio, boro e bário. O mesmo vale para produtos de higiene pessoal — como o flúor presente em cremes dentais — ou pigmentos usados em cosméticos.
Energia
As fontes fósseis, como carvão mineral e gás natural, continuam presentes na matriz energética global, mas devem dar lugar a outras fontes de energia menos poluentes, e isso depende essencialmente da mineração. A geração de energias renováveis, como a solar e a eólica, depende de minerais para a fabricação de equipamentos como as placas solares fotovoltaicas e as turbinas e pás eólicas.
Minerais estratégicos
De acordo com o Plano Nacional de Mineração 2030 (PNM-30), certos minerais são considerados estratégicos para o Brasil, e isto leva em conta três critérios: dependência de importações, importância tecnológica e capacidade de geração de divisas.
Dependência de importações
Mesmo sendo um país rico em recursos naturais, o Brasil ainda depende fortemente da importação de minerais para setores-chave da economia, como o agronegócio. Um exemplo é a produção de fertilizantes à base de fosfato, potássio e nitrogênio (NPK), cuja produção é majoritariamente (mais de 70%) importada.
Inovação e transição energética

Elementos como lítio, nióbio, tântalo e terras raras são indispensáveis na fabricação de turbinas eólicas, veículos elétricos e diversos dispositivos eletrônicos. O lítio, em especial, é frequentemente chamado de “ouro branco”, devido à sua crescente importância geopolítica e industrial na produção de baterias de íons de lítio.
Geração de riqueza
Alguns recursos, como o ferro e o nióbio, geram impacto direto na balança comercial brasileira. Ambos oferecem vantagens comparativas que ajudam a consolidar o país em posição relevante no cenário internacional. No entanto, especialistas alertam que a classificação de um mineral como estratégico pode variar ao longo do tempo, influenciada por fatores como mudanças tecnológicas, políticas de sustentabilidade e contextos geopolíticos.
Além da categoria “estratégico”, os minerais também podem ser classificados como críticos, escassos ou essenciais, conforme sua disponibilidade, risco de suprimento e importância econômica.
Entre os do tipo críticos, estão terras raras, lítio e cobalto e o ponto de atenção nesses casos está nos riscos de suprimento, já que se depende de poucos países produtores e de cadeias logísticas complexas.
Os minerais escassos, por sua vez, apresentam disponibilidade naturalmente limitada ou dificuldades técnicas na extração. A demanda crescente pode tornar sua oferta insuficiente. Um exemplo é o fósforo, vital para a produção de fertilizantes.
Os minerais essenciais são os considerados indispensáveis para manter o funcionamento de setores vitais, como saúde, agricultura, energia e indústrias de alta tecnologia. Mesmo sem risco imediato de escassez, não têm substitutos viáveis em suas aplicações principais. Dentre eles estão o ferro (presente em construções e máquinas), o cobre (infraestrutura elétrica) e o potássio (fertilizantes).
Em entrevista, o presidente do Ibram, Raul Jungmann, destacou a centralidade desses recursos no mundo contemporâneo: “Hoje, não há nenhuma possibilidade de superarmos a emergência energética e passar para uma sociedade neutra sem os minerais. Sem eles, não há baterias, carros elétricos, placas fotovoltaicas. O petróleo ‘só fala para trás’, porque ele é fóssil, enquanto que nós ‘falamos para frente’. Na transição, a mineração é absolutamente fundamental”, avaliou.
Sustentabilidade e desafios do setor
Diante de crescentes pressões ambientais e sociais, o setor mineral tem adotado medidas para alinhar suas operações aos padrões globais de sustentabilidade e governança. Auditorias independentes, planos de descomissionamento e novas regras de gestão de riscos estão entre as evoluções.

A Vale, por exemplo, terá todo o seu sistema de produção no Norte do país — incluindo o complexo de Carajás — operando com beneficiamento a seco até 2027. Esse processo elimina o uso de novas barragens e reduz o consumo de água em até 93%, além de mitigar riscos ambientais.
A empresa também aposta na chamada mineração circular. A meta é que, até 2030, 10% da produção anual de minério de ferro provenha da reciclagem de rejeitos já existentes.
Outro avanço importante foi a adoção voluntária dos padrões do International Sustainability Standards Board (ISSB) para divulgação financeira de sustentabilidade — algo inédito no setor de mineração e que antecipa regulamentações brasileiras previstas para 2027.