Ilustração digital representando a cadeia global de suprimentos e a distribuição dos principais bens minerais pelo mundo
Ilustração digital representando a cadeia global de suprimentos e a distribuição dos principais bens minerais pelo mundo

Mapa da mina: quem controla os minerais do mundo? 

Banco de dados mapeia 7.104 instalações em 128 países e revela a concentração de ferro, ouro, cobre e outros minerais estratégicos 

Por Hélvio Macellane *, 5 min de leitura

Publicado em 14/08/2026

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A mineração mundial ganhou um mapa mais preciso. Atualizado em julho, o Global Mining Dataset v1.5, do Conselho Internacional de Mineração e Metais, o ICMM, reúne 7.104 instalações públicas, entre minas, fundições, refinarias, siderúrgicas e unidades de processamento. A base abrange 128 países e 46 commodities primárias.  

O levantamento permite localizar os principais polos de carvão, ouro, cobre, minério de ferro, lítio, níquel e terras raras. Os dados também ajudam a compreender por que recursos essenciais à transição energética, à digitalização e à indústria de defesa permanecem concentrados em poucos países. 

A nova versão tem menos registros, mas maior nível de confiabilidade. O ICMM retirou 3.193 instalações consideradas duplicadas, históricas, inativas, incorretamente classificadas ou relacionadas a projetos de exploração, e não a operações de grande escala. A revisão combinou inteligência artificial, análise geoespacial e verificação manual. 

O Brasil diante do novo mapa mineral 

Uma grande escavadeira amarela está empoleirada no topo de um monte de carvão ou minerais em um local de mineração aberto de propriedade da Vale Projeções, com montanhas e um céu parcialmente nublado ao fundo. Correias transportadoras correm ao longo da pilha.
Produção de minério de ferro na mina Brucutu (Foto: Ricardo Teles/ Vale)

Os dados colocam o Brasil entre os países mais relevantes e diversificados da mineração mundial. O país reúne posições importantes em minério de ferro, ouro, estanho e tungstênio, além do potencial associado ao nióbio, ao lítio e às terras raras

O desafio brasileiro, no entanto, está em transformar presença geológica em capacidade industrial. Possuir reservas ou minas não garante domínio da cadeia. O maior valor costuma estar no processamento, no desenvolvimento de materiais avançados e na fabricação dos componentes que chegam aos mercados de energia, mobilidade e tecnologia.

Um infográfico em português mostra um mapa-múndi com dados sobre a mineração de minerais em todo o mundo, incluindo carvão, ouro, cobre, minério de ferro, terras raras, lítio, níquel e metais do grupo da platina em diferentes países.
Infográfico analisa a infraestrutura mineral internacional, evidenciando a concentração de recursos essenciais para a transição energética e indústria de base, como minério de ferro, lítio e terras raras

Algumas descobertas do novo mapa global da mineração: 

1. O carvão ocupa metade do mapa 

Das 7.104 instalações públicas catalogadas pelo ICMM, 3.736 têm o carvão como commodity primária. A China lidera com 1.468 minas, seguida pelos Estados Unidos, com 837, e pela Indonésia, com 351. 

Mesmo pressionado pelas metas climáticas e pelo avanço das fontes renováveis, o carvão continua sendo o recurso mais presente no inventário global da mineração. 

2. A geografia mundial do ouro 

O ouro é a segunda commodity mais numerosa da base, com 817 instalações. Considerando apenas as operações classificadas como minas, a Austrália aparece na liderança, com 178, seguida pelos Estados Unidos, com 141. 

África do Sul, Canadá e Brasil completam as cinco primeiras posições. O Brasil aparece com 39 minas de ouro registradas. 

3. O cobre mostra que quantidade não é produção 

Os Estados Unidos lideram o banco em número de minas de cobre, com 92 registros. O Chile aparece com 64, seguido por Austrália, China e Canadá. 

O resultado não representa um ranking de produção. Um país pode ter menos minas e produzir mais cobre, dependendo do tamanho, do teor mineral e da produtividade de suas operações. 

