Alexandre Silveira ministro de Minas e Energia
Foto: Alexandre Silveira ministro de Minas e Energia / Divulgação: MME

Silveira no FMF: é preciso cooperação e integração na América do Sul

Ministro de Minas e Energia defende financiamento e investimentos em infraestrutura para conectar reservas de minerais críticos a processos de beneficiamento no continente

Por Rose Guidoni, 5 min de leitura

Publicado em 22/01/2026

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O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendeu a necessidade de desenvolvimento e integração de corredores estratégicos de lítio e terras raras na América do Sul durante painel do Future Minerals Forum 2026 (FMF), em Riade, na Arábia Saudita.

Segundo ele, a estratégia deve ser implementada por meio da cooperação com países vizinhos que detenham reservas de minerais críticos necessários para a transição energética, e aqueles que dominem o processo de beneficiamento, “compartilhando tecnologia”.

“Devemos pensar em estabelecer novos corredores para os minerais estratégicos na América do Sul, considerando também o potencial de crescimento da produção de cobre, níquel e minério de ferro de alta qualidade”, disse ele, defendendo investimentos em infraestrutura e financiamento, durante sua apresentação no FMF. 

Durante o encontro, o Brasil assinou um Memorando de Entendimentos (MoU) com a Arábia Saudita, válido por cinco anos, com regras para a cooperação e parceria entre os dois países. 

O evento, que aconteceu de 13 a 15 de janeiro, é um dos principais encontros internacionais de articulação entre governos, empresas, investidores e organismos multilaterais em torno do futuro da mineração, dos minerais críticos e da segurança das cadeias globais de suprimentos.

Ferramenta para medir investimento e risco

Durante o FMF, um dos destaques foi o lançamento de uma ferramenta para medir o progresso do desenvolvimento da cadeia de valor de minerais críticos nos principais mercados. O Índice do Future Minerals Forum (FMF), desenvolvido em colaboração com a McKinsey & Co. e especialistas do setor, abrange África, Ásia Ocidental, Ásia Central e América Latina, e estabelece a primeira base de referência que inclui informações sobre o que os governos, empresas e investidores estão promovendo em relação a cadeias resilientes e responsáveis de suprimento de minerais.

Os primeiros dados revelados pela ferramenta mostram que, nos três primeiros trimestres de 2025, as fusões e aquisições globais no setor de mineração atingiram aproximadamente US$ 30 bilhões, sendo que 74% desse valor veio de transações na América Latina – região que apresentou aumento de mais de 200% nas transações desde 2021.

No mesmo período, o valor das transações no setor mineral na África caiu 79%, refletindo mudanças na percepção de risco. De acordo com o relatório da FMF, esses dados mostram um panorama de como o capital, o risco e a confiança estão moldando os mercados globais de minerais críticos. Segundo o documento, os números mostram onde o investimento está se concentrando, onde está recuando e a crescente lacuna entre a disponibilidade de minerais e a alocação de capital. Com base nesse parâmetro, o estudo da FMF acompanhará as mudanças na percepção de risco, os fluxos de investimento e o progresso em direção a cadeias de valor mineral mais resilientes.

Cenário na América Latina é considerado favorável

As discussões mostraram que países da América Latina equilibram recursos minerais substanciais, com diferentes graus de estabilidade política e consistência regulatória. Nações como o Chile estabeleceram ambientes estáveis ​​para investimentos em mineração por meio de políticas consistentes e desenvolvimento de infraestrutura, enquanto outros enfrentam desafios para manter a confiança dos investidores durante períodos de transições políticas.

A capacidade de produção de cobre da região a torna estrategicamente importante para as cadeias de suprimentos globais, principalmente com o crescimento da demanda. No entanto, a disponibilidade de água, as relações com as comunidades e a conformidade ambiental ainda apresentam desafios.

As projeções da demanda global reforçam o papel fundamental dos minerais críticos. O cenário de Emissões Líquidas Zero da Agência Internacional de Energia (IEA), por exemplo, prevê um aumento de 250% na demanda até 2030, sendo que os veículos elétricos a bateria, por si só, representarão 40% do consumo global de elementos de terras raras. 

