A mineração mundial ganhou um mapa mais preciso. Atualizado em julho, o Global Mining Dataset v1.5, do Conselho Internacional de Mineração e Metais, o ICMM, reúne 7.104 instalações públicas, entre minas, fundições, refinarias, siderúrgicas e unidades de processamento. A base abrange 128 países e 46 commodities primárias.
O levantamento permite localizar os principais polos de carvão, ouro, cobre, minério de ferro, lítio, níquel e terras raras. Os dados também ajudam a compreender por que recursos essenciais à transição energética, à digitalização e à indústria de defesa permanecem concentrados em poucos países.
A nova versão tem menos registros, mas maior nível de confiabilidade. O ICMM retirou 3.193 instalações consideradas duplicadas, históricas, inativas, incorretamente classificadas ou relacionadas a projetos de exploração, e não a operações de grande escala. A revisão combinou inteligência artificial, análise geoespacial e verificação manual.
O Brasil diante do novo mapa mineral

Os dados colocam o Brasil entre os países mais relevantes e diversificados da mineração mundial. O país reúne posições importantes em minério de ferro, ouro, estanho e tungstênio, além do potencial associado ao nióbio, ao lítio e às terras raras.
O desafio brasileiro, no entanto, está em transformar presença geológica em capacidade industrial. Possuir reservas ou minas não garante domínio da cadeia. O maior valor costuma estar no processamento, no desenvolvimento de materiais avançados e na fabricação dos componentes que chegam aos mercados de energia, mobilidade e tecnologia.

Algumas descobertas do novo mapa global da mineração:
1. O carvão ocupa metade do mapa
Das 7.104 instalações públicas catalogadas pelo ICMM, 3.736 têm o carvão como commodity primária. A China lidera com 1.468 minas, seguida pelos Estados Unidos, com 837, e pela Indonésia, com 351.
Mesmo pressionado pelas metas climáticas e pelo avanço das fontes renováveis, o carvão continua sendo o recurso mais presente no inventário global da mineração.
2. A geografia mundial do ouro
O ouro é a segunda commodity mais numerosa da base, com 817 instalações. Considerando apenas as operações classificadas como minas, a Austrália aparece na liderança, com 178, seguida pelos Estados Unidos, com 141.
África do Sul, Canadá e Brasil completam as cinco primeiras posições. O Brasil aparece com 39 minas de ouro registradas.
3. O cobre mostra que quantidade não é produção
Os Estados Unidos lideram o banco em número de minas de cobre, com 92 registros. O Chile aparece com 64, seguido por Austrália, China e Canadá.
O resultado não representa um ranking de produção. Um país pode ter menos minas e produzir mais cobre, dependendo do tamanho, do teor mineral e da produtividade de suas operações.
4. O ferro chinês não elimina a dependência externa
A China possui 120 minas de minério de ferro registradas, à frente da Índia, com 109, da Austrália, com 69, e do Brasil, com 45.
Mesmo com o maior número de instalações, a China compra grandes volumes de minério no mercado internacional para abastecer sua indústria siderúrgica. Austrália e Brasil ocupam posições estratégicas nessa cadeia.
5. A diversidade mineral coloca o Brasil entre os líderes
O banco reúne 196 instalações brasileiras e aproximadamente 20 commodities primárias. Minério de ferro, ouro, aço, estanho e tungstênio são os principais destaques.
O Brasil ocupa a oitava posição em número de instalações, atrás de China, Estados Unidos, Austrália, Indonésia, Índia, Rússia e África do Sul.
6. O lítio cresce mais rápido que o número de minas
O banco apresenta 50 instalações com lítio como commodity primária, das quais 49 incluem atividades de mineração. Estados Unidos e Austrália têm os maiores números de operações registradas.
Argentina, Brasil, Zimbabwe, Canadá e China aparecem na sequência. A quantidade relativamente pequena de minas contrasta com o avanço da demanda por baterias e sistemas de armazenamento de energia.
7. O Triângulo do Lítio concentra recursos, não minas
Argentina, Bolívia e Chile possuem importantes recursos de lítio em salmouras, mas não lideram o banco em número de instalações. A Argentina aparece com quatro minas, o Chile com duas e a Bolívia com uma.
A diferença está na escala. Grandes salares podem concentrar elevada capacidade produtiva em poucas operações, enquanto regiões de rocha dura apresentam maior dispersão de minas.
8. O salto industrial da Indonésia
A Austrália lidera a base em número de minas de níquel, com 20 registros, seguida pelo Canadá, com 16. A Indonésia aparece com menos operações classificadas pela commodity primária.
A posição indonésia no mercado resulta da escala das minas e de uma política voltada ao processamento local. O país transformou o níquel em base para atrair refinarias e investimentos na cadeia de baterias.
9. O cobalto escondido em outras minas
Somente 11 instalações apresentam o cobalto como commodity primária. Nove delas são classificadas como minas.
O número reduzido pode causar uma impressão equivocada. Parte significativa do cobalto é obtida como subproduto de operações de cobre e níquel, o que exige analisar commodities secundárias e adicionais.
10. As terras raras aparecem onde menos se espera
A busca ampliada identifica 21 instalações associadas a terras raras. Entre elas estão Bayan Obo, na China; Mountain Pass, nos Estados Unidos; Kiruna, na Suécia; e Pitinga e Catalão, no Brasil.
As terras raras podem ser encontradas junto com ferro, estanho, nióbio, fosfato e areias minerais. Por isso, parte desse potencial fica escondida quando a análise considera apenas a commodity principal.
11. O que torna as terras raras tão estratégicas
As terras raras não são necessariamente escassas no subsolo. A dificuldade está na concentração, separação e purificação dos 17 elementos que integram o grupo.
A produção exige tecnologia, investimento, energia e gerenciamento de resíduos. O país que domina o processamento ocupa uma posição mais estratégica do que aquele que apenas possui recursos minerais.
12. O tungstênio brasileiro fora dos holofotes
O levantamento apresenta 11 minas brasileiras de tungstênio, número superior aos registros da Austrália e da Coreia do Sul, com seis cada, e da Bolívia, com cinco.
O resultado indica maior presença de instalações, e não necessariamente liderança em produção. O metal é empregado em ferramentas de corte, ligas resistentes, equipamentos eletrônicos e aplicações aeroespaciais.
13. A força mineral da África do Sul
Das 41 minas de metais do grupo da platina identificadas, 19 estão na África do Sul. Japão, Zimbabwe, Brasil e Estados Unidos também aparecem no levantamento.
Platina, paládio e ródio são utilizados em catalisadores automotivos, eletrônica, indústria química e tecnologias de hidrogênio. A concentração geográfica aumenta a exposição da cadeia a riscos operacionais e logísticos.
* Especial para o Radar Mineração.