4. O ferro chinês não elimina a dependência externa 

A China possui 120 minas de minério de ferro registradas, à frente da Índia, com 109, da Austrália, com 69, e do Brasil, com 45. 

Mesmo com o maior número de instalações, a China compra grandes volumes de minério no mercado internacional para abastecer sua indústria siderúrgica. Austrália e Brasil ocupam posições estratégicas nessa cadeia. 

5. A diversidade mineral coloca o Brasil entre os líderes 

O banco reúne 196 instalações brasileiras e aproximadamente 20 commodities primárias. Minério de ferro, ouro, aço, estanho e tungstênio são os principais destaques. 

O Brasil ocupa a oitava posição em número de instalações, atrás de China, Estados Unidos, Austrália, Indonésia, Índia, Rússia e África do Sul. 

6. O lítio cresce mais rápido que o número de minas 

O banco apresenta 50 instalações com lítio como commodity primária, das quais 49 incluem atividades de mineração. Estados Unidos e Austrália têm os maiores números de operações registradas. 

Argentina, Brasil, Zimbabwe, Canadá e China aparecem na sequência. A quantidade relativamente pequena de minas contrasta com o avanço da demanda por baterias e sistemas de armazenamento de energia. 

7. O Triângulo do Lítio concentra recursos, não minas 

Argentina, Bolívia e Chile possuem importantes recursos de lítio em salmouras, mas não lideram o banco em número de instalações. A Argentina aparece com quatro minas, o Chile com duas e a Bolívia com uma. 

A diferença está na escala. Grandes salares podem concentrar elevada capacidade produtiva em poucas operações, enquanto regiões de rocha dura apresentam maior dispersão de minas. 

8. O salto industrial da Indonésia 

A Austrália lidera a base em número de minas de níquel, com 20 registros, seguida pelo Canadá, com 16. A Indonésia aparece com menos operações classificadas pela commodity primária. 

A posição indonésia no mercado resulta da escala das minas e de uma política voltada ao processamento local. O país transformou o níquel em base para atrair refinarias e investimentos na cadeia de baterias. 

9. O cobalto escondido em outras minas 

Somente 11 instalações apresentam o cobalto como commodity primária. Nove delas são classificadas como minas. 

O número reduzido pode causar uma impressão equivocada. Parte significativa do cobalto é obtida como subproduto de operações de cobre e níquel, o que exige analisar commodities secundárias e adicionais. 

10. As terras raras aparecem onde menos se espera 

A busca ampliada identifica 21 instalações associadas a terras raras. Entre elas estão Bayan Obo, na China; Mountain Pass, nos Estados Unidos; Kiruna, na Suécia; e Pitinga e Catalão, no Brasil. 

As terras raras podem ser encontradas junto com ferro, estanho, nióbio, fosfato e areias minerais. Por isso, parte desse potencial fica escondida quando a análise considera apenas a commodity principal. 

11. O que torna as terras raras tão estratégicas 

As terras raras não são necessariamente escassas no subsolo. A dificuldade está na concentração, separação e purificação dos 17 elementos que integram o grupo. 

A produção exige tecnologia, investimento, energia e gerenciamento de resíduos. O país que domina o processamento ocupa uma posição mais estratégica do que aquele que apenas possui recursos minerais. 

12. O tungstênio brasileiro fora dos holofotes 

O levantamento apresenta 11 minas brasileiras de tungstênio, número superior aos registros da Austrália e da Coreia do Sul, com seis cada, e da Bolívia, com cinco. 

O resultado indica maior presença de instalações, e não necessariamente liderança em produção. O metal é empregado em ferramentas de corte, ligas resistentes, equipamentos eletrônicos e aplicações aeroespaciais. 

13. A força mineral da África do Sul 

Das 41 minas de metais do grupo da platina identificadas, 19 estão na África do Sul. Japão, Zimbabwe, Brasil e Estados Unidos também aparecem no levantamento. 

Platina, paládio e ródio são utilizados em catalisadores automotivos, eletrônica, indústria química e tecnologias de hidrogênio. A concentração geográfica aumenta a exposição da cadeia a riscos operacionais e logísticos. 

* Especial para o Radar Mineração.