Em sua apresentação no FMF, Gustavo Pimenta, CEO da Vale, destacou que algumas frentes são essenciais para o futuro, como trabalhar junto a governos para acelerar os processos de licenciamento, além de aprimorar a engenharia, usar as ferramentas digitais adequadas e trabalhar considerando o princípio da circularidade para reduzir a pegada de carbono nas operações. 

Gustavo Pimenta, CEO da Vale
Gustavo Pimenta, CEO da Vale (Imagem: transmissão via YouTube/ canal Future Mineral)

Pimenta defendeu a importância da redução de resíduos no setor, destacando que a Vale já discute a possibilidade de mineração com “zero resíduos”. “No futuro, a intenção é usar 100% dos resíduos em subprodutos. Devemos ser capazes de fazer mais mineração circular”, afirmou. “No passado, alguns materiais descartados eram vistos como rejeitos. Hoje, entendemos que podem ser reprocessados, o que evita o desperdício e o acúmulo de resíduos”, completou.

Pilares do Índice FMF

Palestra no Future Minerals Forum com apresentador e tela de dados sobre minerais em destaque
Foto: Future Minerals Forum

O Índice apresentado durante o Future Minerals Forum 2026 utiliza uma estrutura de sete pilares, concebida para avaliar a resiliência da cadeia de valor de ponta a ponta em países produtores, exportadores e consumidores. Cada pilar aborda requisitos institucionais, de infraestrutura ou de capacidade que influenciam a viabilidade do projeto e os fluxos de investimento ao longo da cadeia de suprimentos minerais.

1. Ambiente político e regulatório

Pilar que avalia os mecanismos de apoio governamental e a clareza regulatória que viabilizam o desenvolvimento do setor mineral, reconhecendo que políticas e regulamentações favoráveis ​​formam a base para o desenvolvimento da cadeia de suprimentos. Além disso, a clareza regulatória é identificada como um diferencial fundamental para atrair investimentos responsáveis.

Países com processos de licenciamento simplificados, códigos de mineração transparentes e implementação consistente de políticas relacionadas ao setor, geralmente, obtêm pontuações mais altas neste quesito.

2. Financiamento

Os padrões de alocação de capital e a avaliação do risco de investimento são o núcleo deste pilar. Soluções inovadoras são determinantes para garantir e gerir os investimentos necessários para projetos de mineração. 

3. Infraestrutura

As redes de transporte multimodal e as capacidades de otimização logística são determinantes para a chegada dos minerais aos mercados globais. A estrutura avalia rodovias, ferrovias, portos e outros elementos de infraestrutura. Assim, países com redes logísticas melhor desenvolvidas geralmente apresentam custos de transporte mais interessantes e maior confiabilidade da cadeia de suprimentos.

4. Governança e sustentabilidade

A conformidade com os critérios ESG impacta o financiamento de projetos, o acesso a mercados e a sustentabilidade operacional a longo prazo. Isso inclui o rastreamento da pegada de carbono, a avaliação do impacto na comunidade e protocolos de otimização do uso da água. Por isso, o tema tem papel relevante na definição de critérios do índice. 

5. Desenvolvimento de capital humano

Habilidades, capacidade de pesquisa e mecanismos de transferência de conhecimento são requisitos identificados como necessários para o desenvolvimento mineral. O setor, atualmente, enfrenta uma significativa escassez de talentos, sendo o capital humano um desafio maior do que as limitações de equipamentos, capital ou tecnologia.

6. Base de Recursos Geológicos

Dados geológicos confiáveis ​​e acessíveis em países produtores, exportadores e consumidores são necessários para atrair investimentos. O arcabouço reconhece que a transparência e a padronização destas informações aumentam a confiança dos investidores, reduzindo o risco de exploração e permitindo avaliações de recursos mais precisas. Países com levantamentos geológicos abrangentes e dados publicamente disponíveis geralmente demonstram maior atratividade para investimentos.

7. Resiliência

O índice do Future Minerals Forum integra métricas quantitativas com avaliações qualitativas para fornecer pontuações relacionadas à resiliência da cadeia de suprimentos, incluindo indicadores de volatilidade de mercado, métricas operacionais e de estabilidade.